elisão das vogais átonas finais no português europeu

Discussion in 'Português (Portuguese)' started by Nino83, Nov 6, 2013.

  1. Nino83 Senior Member

    Italian
    Oi para todos.

    Eu li que no português europeo tem uma tendência para não pronunciar as vogais [ɯ̽] (e, i finais) e (o, u finais) no final de palavra.
    David James Silva, em The Variable Elision of Unstressed Vowels in European Portuguese: A Case Study, diz que isso acontece no 100% dos casos por [ɯ̽] e no 92% por quando a palavra está na fim duma frase fonológica, no 77% e 71% dos casos quando a silaba (da palavra) seguinte estiver átona e no 63% e 66% quando a silaba (da palavra) seguinte estiver tónica, pelo contrário a vogal [ɐ] (a final) é sempre pronunciada.
    O sotaque esaminado foi aquelo de Faial (que sería aquelo mais próximo ao português standard).

    O Silva diz:

    Se isso acontecesse muitas formas verbais também podrias ser pronunciadas na mesma maneira (por exemplo a primeira e a terceira pessoa singular no presente do indicativo dos verbos da segunda e terceira conjugação).

    O que eu gostaria de preguntar é se vocês relevam esse fenómeno e se na opinão de vocês é un fenómeno que está aumentando.
     
  2. mexerica feliz

    mexerica feliz Senior Member

    Foneticamente muitos lisboetas e algarvios pronunciam falo como fal' mas fonologicamente conseguem ouvir que se trata de falo, e não de fale.
    (Acho que a vogal tônica em Fal(e) português! é mais longa que a em Fal(o) português.)
    Usando a terminologia inglesa, se trata de um transitional merger in production, but not in perception.

    De vez em quando assisto a tv portuguesa, a muitas vezes ouço isso...meninos bonitos pronunciado como mninx bunitx.
    (Compare com as reduções brasileiras: noites quentes pronunciado como noitç kentç ou medicina, descabido, capital pronunciado como metçina, dçkabido, cap'tal etc.
    Acho que em 200 anos iremos falar como os portugueses, redução das vogais átonas é uma tendência geral em português).
     
    Last edited: Nov 7, 2013
  3. Nino83 Senior Member

    Italian
    Muito obrigado, mexerica feliz.
    Essa redução é também presente no sotaque do Nordeste e do Rio Grande do Sul o é na tendéncia regional (Minas Geiras, Rio, São Paulo)?

    Ciao
     
  4. Codinome Shlomo Senior Member

    Portuguese (Brazil)
    Essa redução, na capital (e, generalizando, talvez em toda região metropolitana) do Rio Grande do Sul, é comum.
     
  5. Nino83 Senior Member

    Italian
    Segundo o exemplo que Istituto Camões faz, em PB não teria a redução da e pretônica na fala coloquial:

    A menina faltou ao teste de psicologia
    1) [​IMG] pausada (e silabada) em PE;
    2) [​IMG] coloquial em PE;
    3) [​IMG] pausada (e silabada) em PB;
    4) [​IMG] coloquial em PB

    Portanto, na opinão de vocês, também no PB coloquial é frequente a suppressão da e pretônica e da postônica?

    Es. Falo com você [f'al kõ vo'se], premeditado [prmdi'tad]

    A respeito da e postônica, essa, no PB, é sempre pronunciada ou é suprimida?

    Es. Falou com ele [fa'lo kõ 'eli] ou [fa'lo kõ 'el]

    Obrigado

    Ciao
     
    Last edited: Nov 7, 2013
  6. mexerica feliz

    mexerica feliz Senior Member

    Eu diria que na fala pausada temos: pi-si-kó-lo-ga, ca-pi-tal, me-di-ci-na, des-kul-pa/djis-kul-pa, noi-tchiç ken-tchiç, adji-mi-rar, adji-vi-nhar, rí-tchi-mo, ma-rí-tchi-mo, de uma amiga (5-6 sílabas)
    Na fala rápida> psikóloga, captal, medçina, dçkulpa, noitç kentç, adjmirar, adjvinhar, ritchmo, marítchmo, djumamiga (4 sílabas)
     
    Last edited: Nov 8, 2013
  7. Nino83 Senior Member

    Italian
    Obrigado mexerica, por lo tanto em PB as reducões das vogais átonas são menos que em PE.
    Parece que a e a (a não ser que nos plurais) postônicas são ainda claramente pronunciadas em PB.
     
  8. mexerica feliz

    mexerica feliz Senior Member



    ''Claramente''...Não são não.

    ''No PB, as vogais átonas finais como em safári e pato são frouxas em relação às tônicas finais de jacu e saci. '' (página 42).

    ''No PB, o desvozeamento de vogais acontece em posição átona final de palavra, por exemplo em vocábulos como papo, que deve, nesse caso, ser transcrito
    como: ['papụ]'' (página 41).

    fonte: http://ppglin.posgrad.ufsc.br/files/2013/04/Livro_Fonetica_e_Fonologia.pdf
     
  9. Alandria Senior Member

    Brasil - São Paulo
    Português
    Em Minas Gerais é onde mais se reduzem as vogais átonas dentro do Brasil.
     
  10. pi92 New Member

    Português - Portugal
    O fenómeno é real e é das primeiras coisas que os brasileiros reparam no sotaque português. Mas um português que faça um esforço por falar de forma clara, por exemplo numa apresentação, pronuncia as vogais todas. O que quero dizer é que "idealmente" ainda se pronuncia tudo, e apesar de tudo a letra não desaparece completamente - um português, ao dizer uma palavra espanhola como "amistad", ainda terá tendência a dizer "amistade" mesmo que a última letra seja quase imperceptível.

    (Já agora, é pouco elegante dizer "o Silva"...)
     
