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Os deshumanos filhos da Africa (A. Herculano)

Discussion in 'Português-Español' started by César Lasso, Feb 10, 2013.

  1. César Lasso Senior Member

    Madrid (España)
    castellano, España
    A expressão do título encontra-se numa novela do Herculano escrita em 1838. Respeitei portanto a grafia da época, que hoje seria "os desumanos filhos da África".

    Jesus santíssimo! Quase quereria chamar o Herculano de racista! Mas sei que estaria a ser injusto, porque estaria a aplicar-lhe um conceito que ainda não existia no seu tempo: faltava a reelaboração das teorias de Darwin a mãos de filósofos e sociólogos para poder falar em "racismo".

    Também sou muito cauteloso com termos usados no s. XIX, porque nem sempre deveria entender-se o mesmo do que hoje. Para provar a minha cautela, direi que Eça de Queirós se refere em repetidas ocasiões aos árabes como "fanáticos", mas qualquer aficionado ao Queirós poderia saber que ele sempre manteve uma simpatia pelo povo árabe, após a sua viagem de juventude ao Oriente. Mais: em Eça, é possível encontrar expressões intrigantes como "fanatismo bondoso", e declarações como que os árabes do seu tempo já eram incapazes de organizar uma jihâd (Eça via que o colonialismo europeu avançava avassalador perante a tristeza passiva dos árabes, mas enganou-se por uma vez: no mesmo momento em que escrevia isso, no Sudão já começava a bulir a jihad do Mahdi contra os ingleses). Então, "fanáticos bondosos incapazes de organizar uma jihad? Valha o exemplo para ilustrar as cautelas com que por vezes deveremos abordar uma expressão.

    Mas eu estou verdadeiramente intrigado por esse "desumanos". Estaria Herculano a chamar os berberes de cruéis e brutos? Que mais poderia sugerir o termo?

    A cita completa, para contextualizar:

    O arabe fero e o incansavel sarraceno se haviam ligado com os deshumanos filhos da Africa. A mesma crença os tinha fraternizado; o mesmo espirito de uma religião feroz, e de uma ambição desvairada, os havia tornado conquistadores...

    Obrigado pelas possíveis sugestões, definições e traduções de "desumano"!
     
  2. Maragato76

    Maragato76 Senior Member

    Olá César Lasso, eu acredito que seja mesmo esse o significado, posto que na própria cita está a referir-se a "o mesmo espirito de uma religião feroz", adjectivo sinónimo de cruel.
     
  3. Carfer

    Carfer Senior Member

    Paris, France
    Portuguese - Portugal
    Pode simplesmente querer dizer que não são humanos, no sentido de não pertencerem (plenamente) ao género humano. Não me atrevo a anematizar Herculano como racista, já que mais não seja pelas razões que dizes. Também não tenho ideia do que pensava Herculano em concreto sobre os negros, mas é provável que não escapasse à ideologia dominante na altura, que os considerava, pelo menos, como inferiores ('os deshumanos filhos da África' são, na minha interpretação, os negros com quem os árabes e os sarracenos se miscigenaram). Tal como a leio, nessa frase Herculano revela manifesto e profundo desprezo pelos negros africanos, que acha que nem humanos são. Aos nossos olhos é uma afirmação claramente racista. Os contos que Herculano escreveu têm um traço comum: enaltecer os portugueses (ou os espanhóis, como é o caso neste conto, não no sentido moderno de súbditos do reino de Espanha, mas no de habitantes das Espanhas, englobando, portanto, os portugueses e espanhóis actuais), considerá-los superiores aos demais povos, e atribuir aos seus inimigos, neste caso aos mouros, qualidades negativas (crueldade, selvajaria, ferocidade) ou positivas (força, valentia, coragem), estas com o objectivo de valorizar ainda mais as vitórias dos portugueses sobre eles, ou então outras como a adesão a uma religião 'odiosa', que fazia deles inimigos perversos, uma espécie de filhos do Diabo. Repara nalguns exemplos da adjectivação usada para os caracterizar neste mesmo conto ou nas acusações que lhes são feitas: 'terrível inimigo', 'infiel despiedoso', 'religião feroz', 'ambição desvairada', 'debaixo dos pés duros do africano e do árabe, as mesmas campinas, outrora tão lindas, e os vales relvosos, amareleceram e secaram', 'bárbara carnificina de mulheres', etc. A este quadro de horrores Herculano quis acrescentar aos mouros, parece-me, outra característica que aos olhos do seu tempo seria negativa: a da mistura de sangue com os negros, que nem humanos seriam. Ou seja, tratava de 'enegrecê-los' ainda mais, de acrescentar uns tons aind mais escuros ao retrato negro que deles pintava. Talvez seja bom lembrar que em 1838 a escravatura já tinha sido abolida em Portugal há algumas dezenas de anos, mas subsistia, já contra o clamor internacional, nos territórios africanos e é também de notar que os portugueses ainda se dedicavam ao tráfego, sendo certo que a ideia que se fazia do negro em Portugal, como aliás, na Europa, não era certamente a de um ser humano igual aos outros. A ideia do africano atrasado, primitivo, que tinha de ser civilizado ou conquistado para a fé, era corrente na época. Foi o fundamento ideológico do colonialismo, no qual Portugal ainda estava fortemente empenhado à época, tal como a ideia de superioridade dos portugueses que permeia os romances do Herculano deu substrato ao nacionalismo português, especialmente ao que o fascismo propagandeou. Que Herculano partilhasse da visão do negro como um 'não-humano' não é, pois, coisa que me espante.
     
