Península Ibérica... Hispânia?

Discussion in 'Português-Español' started by César Lasso, Feb 11, 2013.

  1. César Lasso Senior Member

    Madrid (España)
    castellano, España
    Queridos amigos: a minha dúvida pareceria mais adequada para um fórum cultural, mas acredito que a coloco com um genuíno intuito de aprender a utilizar as palavras com maior elegância ou, no mínimo, correcção.

    Eis o que me preocupa: quando meto o nariz em assuntos históricos e quero referir-me a Portugal, Castela, Aragão... na Idade Média, utilizo o termo "Hispânia". Não sei até que ponto estou a utilizar a palavra correcta ou se apenas tive a lata de apropriar-me da palavra latina "Hispania" e adaptá-la para português ao colocar o acento circunflexo. A palavra deve ter algum tipo de "carta de natureza", porque o corrector ortográfico "não se assusta" quando escrevo "Hispânia".

    A ideia de perguntar veio-me de outro thread recente em que Carfer, cujas respostas sempre me parecem interessantíssimas, referia o "nacionalismo" do Herculano, e tentava compatibilizar esse patriotismo com a referência do autor a outros pontos da Península Ibérica (ou deveria escrever "península" com p- minúsculo inicial neste exemplo?).

    De qualquer maneira, sei que "Península Ibérica" é uma expressão geográfica e mal se adequa a descrever nenhuma entidade política. Se nos referirmos aos territórios peninsulares ocupados pelos árabes, então o melhor termo será o arabismo "al-Ândalus". O termo latino "Hispania" é perfeito para se referir (com pequenas variantes ao longo das reformas administrativas romanas) aos territórios europeus hoje ocupados por Portugal e Espanha.

    Os autores portugueses do XIX referiam-se ao vizinho peninsular como "a Hespanha" (uma clara herança do latim "Hispania"). O H- caiu nalguma das sucessivas reformas ortográficas.

    Para complicar mais as coisas, a Península Ibérica esteve muito fragmentada na Idade Média (tal como outros países hoje chamados "Inglaterra" ou Marrocos) e, por volta do ano 1000, as pessoas não tinham uma clara noção de identidade nacional territorial (ao menos, nos territórios já administrados por líderes cristãos): a gente poderia antes definir-se como "cristão" e não como "asturiano". Algumas pessoas mais cultas tinham uma vaga noção de uma antiga entidade "superior" que se chamou "Hispania", mas isso não estava na cultura popular.

    Para ainda mais complicação, hoje sabemos que na Península há um Portugal com capital em Lisboa e uma Espanha com capital em Madrid. Em princípios do século XV, já existia um Portugal com capital em Lisboa, mas ainda não existia Espanha nenhuma e Madrid estava longe de ser nenhuma capital. Nos anos 70 do século XV, houve umas guerras entre Castela e Portugal e do resultado das mesmas começou a aparecer algo mais parecido com o que hoje entendemos por "Espanha". Mas se os resultados das guerras tivessem sido diferentes, não duvidem que hoje, com algumas variáveis imprevisíveis, a Península estaria dividida em talvez dois países: uma "Espanha" com provável capital em Lisboa, e um Aragão com provável capital em... (Saragoça? Barcelona?).

    Ufff... Tentaria concretizar algum tipo de pergunta: O que acham se eu utilizar o termo "Hispânia" referido à Idade Média? E, quanto à Península, acho bem a maiúscula inicial, quando referido a uma península que quem fala já sabe qual é... mas... deverei escrever "península Ibérica", utilizando o acidente geográfico com minúscula inicial?

    Não pensem que a minha pergunta é absolutamente extravagante (o que significa a palavra "Espanha" e que outros equivalentes poderia utilizar? :p ). Já notei algum titubeio nas interessantes respostas do Carfer nesse outro thread (Os deshumanos filhos da Africa), que bem poderiam prender-se com pudores parecidos aos meus... E, para maior abundância no dilema, o medievalista português António Borges Coelho publicou em 1972 uma obra intitulada "Portugal na Espanha Árabe" que recolhe traduções de antigos documentos árabes referidos a territórios pertencentes ao que hoje se chama Portugal (eu tenho a edição de 2008). Não duvidem que esse medievalista bem conheceria termos como "Lusitânia" ou "Gharb al-Ândalus" (Ocidente do al-Ândalus) mas, por alguma razão, optou por publicar sob um título intrigante.
     
