reinação

Discussion in 'Português-Español' started by César Lasso, Jan 8, 2013.

  1. César Lasso Senior Member

    Madrid (España)
    castellano, España
    Amigos! Os meus votos de um feliz ano.

    Estou a ler "A Filha do Capitão" de José Rodrigues dos Santos. Apareceu a palavra "reinação" que não está no dicionário Wordreference. Pelo contexto, parece-me "invenção", "fantasia"... Poderiam dar-me mais algum pormenor para incorporar a palavra à minha "bagagem" de português? Era usada a qualquer nível ou apenas entre camponeses e saloios?

    O contexto: uns camponeses de visita em Lisboa (em 1896) vêem pela primeira vez um carro automóvel:

    “Uma carroça sem cavalos”, comentou o senhor Rafael, verdadeiramente surpreendido. “Já tinha ouvido falar nisto no Silvestre, mas pensei que fosse reinação"


    Obrigado.
     
  2. Vanda

    Vanda Moderesa de Beagá

    Belo Horizonte, BRASIL
    Português/ Brasil
  3. Carfer

    Carfer Senior Member

    Paris, France
    Portuguese - Portugal
    O termo é muito infrequente hoje em dia, mas em tempos passados ouvia-se bastante, independentemente do meio, juntamente com o verbo 'reinar': 'reinar' é gracejar, 'reinar com alguém' é fazer troça desse alguém, 'estar na reinação' é 'estar no gozo', 'brincar'.
     
  4. César Lasso Senior Member

    Madrid (España)
    castellano, España
    Obrigado, amigos.

    Estas respostas chegaram ao lado errado do meu e-mail e não as vi antes.

    O dado do Carfer ("O termo é muito infrequente hoje em dia, mas em tempos passados ouvia-se bastante", etc.) é muito interessante. Gosto que os romances históricos se exprimam na linguagem da época. Já vi coisas do tipo "sentiu uma descarga de adrenalina" referido a uma personagem em 1410, muito antes de essa hormona ser conhecida. Ainda se tivesse sentido um raio que lhe percorria as veias...
     
  5. Vanda

    Vanda Moderesa de Beagá

    Belo Horizonte, BRASIL
    Português/ Brasil
    Também, inclusive novelas. Rio muito quando personagens de novelas do final dos 1800 e início dos 1900 usam expressões do século 21.
     
  6. César Lasso Senior Member

    Madrid (España)
    castellano, España
    Esse romance "A Filha do Capitão" está bastante decente e bem documentado. Subirei o meu rating do Rodrigues dos Santos, que ficava por apenas um "bonzinho" ou "entretido".

    Do mesmo romance em que, em 1410, as personagens sentiam descargas de adrenalina, ficam outras duas para a história:

    Isabel tinha feito uma birra essa manhã. Com 14 anos já se sentia com idade de deixar o «quarto de estudo», e insistia com a mãe que queria apenas aprender a tocar piano e bordar...

    Mas descanse, mãe, não faço a menor tensão de ir por aí...

    O impressionante é que esse romance da Isabel Stilwell (Filipa de Lencastre : A rainha que mudou Portugal) me custou 23 euros e ainda por cima, andava já pela 26.ª edição (tempo mais do que suficiente para corrigir erros iniciais). O simples facto de andar pela 26.ª edição revela que a massa geral dos leitores não é muito exigente.

    ;)
     
  7. César Lasso Senior Member

    Madrid (España)
    castellano, España
    Desculpem a minha curiosidade insaciável. Retomei a minha leitura de A Filha do Capitão, que tinha deixado "estacionada". E voltei a encontrar o verbo "reinar". Mas raios me partam se agora não é sinónimo de "mijar" (atenção, o texto seguinte é para adultos; de preferência, maiores de 96 e só se acompanhados dos seus bisavós):

    Ao segundo dia pôs-se-me a fazer perguntas. Queria saber se eu tinha namorada, se era muito ribaldeiro, se já tinha dado bocaringas a alguém, coisas assim. Fiquei assim um bocado envergonhado, aquilo não eram conversas para ter com uma mulher, não é? Passado um pedaço desta conversa, a gaja disse que queria mijar. Levantou a saia à minha frente e pôs-se a reinar, via-se a breixa e tudo.“
    “Categoria.“
    “Enquanto reinava, ela olhava para mim. Gostas de me ver a mijar? perguntou-me a tipa.

    Agora, a minha pergunta: é óbvio que o autor utilizou "reinar" no sentido de "mijar" (não sou tão despistado). O que queria saber é se o verbo já foi utilizado com alguma frequência ou uso popular neste sentido ou se, pelo contrário, é apenas um uso que lhe ocorreu ao autor, talvez como uma sugestão metafórica (gozava comigo) ou, simplesmente, para evitar repetir o verbo "mijar" demasiadas vezes em apenas um par de linhas?
     
  8. Vanda

    Vanda Moderesa de Beagá

    Belo Horizonte, BRASIL
    Português/ Brasil
    xiiii... Nunca vi usado deste modo, pra mim ele estava usando mesmo no sentido de ''fazer xixi''.
     
  9. Carfer

    Carfer Senior Member

    Paris, France
    Portuguese - Portugal
    Com esse sentido de urinar, nunca ouvi e fico na dúvida se, apesar do que parece, o sentido não será ainda o de 'gozar', 'divertir-se', 'estar na brincadeira'.
     
  10. César Lasso Senior Member

    Madrid (España)
    castellano, España
    Obrigado, amigos. Vocês confirmam a minha impressão que o uso é muito pessoal por parte do autor. Talvez seja o que Carfer sugere, ainda por cima evitando repetir demasiadas vezes o verbo "mijar". Os personagens envolvidos na conversa são humildes (quem fala nem sabe ler) e dificilmente poderiam usar numa conversa desse tipo o verbo "urinar" como alternativa a "mijar".

    Já agora, estou a achar o romance de uma frontalidade de pasmo na hora de se referir a questões sexuais. Digo isso, considerando que o romance é português. Provavelmente, a vida sexual de espanhóis e portugueses não terá grandes diferenças, considerando que se trata de dois povos latinos muito próximos. No entanto, existe uma clara diferença de mentalidade. O espanhol pode referir-se a questões sexuais com uma frontalidade e "naturalidade" que deixa a gente de outras culturas embasbacada, quando não ofendida pela "falta de respeito". Essa frontalidade pode transbordar contextos onde, até certos limites, também poderia ser aceitável noutras culturas (de homem a homem ou entre mulheres). Eu posso aprender muito bem o português, mas muito de vez em quando lá poderia emergir a minha mentalidade ou mundo cultural "primeiro" e meter a pata por ter escorregado fora do contexto cultural. Não tive maldade, mas consegui irritar sem querer o meu interlocutor.

    Quando este autor português concreto refere assuntos sexuais, chama as coisas pelo seu nome com uma franqueza que nem sequer sabem ter todos os autores espanhóis.

    :)
     

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