    Last edited: Feb 11, 2013
  4. Outsider Senior Member

    Portuguese (Portugal)
    Infelizmente, não me custa a crer que fosse mesmo racismo. O século XIX foi o da ascenção do racismo, e pode ser que o Alexandre Herculano não tivesse escapado aos preconceitos do seu tempo.

    No entanto, a verdade é que temos pouco contexto para compreender a frase. Nem dá para perceber bem quem seriam esses "filhos de África". Os berberes?... Os habitantes da chamada África Negra?... A novela está na Internet?
     
  5. Carfer

    Carfer Senior Member

    Paris, France
    Portuguese - Portugal
    Suponho que se refere à miscigenação dos berberes com os negros do sul, particularmente presente nos berberes que vivem na transição do Saará para a África negra propriamente dita.
    A parte que interessa está publicada em 'O Panorama' de 1838, 2º volume, página 222, disponibilizada pela Googlebooks na internet em http://books.google.pt/books?id=z3s...page&q=os deshumanos filhos de África&f=false (pela grafia, apostaria que é a fonte do César Lasso)
     
  6. César Lasso Senior Member

    Madrid (España)
    castellano, España
    Que bom, amigos. Escrevi um artigo de divulgação para espanhóis acerca do romance histórico em Portugal (levou-me alguns meses a investigar) e estaria pensando em incluir essa citação. Mas confesso que apenas dei uma vista de olhos ao início do relato. Não tenho muita simpatia pelo Herculano mas acredito piamente que ele foi o verdadeiro preconizador do género de ficção histórica narrativa em Portugal, com propósitos educativos (nem que o Pedro Almeida Vieira aponte a Guilherme Centazzi como o precursor, com um romance de 1838; o Herculano já levava desde 1837 escrevendo relatos mais breves de tema histórico, a maioria agrupados nos dois volumes de "Lendas e Narrativas").

    Obviamente, Herculano era um especialista em História de Portugal (nem que eu discorde da sua abordagem: é muito fácil julgar a posteriori). Herculano não poderia saber a História do mundo inteiro, incluindo, por exagerar, até a história do arquipélago de Vanuatu. A miscigenação dos árabes e berberes com negros foi posterior. A "invasão" da Península foi levada a cabo principalmente por berberes com quadros dirigentes árabes. Não tinha considerado as implicações sugeridas por Carfer de que pudessem ser desumanos por estarem "misturados". Com efeito, a ideia no século XIX acerca dos africanos negros é bastante negativa.

    Engraçado que o Carfer encontrasse o relato noutro sítio. Eu obtive-o desde as excelentes "fichas" do Pedro Almeida Vieira: http://pedroalmeidavieira.com/?p/785/1089/4935/A/4935/1640/

    A minha proposta de tradução seria:

    El árabe fiero y el incansable sarraceno se habían aliado con los inhumanos hijos de África...

    Já agora, também costumo ficar um bocadinho intrigado por essa "panca" do Herculano de "duplicar" os árabes (o árabe e o sarraceno, o ismaelita e o agareno...). Sim sei que no século XVI, tanto em Portugal como em Espanha, havia certa conotação da palavra "árabe" (al-'arabi) na forma "alarve" ou "alarbe" como habitante nómada de Marrocos. Mas o uso do Herculano parece ter mais a ver com um recurso de ritmo narrativo.
     
