A função do “o” em frases interrogativas como “O que é isso?”

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meencantesp

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Segundo Napoleão Mendes de Almeida, “O que?” seria inadequado. Ou seja, não seria correto perguntar “O que é isso?” ou “O que que é isso?”; o correto seria usar “Que é isso?” ou “Que que é isso?” Segundo ele, o “o” não exercia função sintática, pelo que não convinha que fosse usado (exceto em final de frase; “Isso aí é o quê?”). Classificou como hábito “comum no linguajar do povo e, mais ainda, encontrado em escritores”.

No Dicionário de questões vernáculas, ele diz também que o espanhol luta contra o ““popular”” interrogativo “el que”. Nunca cheguei a ler ou ouvir essa construção na língua espanhola, nem na mídia, nem em vídeos informais no Youtube e nem na fala de pessoas comuns. Em suma, esse “el” certamente não é mais popular do que o nosso “o”, então fazer a comparação não é o melhor caminho, creio eu. Em todas as lições da Gramática metódica da língua portuguesa e da Gramática latina, o gramático escreve desta forma: “Que é um adjunto adverbial?”.

Pois então, se o “o” não exerce função sintática, o “o” seria o quê? Uma partícula expletiva?

Adição: segundo o site Recanto das Letras, na Metódica, Mendes de Almeida falou que não havia razão eufônica para o “o”:

“… iniciando a oração ‘o que’, mais castiçamente, deverá vir desacompanhado do ‘o’, porque neste caso (não seria nesse?) é sintática e eufonicamente inútil: ‘Que queres?’, ‘Que há?’, ‘Que?!’”

Também se mostram exemplos de outros gramáticos que, exemplificando o uso do interrogativo, não põem o “o” na frente do “que”. Mostra-se a posição de Said Ali, que defende, embora só mostrando autores do século XIX, que o uso da forma na fala existe pelo menos desde o século XVI.
 
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  • machadinho

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    Segundo ele, o “o” não exercia função sintática, pelo que não convinha que fosse usado (exceto em final de frase; “Isso aí é o quê?”).
    A função sintática que o 'o' exerce no começo é a mesma que exerce no fim, se alguma e seja ela qual for. Ora, a inversão da ordem da pergunta não pode acarretar a eliminação da função sintática da palavrinha:

    Isso aí é o quê?
    O que é isso aí?

    Se os prescritivistas não o aceitam no começo, não deveriam aceitar no fim. Mas aceitam no fim. Então deveriam aceitar no começo por mera questão de inversão da ordem.

    A prescrição me parece meramente estilística, em que pese o ar de gramatical com esse papo de correto ou incorreto.
     
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    Carfer

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    Essa, para mim, é nova. Nunca tinha visto pôr em causa 'o que'. Vamos então por aí e deitemos fora todas as formas enfáticas. Elas servem para quê? E, de caminho, inevitavelmente, umas largas toneladas de literatura. Sejamos poupados, os tempos são de austeridade!
     

    machadinho

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    Português do Brasil
    Como mencionado recentemente no outro fio, os portugueses têm o costume de pôr o artigo definido antes do pronome possessivo: 'o meu', 'a minha'. No Brasil, esse artigo é facultativo, por desnecessário sintaticamente. Logo, segundo o raciocínio do Napoleão, o artigo em 'o meu' também seria "incorreto". Convincente.
     

    meencantesp

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    Portuguese - Brazil
    A função sintática que o 'o' exerce no começo é a mesma que exerce no fim, se alguma e seja ela qual for. Ora, a inversão da ordem da pergunta não pode acarretar a eliminação da função sintática da palavrinha:

    Isso aí é o quê?
    O que é isso aí?

    Se os prescritivistas não o aceitam no começo, não deveriam aceitar no fim. Mas aceitam no fim. Então deveriam aceitar no começo por mera questão de inversão da ordem.

    A prescrição me parece meramente estilística, em que pese o ar de gramatical com esse papo de correto ou incorreto.
    É de fato uma partícula expletiva?

    Como mencionado recentemente no outro fio, os portugueses têm o costume de pôr o artigo definido antes do pronome possessivo: 'o meu', 'a minha'. No Brasil, esse artigo é facultativo, por desnecessário sintaticamente. Logo, segundo o raciocínio do Napoleão, o artigo em 'o meu' também seria "incorreto". Convincente.
    O Napoleão, se não me engano, também fala da “inconveniência” do artigo antes do possessivo. Não sei se usa a palavra “incorreto”, mas, no mínimo, é contrário a esse uso. Diz que o o possessivo por si só já determina.
     

    machadinho

    Senior Member
    Português do Brasil
    É de fato uma partícula expletiva?
    Se for expletiva na frente, será expletiva atrás. Ora, não é expletiva atrás: 'isso aí o que é?'. Logo, não é expletiva na frente.

