“Dj” na ortografia portuguesa

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meencantesp

Senior Member
Portuguese - Brazil
Pesquisando sobre as melhores grafias para certos nomes geográficos, especificamente para o Tajiquistão/Tadjiquistão e para o Jibuti/Djibuti, acabei por me deparar com a questão do “dj” na língua portuguesa.

À primeira vista logo pensei que fosse um problema muito parecido com o do “ch” e do “tch” pra representar o som “ch” do inglês, por exemplo no caso da diferença entre Chéquia (PT-PT) e Tchéquia (PT-BR). O que se consolidou no Brasil foi o uso do “tch” (um curioso “trígrafo”), enquanto em Portugal a opção foi pelo “ch”.

Porém, no caso do “dj”, não parece estar o problema resolvido. Parece que tanto em Portugal quanto no Brasil, para os países que mencionei, se usam ambas as formas, com “j” e com “dj”. A Wikipédia aponta fontes para todas elas. O Ciberdúvidas tratou do assunto duas vezes. F. V. Peixoto da Fonseca afirmou, perguntado sobre a melhor alternativa entre “Tajiquistão” e “Tadjiquistão”, em resposta dada em 2001:

Tajiquistão (dj não se admite na ortografia portuguesa): língua tajique, naturais tajiques.

Em 2008, foi feita a seguinte pergunta, tratando especificamente do “dj” na ortografia portuguesa:

Na pergunta Usbequistão/Tajiquistão/Turcomenistão, F. V. Peixoto da Fonseca afirma que “dj” (como em Tadjiquistão ou Djibuti) não se admite na ortografia portuguesa.

Eu pergunto, então e palavras como djacato, djacutá, djalmaíta ou djambadim (todas presentes no Dicionário Houaiss)? E coisas mais simples como adjectivo ou adjunto?

Obrigado.


A resposta de Peixoto da Fonseca foi a seguinte:

Independentemente do que possa vir no Dicionário Houaiss ou em qualquer outro, dj, repito, é inadmissível em tais vocábulos na nossa ortografia oficial, devido à boa razão de tal conjunto não ser próprio da língua portuguesa, que só possui j (ou g antes de e ou de i). Termos como os citados adjectivo ou adjunto são um caso diferente, porque são herdados directamente do latim, em que o ad- é um prefixo, ao qual se juntaram palavras começadas por j. Portanto, em palavras como as apontadas, não é lícito o emprego de dj.

Dado que a mim me pareceu boa a linha de raciocínio do rapaz que fez a pergunta em 2008, e que na resposta não há fontes nem nada disso, fiquei num dilema. Haveria algum motivo para não usarmos o “dj” em palavras que não tenham sido diretamente herdadas do latim? Quem sabe o fato de em “adjetivo” o dê e o jota estarem separados silabicamente? O que é que dizem acerca do tema?
 
  • Ari RT

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    Que fique logo claro que minha opinião não vale absolutamente nada em termos normativos, mas eu escreveria Tadjiquistão, Djibuti, Tchéquia. O sons existem, temos os símbolos necessários para representá-los, o que é que falta?
    Com todo o respeito aos gramáticos e lexicógrafos da nossa bela língua, ater-se a um detalhe etimológico para justificar a morfologia de uma palavra e negar o mesmo recurso a outra porque de origem distinta é um excesso normativo e um sinal de atenção a aspectos formais que, em uma escala de abstração, rastejam. Insisto, minha opinião apenas. Ainda uma outra opinião: os estudiosos da morfologia e da gramática deveriam pugnar por oferecer aos usuários da língua o mais amplo suporte de ferramentas possível, com o objetivo de facilitar a ampliar seu uso, não de limitá-lo.
    Como assim, não existe dj? Se eu posso escrever dj em adjetivo, então dj existe. (Diria o poeta itabirano que "tinha um dj lá no meio do caminho, não dá para ignorar, está lá a p... do dj, inegável, sólido, real como uma pedra"). Adstrito, advogado, adjunto, administrar, adquirir, vão todos para o balaio das exceções? Abrogar não, porque br "existe"? Ora, vá...

    Admito que, em termos práticos, tanto faz Jibuti ou Djibuti. É mais uma questão de princípios. Afinal, a Holanda tem um nome diferente em cada língua. Mas os princípios se aplicam a outras palavras, não só a toponímicos. Estes, para o bem e para o mal, têm seus nomes canônicos estabelecidos, seja por norma ou pelo uso. Quando eu precisar me referir à "tchequização" dos países vizinhos, como é que eu faço? Espero a ABL estudar a questão?