    Last edited: Feb 11, 2013
  7. César Lasso Senior Member

    Madrid (España)
    castellano, España
    A propósito do meu último parágrafo anterior, e de certo comentário do Carfer, há tempo encontrei um curioso alegado anti-racista no teatro clássico espanhol do século XVII. Intitula-se "El valiente negro en Flandes" e trata do Juan, um escravo negro alforrado pelo seu antigo dono, que se enrola nos exércitos na Flandres e vai abrindo-se caminho, apesar dos pré-conceitos, graças ao seu valor. O início da obra é muito curioso porque o negro declara que não se pode insultar a um africano apenas pela simples cor da pele, como se fosse "um cão árabe":

    (CAPITÁN) Vaya el perro / (IUÁN) No està el yerro / en la sangre, ni el valor / (ALFÉREZ) Estaràlo en la color. / (IUÁN) Ser moreno no es ser perro / que esse nombre se le dà / a vn Alarbe, a vn Moro.

    O autor: Andrés de Claramonte (existe uma outra versão de Calderón de la Barca).


    :)
     
    Last edited: Feb 11, 2013
  8. Outsider Senior Member

    Portuguese (Portugal)
    Obrigado pelo endereço. Depois de ler a passagem, não me parece que Herculano esteja a falar de nativos da África abaixo do Sara. A história é sobre a conquista da Península Ibérica pelos mouros aos godos, no século VIII. Embora usemos a palavra "mouros" para os conquistadores, sabe-se que na realidade os muçulmanos que dominaram a Península Ibérica nesse período tinham duas proveniências étnicas: alguns árabes genuínos - vindos da Arábia e do Médio Oriente através do Egito, na espetacular expansão árabe inicial - mas sobretudo magrebinos (se posso usar este termo anacrónico) vindos do noroeste africano, a antiga província romana de Africa, recém-convertida ao islamismo. Resta o facto de Herculano ter apontado os "filhos de Africa" (isto é, os magrebinos) como especialmente "deshumanos"... mais que os "arabes e saracenos", porquê? Não sei explicar, mas não estou convencido de que se tratasse de uma referência oblíqua à suposta miscigenação entre berberes e negros.

    É curioso que o ensaio imediatamente anterior, na página que o Carfer indicou, é uma condenação bastante explícita da escravatura, em que Herculano não parece encarar os negros senão como humanos.
     
  9. Carfer

    Carfer Senior Member

    Paris, France
    Portuguese - Portugal
    Não vou fzer finca-pé no que não sei e por isso não digo que não tenha razão, Outsider. Parti do princípio de que, tal como sucede na actualidade, havia entre os magrebinos que invadiram a Península gente cujas características étnicas a aproximava, por miscigenação, dos africanos negros. E a verdade é que a página da wikipedia sobre os mouros reconhece a sua existência mesmo na antiguidade: "Shomarka Keita, a biological anthropologist from Howard University, has claimed that populations in Carthage circa 200 BC and northern Algeria 1500 BC were very diverse. As a group, they plotted closest to the populations of Northern Egypt and intermediate to Northern Europeans and tropical Africans. Keita claimed that "the data supported the comments from ancient authors observed by classicists: everything from fair-skinned blonds to peoples who were dark-skinned 'Ethiopian' or part Ethiopian in appearance."[33] Modern evidence showed a similar diversity among present North Africans." in http://en.wikipedia.org/wiki/Moors. A diversidade étnica dos norte-africanos, indo de gente com traços europeus até gente de pele escura, parece, pois, ser uma constante desde a Antiguidade mais remota até aos dias de hoje, o que faz pressupor que também se verificaria no século VIII. Se Herculano tinha ou não conhecimento disso não sei dizer, mas a frase que escreveu é explícita em distinguir os 'filhos de África' dos árabes e sarracenos.
    Quanto ao artigo que imediatamente antecede o trecho do conto de Herculano, é, de facto, explicitamente anti-esclavagista mas não salva Herculano da suspeita pela razão bastante simples de que nada indica ter sido escrito por ele. O 'Panorama' era uma espécie de almanaque de notícias e conhecimentos úteis com contributos de diferentes origens e autores e nada indica que tenha sido Herculano quem escreveu a notícia ou que esta espelhe o que ele pensava dos negros. Pelo menos, há uma certeza: não pensava bem dos 'filhos de África', sejam eles quem forem.
     
  10. Outsider Senior Member

    Portuguese (Portugal)
    De acordo, só que em minha opinião "filhos de África" aqui refere-se aos mauritanos/magrebinos que acompanharam os árabes na conquista islâmica da Península Ibérica. Pode ser que para o autor esta distinção tivesse alguma cambiante associada à cor da pele, e nesse caso concordo que a expressão seria racista, mas a meu ver não é seguro que Herculano estivesse a pensar na cor quando distinguiu "árabes e sarracenos" dos "filhos de África".

    Tem razão! Que pena eles não incluírem o nome do autor no fim de cada texto.
     