    O Napoleão, se não me engano, também fala da “inconveniência” do artigo antes do possessivo. Não sei se usa a palavra “incorreto”, mas, no mínimo, é contrário a esse uso. Diz que o o possessivo por si só já determina.
    Outro uso desnecessário do artigo na sua própria pergunta: "O Napoleão". Meencantesp, não caia nessa. O NMA delira não raras vezes.
     

    meencantesp

    Senior Member
    Portuguese - Brazil
    Se for expletiva na frente, será expletiva atrás. Ora, não é expletiva atrás: 'isso aí o que é?'. Logo, não é expletiva na frente.
    Que seria atrás, então? :D Não afirmei que era expletiva, só supus mesmo. Não consegui obter resposta na internet.
    Outro uso desnecessário do artigo na sua própria pergunta: "O Napoleão". Meencantesp, não caia nessa. O NMA delira não raras vezes.
    Não virei discípulo do Napoleão, de modo algum. Aliás, me dá nos nervos (exagerei, só não gosto dele mesmo) um aparente modismo inconsciente que há na internet de omitir o artigo definido, muito praticado por gente da minha idade, até originária de regiões que não fazem isso (as que fazem são algumas do Nordeste, pelo que sei), logo eu seria o último a seguir os conselhos dele nessa esfera. Quem sabe eu tenha certa simpatia por essa ideia do “que” sem “o” na frente, provavelmente por gostar bastante do espanhol, em que não se faz isso. De qualquer forma, não é raro ouvir esse “o” sendo omitido na fala. “Quiqui é isso?”

    Falando em delírios do Napoleão, isso é interessante. Era um homem que encarnava o legítimo grammar nazi. A dona Revocata, n’O arquipélago, do Veríssimo, me fez lembrar dele quando li. Corrigia os galicismos dos alunos já crescidos:

    “D. Revocata, que estava presente, observou que avalanche era galicismo desnecessário, uma vez que em português já existia a palavra alude.”

    Dada a época do romance (e o fato de o enredo acontecer aqui no Rio Grande do Sul), imagino também os erres vibrantes, os eles bem pronunciados, aquele “conscieãncia” (não ditongado?), entre outros traços de gente velha. Mas é legal imaginar essa caricatura, porque me faz pensar numa pessoa com ideais definidos, com um senso de dever na proteção da língua pátria, algo meio ufanista mesmo.
     
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    machadinho

    Senior Member
    Português do Brasil
    Que seria atrás, então? :D Não afirmei que era expletiva, só supus mesmo.
    O 'que', nesse caso, é um pronome substantivo, e o artigo definido em 'o que' funciona, portanto, a meu ver, como um adjunto adnominal qualquer.

    Acho que é só questão de ênfase mesmo, como acima disse o @Carfer. Chame de expletivo se quiser. Do meu ponto de vista, só será expletivo quando o 'que' aparecer duas vezes: 'o que que você quer, o que é que você deseja?' Mas nesse caso repare que de expletivo aí temos a expressão 'o que' toda, não só o artigo.
     
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    gato radioso

    Senior Member
    spanish-spain
    Segundo Napoleão Mendes de Almeida, “O que?” seria inadequado. Ou seja, não seria correto perguntar “O que é isso?” ou “O que que é isso?”; o correto seria usar “Que é isso?” ou “Que que é isso?” Segundo ele, o “o” não exercia função sintática, pelo que não convinha que fosse usado (exceto em final de frase; “Isso aí é o quê?”). Classificou como hábito “comum no linguajar do povo e, mais ainda, encontrado em escritores”.

    No Dicionário de questões vernáculas, ele diz também que o espanhol luta contra o ““popular”” interrogativo “el que”. Nunca cheguei a ler ou ouvir essa construção na língua espanhola, nem na mídia, nem em vídeos informais no Youtube e nem na fala de pessoas comuns. Em suma, esse “el” certamente não é mais popular do que o nosso “o”, então fazer a comparação não é o melhor caminho, creio eu. Em todas as lições da Gramática metódica da língua portuguesa e da Gramática latina, o gramático escreve desta forma: “Que é um adjunto adverbial?”.

    Pois então, se o “o” não exerce função sintática, o “o” seria o quê? Uma partícula expletiva?

    Adição: segundo o site Recanto das Letras, na Metódica, Mendes de Almeida falou que não havia razão eufônica para o “o”:

    “… iniciando a oração ‘o que’, mais castiçamente, deverá vir desacompanhado do ‘o’, porque neste caso (não seria nesse?) é sintática e eufonicamente inútil: ‘Que queres?’, ‘Que há?’, ‘Que?!’”

    Também se mostram exemplos de outros gramáticos que, exemplificando o uso do interrogativo, não põem o “o” na frente do “que”. Mostra-se a posição de Said Ali, que defende, embora só mostrando autores do século XIX, que o uso da forma na fala existe pelo menos desde o século XVI.
    Sim, é verdade: nós temos em castelhano esse "¿el qué?", mas é vulgarismo embora seja usado às vezes, sempre em situações muito coloquiais ou familiares:

    Ex.:
    A mulher chama desde a janela ao marido que está a trabalhar no jardim:
    -Juaaaaaan…te está sonando el móvil ¡cógelooo!
    O marido responde aos gritos:
    -¿Quéééé´...? :tick:
    -¿El quéee….? :cross:

    Haveria outra opção ainda pior:
    -¿Lo quéééé? :cross::cross:
     

    guihenning

    Senior Member
    Português do Brasil
    Essa agora! Bom, se bem que Napoleão nunca acerta, o bastião do """bom português""" não descansa nunca, parece militante de internet.
    Estou surpreso que alguém tenha mesmo criado caso com o "o" de "o que", tão português que é.
    Sobre os possessivos… me espanta também, visto que os prescritivistas são dados ao latim, ele seve saber que o português "o meu amigo" vem da vulgata "illu meu amicu"
    No meu português e no meu idioleto ideal, o artigo vem sempre, mas tenho notado que às vezes tenho deixado de usá-lo como em "minha casa é grande", sem perceber. O único uso consistente que faço é antes de nomes de pessoas, digo sempre "O Rafael vem hoje?" e jamais "Rafael vem hoje?" e também com pessoas: a minha mãe, a minha irmã, o meu namorado, a minha vizinha e assim por diante.
     
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