Isto aqui era uma orquestra

Discussion in 'Português (Portuguese)' started by CarlitosMS, Sep 25, 2013.

  1. CarlitosMS Senior Member

    Murcia
    Spanish - Spain
    Olá a todos

    Gostava de saber o que quer dizer esta frase que aparece na canção "Os índios da Meia-Praia" do Zeca Afonso, não sei se é uma metáfora ou uma mensagem subliminar.

    Eram mulheres e crianças
    Cada um com o seu tijolo
    Isto aqui era uma orquestra
    Quem diz o contrário é tolo

    Um abraço a todos
    Carlos M.S.
     
  2. Carfer

    Carfer Senior Member

    Paris, France
    Portuguese - Portugal
    Metáfora, sim e mensagem também. Não diria subliminar, mas é evidente que há uma mensagem nessa letra.

    Esta canção tem uma história que importa contar para que perceba o que diz. A Meia-Praia é uma comunidade piscatória do Algarve nas imediações de Lagos, formada por pescadores oriundos de Monte Gordo, no Sotavento algarvio, constituída em condições muito precárias. Nos dois anos a seguir à revolução do 25 de Abril de 1974, a população do bairro empenhou-se em substituir as cabanas onde vivia por habitações de pedra e na constituição de uma cooperativa de pesca. A canção, que julgo ter sido escrita para a banda sonora do filme 'Continuar a viver (Índios da Meia Praia)' do António Cunha Telles (1977, encontra-lo no youTube), trata dessa luta intensamente vivida dos habitantes da Meia Praia, todos empenhados em mudar a sua vida ('Eram mulheres e crianças/Cada um com o seu tijolo'). Evidentemente, quando diz 'Isto aqui era uma orquestra' está metaforicamente a referir-se à cooperação de todos para a concretização do seu objectivo, da mesma forma que cada músico contribui para a sua orquestra. E, claro, há uma mensagem política na exaltação da iniciativa popular na resolução dos seus próprios problemas. No entanto, não me parece que seja subliminar. Ao contrário de muitas das mais célebres canções do José Afonso, esta já foi escrita em liberdade, já não precisava de recorrer aos subterfúgios, às entrelinhas e às meias palavras indispensáveis para contornar a censura e que tornam por vezes tão difícil a sua interpretação, mesmo para aqueles que fomos seus contemporâneos e com ele partilhámos preocupações e visão do mundo.
    Suponho que sabes que o Zeca foi aquilo que na época se chamava um 'cantor de intervenção', que se preocupava com denunciar as injustiças e as arbitrariedades da ditadura. Para ter uma ideia do que diz é essencial conhecer a história portuguesa daquele período, particularmente naquelas canções que têm um fundo político, caso, por exemplo, de 'A morte saiu à rua' que se refere ao assassinato do escultor e quadro clandestino do Partido Comunista José Dias Coelho na Rua da Creche, em Lisboa, ou de 'Cantar Alentejano', que também se reporta ao assassinato pela Guarda Nacional Republicana da camponesa alentejana Catarina Eufémia. As canções tradicionais do folclore português ('São Macaio', Senhora do Almortão', por exemplo), os fados de Coimbra, mesmo os que têm forte conteúdo político como o célebre 'Os vampiros', não levantam problemas de maior, são mais fáceis de interpretar. E há, claro, canções razoavelmente lineares como a 'Grândola, vila morena', também ela uma homenagem ao povo de Grândola e à sua luta e que hoje todos conhecem por ter sido a senha da revolução do 25 de Abril de 1974.
     

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