  11. César Lasso Senior Member

    Madrid (España)
    castellano, España
    Amigos, acho imensamente interesante...

    Eu li o relato, que apareceu ao longo de quatro números semanais daquela revista. Com certeza, nunca houve referência nenhuma a africanos negros nesse conto ou novelinha. O qual não impede que, nem que o Carfer não estivesse pouco acertado inicialmente, o seu pequeno engano fosse genial. Quem nos garante que o Herculano não tinha, no subconsciente, a mesma ideia que apontava Carfer?

    Embora usemos a palavra "mouros" para os conquistadores... Sim. Mauroi era a palavra com que os antigos gregos designavam os habitantes do norte da África. Entendiam por isso pessoas de raça branca mas com pele mais escura do que a europeia. A palavra passou para latim (mauri) e ainda é exibida com orgulho por um país norte-africano (Mauritânia). Espanhóis e portugueses forçámos inadequadamente o significado inicial, para designar muçulmanos em geral. Muitos espanhóis chamam mouros aos árabes, e até aos iranianos que nem sequer são árabes. E como as Filipinas foram território espanhol até 1898, até aí se instalou a confusão. Há um movimento independentista islâmico nas Filipinas que utiliza o terrorismo para os seus fins (no mínimo, continuava activo há alguns anos atrás). Chamam-se a si próprios Frente Moro de Liberación Nacional.

    ...mas sobretudo magrebinos (se posso usar este termo anacrónico)... Por acaso, não me parece anacrónico este termo quando utilizado desde finais do século VII, em que se verificou a conquista árabe de populações berberes. Magrebino provém da raíz árabe Gh-R-B que, entre outras coisas, sugere "põr-se o sol". Com prefixo ma- (Maghrib) significa "lugar onde o Sol se põe", "Poente", "Ocidente". Maghrebi, donde provém magrebino, seria um ocidental, que era como os árabes chamavam os berberes. Eles já estavam inseridos num sistema político governado desde o Oriente... Engraçado, se o termo fosse usado em inícios do VII e não em finais do VII, já começaria a parecer-me anacrónico.

    Por acaso, os berberes não gostam de ser chamados assim. Bar-bar é uma onomatopeia grega que significava "falar coisas ininteligíveis". Chamaram barbaroi aos povos não gregos, o termo passou também para latim e daí vem "bárbaro" (se é estrangeiro, está "fora da civilização"). Os árabes pegaram na mesma onomatopeia que, ao voltar para Europa, deu ber-ber. Os árabes não percebem a língua berber. Os berberes chamam-se a si próprios com uma palavra tirada da língua própria, que tem a ver com "os homens da honra".

    Resta o facto de Herculano ter apontado os "filhos de Africa" (isto é, os magrebinos) como especialmente "deshumanos"... mais que os "arabes e saracenos", porquê? Talvez porque, durante milénios, o "perigo" imediato para os "europeus" fosse o norte da África. Há registadas pequenas invasões berberes do sul da Bética (Andaluzia) nos tempos do império romano. Mas isso era vice-versa, pois não? Os romanos também dominavam o norte da África... porque o invadiram. Como disse um intelectual espanhol, Cánovas del Castillo, em finais do século XIX, quem se sentir forte numa banda do Estreito (de Gibraltar), não tarda começará a olhar para o outro lado. É um movimento milenar e pendular.

    Resta-me debruçar-me sobre o que escreveu esse senhor Keita que menciona o Carfer. Mas, talvez, as suas sugestões de os norte-africanos serem intermédios entre europeus e negros poderia ser "interesseira": Keita é um apelido maliano muito distinto, da Casa Real que governou o antigo império Songhai a Sul do Saara. Há muitos "Keitas", mas isso não tira a origem real ou imperial: um imperador poderia ter haréns de centenas de mulheres... Imaginem todos os "Keitas" que poderiam sair daí. Mas eu não digo nem desdigo. Os songhais são mandingos, e os dialectos mandingos parecem-se tanto com o árabe e o berbere como o português com o norueguês e o búlgaro. Quer dizer que são línguas nada inteligíveis entre si, mas há uma remota conexão profunda. Certamente, os mandingos, no mínimo desde o ponto de vista linguístico, estão muito mais próximos ao norte da África do que o que estão dos bantus, mais a Sul.

    Achei fascinante. Certamente, ajudaram-me imenso a aproximar-me de esse misterioso termo "desumano". Se alguém estiver interessado na resenha da Destruição de Áuria que subi a outro site (em inglês), pode contactar-me em privado que eu fornecerei o link.
     
    Last edited: Feb 17, 2013

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