    Se formos responder amém a tudo o que dizem os "normatistas", o cidadão poderá batizar o filho como Quarentonildo mas não como Djalma.
     

    Alecm

    Member
    Português - Brasil
    O fonema não é de dificuldade para pronúncia de nenhum brasileiro em estrangeirismos como "jeans' ou em nomes como "Jenifer".
     

    Ari RT

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    Português - Brasil
    Creio que sejam dois fonemas (ou dois segmentos sonoros, socorram-me os mais doutos) em cada uma das palavras: dʒ em Djibuti e tʃ em Tchéquia. Não temos um grafema que represente isso, nem no alfabeto latino nem no IPA (que eu saiba, mas sei pouco). Mas também temos ks em táxi, axioma e o grafema x dá conta. E temos tz em quartzo e escrevemos tz. Então a questão não é sobre o que se pronuncia, é sobre como se representa.
    A pronúncia é o de menos. No Rio de Janeiro, dia, ardido, ditado, se pronunciam muito naturalmente com dʒ; tiziu, tinha, titia com tʃ. E se escrevem com d e t. Com as letras já conhecidas, criou-se uma "forma" de usá-las segundo a qual t e d formando sílaba com i em determinadas condições de tonicidade se pronunciam assim. Não precisa inventar outro sinal gráfico para representar isso, usa-se o que se tem. Esse é um exemplo de uma regra "boa": aproveita o que se tem para fazer "mais" coisas.
    A regra que diz "não pode" é ruim, elimina uma possibilidade de uso da língua. Só se justifica se o prejuízo causado por ela for menor que a eventual confusão provocada pelo uso vedado por ela.
     

    machadinho

    Senior Member
    Português do Brasil
    Mas há uma diferença crucial, Ari. A pronuncia de 'dia' com ou sem [dʒ] é facultativa ao passo que a pronúncia de 'Tajiquistão' não será ou não poderá ser com [dʒ]. De todo modo, é difícil mesmo de engolir que 'adjetivo' pode mas 'Tadjiquistão' não pode. Ora, se jota não é lícito aí, então vamos com a beleza do *Tadgiquistão!
     
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    guihenning

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    Português do Brasil
    Eu concordo com o Ari, mas há alguns senãos. O problema se chama aportuguesamento e ele é regido pelo formulário ou, no caso, acordo ortográfico vigente. O AO de 1990 ainda é o mesmo formulário de 1911 com algumas alterações aqui e ali no que diz respeito a aportuguesamentos. Até o momento, por exemplo, somente alguns casos são abonados. Por exemplo: sempre se levou em consideração o som chiado, como o "ch" de "chiado" que, segundo se preconiza, deve ser aportuguesado com <x> em palavras árabes e estrangeiras no geral, embora os galicismos tenham passe livre e possam ser grafados com "ch" como em francês. Daí se escrever "almoxarife", não "almocharife" e o aportuguesamento de "schwa" ser "xevá", não "*chevá", "caxemira" ser com xis e não "*cachemira" e assim por diante... Para outros grupos consonantais não há regra específica.
    Tradicionalmente, os brasileiros tentarão o possível para imitar o som do original, fazendo mudanças ortográficas pouco afins à ortografia (ou fonotaxe) portuguesa para tal: tchau, República Tcheca, Tadjiquistão… Os portugueses seguem um caminho mais… português, diga-se, tentando preservar a fonotaxe e a ortografia portuguesa. O problema facilmente se resolveria se o formulário do acordo editado fosse, mas aparentemente as complicações são inúmeras, o que causa outro problema: até que haja uma solução oficial, os dois países continuarão grafando diferentemente porque o instrumento que utilizam para aportuguesamentos é omisso ou incompleto, criando-se, assim, múltiplas grafias. O próprio acordo está criando ortografias distintas.
    Pessoalmente, o argumento da invalidez de "dj" me é até compreensível, porque ele sempre tem uma origem latina comum e só aparece em cultismos, tendo muitas vezes cognatos vernáculos muito mais antigos, mas com significados diferentes. Agora, se isso é suficiente e plausível para vedar a criação de palavras com essa mesma sequência ou não é difícil de dizer.
     

    machadinho

    Senior Member
    Português do Brasil
    Outro caminho seria dispensar a própria ideia de ortografia, que não tem nada de antiga e só faz sentido no âmbito de certos projetos políticos que já vêm cambaleando há um bom tempo.

    edit: erros de ortografia​
     
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