  2. ARARA Senior Member

    MADRID
    Español España -Português
    Hola, César.
    Me parece muy interesante el tema que planteas. Tan interesante como difícil de responder, casi tanto como responder si estamos solos en el Universo..;)

    Navegando un poquito, me he encontrado con esto, que a lo mejor te puede ser útil, siempre con el visto bueno de los colegas portugueses, por supuesto (lo puedes ampliar en el enlace http://www.espanolsinfronteras.com/AcercaEspana02DeHispaniaEspaña.htm#EDAD_MEDIA):

    "Cambios semánticos
    Perdida del sentido geográfico de la palabra
    Desde la caída del reino visigodo la palabra Hispania/España no vuelve a usarse con su significado de península ibérica. En su lugar, los reinos de la reconquista comienzan a usarla para referirse a la parte cristiana de la península. Por ejemplo, en tiempos del rey Mauregato fue compuesto el himno O Dei Verbum en el que se califica al apóstol de "áurea cabeza de España"
    Identificación con las coronas de Castilla y Aragón
    A medida que avanza la reconquista varios reyes se proclamaron principes de España, tratando de reflejar la importancia de sus reinos en la peninsula.
    Tras la unión dinástica de Castilla y Aragón, se comienza a usar en estos dos reinos el nombre de España para referirse a ambos (ver más abajo, en Reyes católicos)
    Parece ser que en Portugal siguió por un tiempo usándose para referirse a la península.
    "

    Un saludo.
     
  3. Vanda

    Vanda Moderesa de Beagá

    Belo Horizonte, BRASIL
    Português/ Brasil
    No sentido totalmente linguístico o dicionário me diz sobre hispano:
    2. Ref. a Hispânia, província do Império Romano no território que corresponde hoje à Península Ibérica; HISPÂNICO; IBÉRICO

     
  4. César Lasso Senior Member

    Madrid (España)
    castellano, España
    Obrigado pelas contribuições, amigos. Acho que este thread não é nada fácil mas... quem sabe? Devagarinho, com o tempo, poderia crescer nalgum sentido interessante.

    Apenas dei uma vista muito rápida ao início do site fornecido por ARARA. Não digo que seja uma informação disparatada, mas também não me parece de absoluta confiança. Para já, mesmo no primeiro parágrafo, há um lapso flagrante: menciona a conversão de Recaredo ao Cristianismo. Mas ele não se converteu ao Cristianismo pelo simples facto de que era cristão (só que arriano, uma interpretação não reconhecida por Roma). Ele converteu-se ao Catolicismo.

    Obrigado, Vanda. Fiquei, após ler as definições, com uma dúvida: e "hispano-" em compostos? Qual a sua aceitação em português? Em espanhol, dá muito jeito para se referir a pessoas ou situações referentes á língua espanhola, mas não necessariamente identificadas com o país chamado "Espanha". Por exemplo: hispanoamericano; ou: Diccionario panhispánico de dudas (um dicionário válido para resolver dúvidas referentes a todos os âmbitos da língua espanhola no mundo).

    Cá deixo uma referência curiosa. A página estava vazia e eu li mais de metade do livro e enchi a página com citações, locais mencionados... É uma edição espanhola de 1799 de um manuscrito árabe escrito em meados do século XII. O autor era "andalusi" (ou seja, muçulmano-hispano-também-português, ou como se diga) e pirou-se de Ceuta perante o bulir do fanatismo almoada, prestes a invadir a Península. Dedicou a obra a Rogério II da Sicília, em cuja corte se refugiou. O título original não era "Descrição de Espanha" (entre outras coisas, porque também se referia ao que hoje é Portugal): o título foi dado por Conde, que em 1799 e sem uma tradição de escola de arabistas prévia a ele, trabalhava com dados precários. Há bastantes erros na edição de Conde, e eu reflecti com malícia um deles ("desde Ceuta a Fez por mar, oito dias": mas ninguém pode arribar a Fez, no interior de Marrocos, por mar: o original diz "por Zujân" – ou Zajân, ou Zijân, ou coiso –, que seria alguma aldeola marroquina). A página do livro: http://www.shelfari.com/books/18258529/Descripci%C3%B3n-de-Espa%C3%B1a-de-Xerif-Aledr%C3%ADs