  11. Carfer

    Carfer Senior Member

    Paris, France
    Portuguese - Portugal
    Não necessariamente, se se referir à obra e não especificamente ao autor, como me parece que talvez tenha sido a intenção de nino83, especialmente quando são obras de referência (como por exemplo 'o Rouvière' para referir o tratado de Anatomia que (não sei se ainda) se usa nas faculdades de Medicina).
     
  12. Nino83 Senior Member

    Italian
    Essa era a minha intenção. Em Italia é normal dizer il Dante, il Manzoni (o Dante, O Manzoni) quando se fala dum autor (ao contrario é mais elegante utilizar o artigo).

    Obrigado pela explicação
     
    Last edited: Nov 28, 2013
  13. Nino83 Senior Member

    Italian
    Olá a todos.

    Hoje vi uma trasmissão da RTP. As presentadoras entrevistaram muitas pessoas de Vila do Bispo, Algrave, e notei que as pessoas mais velhas (que com muita probabilidade têm um sotaque mais forte) reduziam todos os finais (e foi muito difícil entendê-las) mas as mais jovens não falavam na mesma maneira.

    Daquí a minha pergunta: é a suppressão do final só uma caraterística da fala dialetal do sul? Há variações sociais ou de fala formal/informal?
     
    Last edited: Sep 5, 2014
  14. Alentugano

    Alentugano Senior Member

    Português - Portugal

    É sempre mais fácil responder se você der exemplos...
     
  15. Nino83 Senior Member

    Italian
    Não lembro neste momento, a transmissão terminou há horas. :)
    O que lembro é que os mais velhos omitiam sistematicamente os /o/ () finais, coisa que não acontecia com os mais jovens.
    Mas não é muito importante, obrigado mesmo assim.
     
  16. Hagafiero Senior Member

    Belo Horizonte, Minas Gerais
    Portuguese - Brazil
    Eu percebo isso na minha própria fala.
    Este artigo estuda o apagamento das vogais átonas finais em Itaúna (Minas Gerais) e diz que, nessa cidade, tal apagamento resulta num L velarizado em fim de palavra, assim como em Portugal.
    “falou que tinha bomba na [is'kɔɫ] (escola)” (th18)“cortou o [ka'beɫ] (cabelo) ['deɫ] (dele).”
     
  17. xiskxisk Senior Member

    Lisbon - Portugal
    Portuguese - Portugal

    Isso não acontece apenas com as vogais finais.

    No caso do "e mudo", acontece quase em todas as situações excepto em situações que a omissão da vogal tornaria a pronúncia quase impossível: metediço.
    No caso do "u" (que pode corresponder a um "o átono"), também pode ser omitido dentro da palavra: possibilidade -> psiblidad, psicologia -> psiculgia, professor -> prsor.

    Sim, o nosso cérebro consegue perceber as diferenças subtis, e inclusive fazer-nos ouvir vogais que não foram realmente pronunciadas. Quando falamos também acreditamos pronunciá-las.

    É curioso que, talvez por não terem o "e mudo", as vogais que omitem são diferentes que as que se omitem no Português de Portugal. Aqui seriam pronunciadas desta forma:
    psicólga, capital, mdicina, dxculpa, noitx kentx, admirar, advinhar, ritmo, marítimo, dumàmiga.


    Podemos pronunciar mais vogais em fala mais pausada, mas nunca pronunciamos todas, iria soar mal, especialmente as vogais átonas finais e os "e mudos".


    Sim, a supressão de vogais e monotongação é uma característica do sul de Portugal, no norte ocorre o oposto. Por exemplo, a maneira como o pessoal do norte pronuncia "medo", soa a "miâdu" aos ouvidos do sul, e "porto" soa a "puârto".
     
    Last edited: Sep 5, 2014
  18. Alandria Senior Member

    Brasil - São Paulo
    Português
    Assista agora: na 'I' Rtp Internacional
    Noto na época que tinha RTP, sempre ouvia esse "I". É impressão minha?
    AS pessoas do Norte de Portugal claramente adicionam vogais em algumas palavras, tal como nos infinitivos, não estou certa? Tipo: QuererE, FazerE, ComerE
     
  19. anaczz

    anaczz Senior Member

    À beira do Oceano Atlântico
    Português (Brasil)
    Não seria um "e" no final, soa mais como a pronúncia da consoante um pouco mais acentuada, por algumas pessoas: amore, telemóbile (para telemóvel)
    Alguns nortenhos dizem iágua e iafta.
    Na região de Lisboa, ouço constantemente só uisso (só isso) e treuze (13)
     
  20. xiskxisk Senior Member

    Lisbon - Portugal
    Portuguese - Portugal
    Adicionam mesmo um "e". Mas isso até em Lisboa acontece. É quando tentam prolongar a frase para dar uma certa entoação: Está a chovereeee!

    Isso do i é para desfazer hiatos: vamos à iágua, a iAna. Também acontece na pronúncia padrão, em verbos como: saem, constroem, etc.

    Quanto à adição dum u para desfazer o hiato em "só isso" nunca reparei.
     
  21. Nino83 Senior Member

    Italian
    Obrigado a todos pelas respostas.
    O facto é que durante esta transmissão (que é "verão total" de ontem) havia uma grande diferença entre os jovens e os velhos.
    Pela minha (pequenha) experência os jornalistas têm quase sempre uma pronúncia muito clara, quer quando falam devagar quer quando falam depressa, pelo contrário as pessoas da rua (os entrevistados) não pronúnciam as vogais finais (o /e/ e o /o/) quando falam depressa.
    O facto é que os mais velhos, nesta trasmissão, comiam estas vogais também quando falavam devagar, sem pressa.

    Olá xiskxisk, aquilo de que você fala é uma caraterística do português standard.
     

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