    Há um dado bastante original, repetido no livro no mínimo num par de ocasiões (eu resgatei uma delas): para o autor, al-Idrîsî, ao norte de certa cordilheira (Conde traduziu "monte") chamada al-Sharrât (talvez, los Montes de Toledo) o país chama-se Castela (Castêlla) e, ao sul dessa cordilheira, chama-se... Espanha! (Esbania). É a única referência que conheço em que um "árabe" identifica al-Ândalus com Hespanha (desculpem o H, mas, se eu escrevesse "Espanha", estaria a excluir o meu querido Portugal).
     
  5. Carfer

    Carfer Senior Member

    Paris, France
    Portuguese - Portugal
    O conhecimento que retirei de leituras várias é que até ao século XVI, pelo menos, era frequente em Portugal o uso do termo 'Espanhas' (grafia moderna) para referir a totalidade do território Ibérico (e suponho que nem sempre distinguindo o território cristão do muçulmano). Não sei já onde li que, até essa altura, um português de Faro que viajasse pela Europa diria, se lhe perguntassem de onde era, que vinha de Faro, no reino dos Algarves, nas Espanhas. É a partir da unificação do reino de Castela com o de Aragão que os monarcas espanhóis 'usurpam' o título de reis da 'Espanha'.
    Se de facto há alguma hesitação no uso do termo pela minha parte, como diz o César, é porque não quero ferir susceptibilidades. Disse há uns anos num post aqui no forum que, neste sentido clássico de habitantes das 'Espanhas', os portugueses eram tão espanhóis como os demais (o que, evidentemente, não põe em causa a independência política nem a identidade própria dos portugueses) e tive reacções adversas ou de incompreensão dos colegas mais inesperados, portugueses, espanhóis e até nacionalistas de países que actualmente fazem parte da Espanha. Como esta não é matéria especificamente linguística, prescindi de me explicar melhor.

    P.S. Acabei de reler no mês passado a Biografia de Filipe II do Henry Kamen. Porque ainda está fresca na memória, consegui encontrar facilmente este trecho com interesse para este tópico:
    'Em 1580, Filipe estava no apogeu do seu poderio. Primeiro monarca na história a governar a Península Ibérica unificada, podia agora de facto intitular-se Rei da «Espanha». Nos tempos medievais, o termo «Espanha» (ou «as Espanhas») fora atribuído de uma maneira vaga ao conjunto de Estados contidos na península, incluindo a Catalunha e Portugal. Em documentos, Filipe intitulara-se frequentemente «Rei de Espanha», mas apenas como forma de abreviar os seus títulos. A partir de 1580, esse vago conceito tornou-se uma realidade política. Emitir um decreto em Lisboa para «estes reinos de Espanha» era coisa que nenhum governante espanhol jamais fizera.'
    Nota (minha): Filipe II viveu em Lisboa até 11 de Fevereiro de 1583, tendo anunciado, ao sair, uma "breve ausência". Não mais voltou e, se o tivesse feito, é bem possível que a história peninsular tivesse sido outra.

    P.S.S. O Borges Coelho, que acho de leitura obrigatória, tinha muitíssimo boas razões para falar de Portugal' na 'Espanha árabe', mas suponho que isso nos levaria para outros campos que não os que aqui nos ocupam
     
    Last edited: Feb 13, 2013
  6. César Lasso Senior Member

    Madrid (España)
    castellano, España
    Interessantíssimo, Carfer...

    O tema é complexo, com certeza. Precisamente, sei muito bem que, dependendo da maneira como fosse focado, seria muito passível de ferir susceptibilades, e foi por isso mesmo que abri o thread (meu Deus, que estarão a perceber vocês? Não abri o thread para ferir sentimentos mas, precisamente, pelo contrário: para encontrar recursos que me ajudem a não resultar inconveniente).

    Não resulta estranho que o reino peninsular de maior extensão acabasse por "usurpar" o título de "espanhol". Acho que se o rei português Afonso V tivesse conseguido fazer valer os seus direitos matrimoniais face à Isabel, que poderia ser considerada "usurpadora" ao basear as suas pretensões numa suposta incapacidade da mulher de D. Afonso, "Espanha" teria sido o que hoje é Portugal, Galiza, Castela e Andaluzia. A capital seria Lisboa e, a língua oficial, o "espanhol" (uma língua espanhola que diria "coração" em vez de "corazón"). Para além desse hipotético "espanhol", de estatuto oficial, haveria em Espanha outras línguas regionais, entre as quais, a mais importante por número de falantes seria o "castelhano".

    Obrigado pelas notícias e pelo fragmento copiado. Achei particularmente interessante isso das "Espanhas". Lástima que possa resultar inconveniente hoje em dia, mas não duvido que fosse muito útil e válido no século XVI.

    Isso de "espanhol" presta-se a muitos equívocos. Nos Estados Unidos, muitas pessoas poderiam entender por "Spanish" qualquer pessoa vinda de territórios a sul do Rio Grande, entre o México e os EUA.

    E, para curiosidades e contradições, os inimigos dos meus inimigos são os meus amigos. Em finais do XVI, quais eram os países mais hostis a essa grande "Espanha" unificada? O Marrocos finalmente unificado, os ingleses, os Países Baixos e França. E qual era a língua da diplomacia entre países tão díspares? O espanhol! A língua da diplomacia era a língua do inimigo! Também não deve surpreender: seria a língua que mais jeito dava: muitos holandeses seriam bilingues por terem o "estatuto de província espanhola rebelde"; Marrocos estaria cheio de Mouriscos bilingues árabe-espanhol, fugidos à Inquisição...
     
  7. Carfer

    Carfer Senior Member

    Paris, France
    Portuguese - Portugal
    Seria uma conversa interessante (a especulação com a História é sempre interessante, mesmo que seja gratuita :)), mas difícil de manter dentro dos limites do forum e, mais difícil ainda, livre de preconceitos e mitos. Não sei mesmo se o papel relativo das línguas, em termos contemporâneos ou históricos, cabe no forum. Mas, se couber, creio que isso do espanhol como língua diplomática do século XVI é um mito, sendo esse papel igualmente reivindicado, pelos mesmíssimos motivos nacionalistas, por outros idiomas. O que sei da realidade da época (podendo estar enganado, bem entendido, que não sou especialista) não sustenta essa tese.

    A monarquia dos Áustrias (o ramo espanhol dos Habsburgos) era, obviamente uma grande potência europeia, mas o papel do castelhano não era tão grande como às vezes se diz. Dos dois reis que preenchem o século, Carlos V falava muito mal castelhano e o mesmo sucedia com os membros da sua corte que não tinham nascido em Castela. A sua língua nativa era o flamengo, mas falava igualmente francês, a língua de governo da Flandres. Os diplomatas que falavam com Carlos V, nestas condições, dificilmente recorreriam a um idioma que ele e a sua corte entendiam mal. Nas comunicações entre os outros estados com diferentes idiomas nativos, não se usava o espanhol e assim sendo, não se poderá considerá-lo uma língua franca diplomática (papel que me parece que ainda pertencia ao latim).

    Com Filipe II, cujo reinado abarca mais de metade do século XVI, a situação mudou, mas para pior. Ao multilinguismo de Carlos V, sucede o monolinguismo de Filipe II: só falava castelhano. Entendia bem o português, língua da mãe, a imperatriz Isabel, mas evitava falá-lo. No entanto não falava francês, língua fundamental para o governo dos fulcrais (para a influência de Espanha na Europa) territórios espanhóis da Flandres. Necessitou de tradutor todas as vezes que compareceu nas cortes flamengas, quando esteve em Itália, em Inglaterra (cuja língua ignorava), quando recebeu a terceira mulher, Isabel de Valois, francesa... Granvelle, o cardeal que governava os Países Baixos escrevia-lhe em francês e os documentos oriundos da Flandres tinham de ser traduzidos, com enormes atrasos e prejuízos para o governo. Quem precisava de falar com Filipe não tinha outro remédio senão falar castelhano ou latim, já que ele não entendia - ou não queria entender - mais nada. Nas relações entre outros estados, os respectivos soberanos não comunicavam entre si em espanhol.

    Isto não quer dizer que o espanhol não estivesse presente de forma significativa na Europa de então. Para isso contribuiu, pelo lado positivo, a pujança da literatura e da cultura espanhola do Século de Ouro (e especialmente, o seu vanguardismo nalguns domínios, como o teatro) e, do lado negativo, a pesporrência de que os nobres espanhóis davam mostras e que, no fim de contas, não era outra coisa senão tentar sair por cima, fazendo passar a ignorância por superioridade, recusando falar outra língua que não o espanhol. Prosápia, de resto, claramente injustificada, porque se a força da cultura espanhola desse período é indiscutível, a militar e económica era bastante ilusória - bancas-rotas sucessivas, derrotas militares importantes (caso da Armada ou da revolta da Flandres), incapacidade para defender o próprio território de ataques marítimos (assalto inglês a Cádiz) - no fundo, um colosso com pés de barro. Creio, por tudo isto, que o papel do espanhol nas relações diplomáticas da época tem sido sobreavaliado por razões que não são nada ingénuas. O espanhol é importante na época, mas menos do que se diz.

    Já no que toca a Portugal, a situação do castelhano era outra. Aí sim, a presença é grande e notória. Em grande parte como resultado de as famílias reais de ambos os países serem basicamente uma só, a corte portuguesa era bilingue e há obras da época escritas por autores portugueses em castelhano (Gil Vicente, por exemplo). Curiosamente, também Espanha parecia atrair muitíssimo os portugueses e é interessante notar a quantidade de portugueses em postos governamentais fundamentais ou em posições de grande influência junto dos Filipes (Ruy Gomes de Silva (príncipe de Éboli), Don Juan de Silva, Cristóvão de Moura, D. Francisco Manuel de Melo por exemplo).

    Entre outros, este artigo talvez tenha interesse como paradigmático daquilo que digo. Sustenta a tal universalidade do espanhol no campo diplomático, mas expostos os factos, vai-se ver e ou contradizem ou desmentem mesmo a tese que o autor pretende defender:
    http://www.elcastellano.org/ns/edicion/2002/septiembre/lodares6.html
     
    Last edited: Feb 14, 2013
  8. César Lasso Senior Member

    Madrid (España)
    castellano, España
    ..........
     
    Last edited: Feb 15, 2013
  9. César Lasso Senior Member

    Madrid (España)
    castellano, España
    ..........
     
    Last edited: Feb 15, 2013
  10. César Lasso Senior Member

    Madrid (España)
    castellano, España
    Absolutamente interessante... Mas olha que talvez eu não me exprimisse bem. Não queria sugerir que o espanhol fosse a língua diplomática internacional do s. XVI... Estava a referir-me a uma situação muito pontual, a partir do último quartel do s. XVI em que os turcos do Império Otomano deixam de ser um medonho inimigo da Espanha por existir algum tipo de acordo secreto ou muito discreto que deixava as mãos livres aos turcos para atacar a Pérsia e a Filipe para atacar a Inglaterra e a Flandres; nesse momento, os rivais de Espanha contactam o grande sultão que unificou Marrocos e que até governava em Tombuctu, por meio de um governador-representante (governador que por acaso era um renegado espanhol, antigamente chamado Fernando del Pozo e agora conhecido por Sulaymân del Pozo; quem, por acaso, foi um dos grandes artífices da derrota portuguesa de Alcacer-Quibir --​el mundo es un pañuelo). Esses contactos asseguravam que Espanha poderia ser atacada desde múltiplas frentes e os contactos, frequentemente, corriam em espanhol. Era a língua que dava jeito usar. Assumia, portanto, estatuto de "língua diplomática".

    Não me lembro exactamente onde peguei nesse dado: foi numa aula de Mestrado de História do Mediterrâneo Islâmico e Medieval, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, ou foi ao consultar algum dos volumes de Les sources inédites de l'Histoire du Maroc? Com certeza, sei que não recolhi o dado desde alguma conferência dada por algum nacionalista espanhol...

    Aliás, quando os espanhóis conquistam "La Maamora", nos arredores da actual cidade marroquina de Kenitra, em 1614, contra quem combatem inicialmente? Contra piratas holandeses! Só quando conseguem vencer os holandeses e vão avançando na fortificação do enclave, é que começam a chegar reforços marroquinos...

    ;)
     

Share This Page