A origem do R aspirado de "carta", usado em parte do Brasil

meencantesp

Member
Portuguese - Brazil
O R em palavras como carta, pôr, quiser e semelhantes é bastante diverso no Brasil. Sem querer me ater a detalhes geográficos (não quero ser tão específico), pode ser dito que existem quatro formas dominantes de pronunciá-lo. Na maior parte do Sul e em partes de São Paulo (especialmente na capital), é usada a vibrante simples (ou tepe), como se usa no espanhol, no italiano e em outras línguas latinas. É a forma mais antiga do português, pelo que não é tão necessário averiguar qual seria sua origem. Na área mais central do país, é usado o R retroflexo (ou caipira), que se assemelha, de certa forma, ao do inglês. É proveniente do contato linguístico dos portugueses com alguns indígenas. Há uma pronúncia, muito semelhante à que vou citar adiante, que é parecida com o R francês. É pronunciada do fundo da garganta, e parece ser a forma usada pelos cariocas. Dizem que se originou de uma tentativa dos cariocas de imitar os elegantes franceses, ainda no século XIX.

O último R seria o dito aspirado, pronunciado como o H do inglês. É usado no Nordeste e em maior do Norte, por exemplo. Arrisco dizer que, em extensão geográfica, é o dominante no país. Pois bem, aí vem a questão: qual sua origem? O R retroflexo é dos indígenas; o vibrante, dos próprios portugueses; o carioca (ou fricativa uvular, creio eu), dos franceses. E o aspirado? Outra pergunta: quando o R vibrante (original do português) foi substituído pelo aspirado nas regiões que hoje utilizam este último?

Como curiosidade, numa interpretação da música Asa branca, de Luiz Gonzaga, célebre nordestino, é possível ouvi-lo pronunciando palavras semelhantes às que citei com a vibrante simples. Além disso, também pronúncia o dígrafo RR de morreu com a vibrante múltipla (a pronúncia dos mais velhos do Brasil, de Portugal e a vigente no espanhol e em outros idiomas da família do nosso).
 
Last edited:
  • guihenning

    Senior Member
    Português do Brasil
    Não há uma origem específica. Muito recentemente o trill foi substituído por outras variantes no PE e PB. Se assistir a vídeos antigos antes de 1980, notará que a pronúncia padrão ainda era vibrante (os comerciais da Volkswagen são imbatíveis).
    No PE, o trill só se moveu para o fundo da garganta, como em francês até nos anos 60, embora haja variações.
    No PB, passou a ser aspirado na maior parte do país, mesmo que não seja realizado assim em coda. (como é o caso de São Paulo e do Sul). Pode ser que seja por influência da pronúncia padrão carioca já nas décadas de 50 e 60, mas eu acho difícil de precisar, sobretudo porque São Paulo tende a resistir às mudanças fluminenses.
    Um reparo a ser feito é que não há um erre carioca, há uma série de variações [x, h, χ, ʀ] . O erre mais marcado e afrancesado não ocorre uniformemente no Rio. As variantes também ocorrem a depender do contexto fonético.
    O erre retroflexo não ocorre no centro somente. Ocorre no Paraná, em São Paulo e estende-se a outros estados limítrofes. A pronúncia padrão curitibana ainda contempla o erre forte, por exemplo, embora apenas em coda, diferente do efetivamente caipira, em que pode ocorrer em posição intervocálica. Não há indícios de que havia um erre retroflexo no tupi; não se pode afirmar com certeza que a origem desse erre vem de lá. De todo.
     
    Last edited:

    meencantesp

    Member
    Portuguese - Brazil
    Um reparo a ser feito é que não há um erre carioca, há uma série de variações [x, h, χ, ʀ] . O erre mais marcado e afrancesado não ocorre uniformemente no Rio. As variantes também ocorrem a depender do contexto fonético.
    De fato, não estava tão seguro quanto a essa parte. Não sabia se devia citá-la.

    O erre retroflexo não ocorre no centro somente. Ocorre no Paraná, em São Paulo e estende-se a outros estados limítrofes.
    Sim, sei bem. Usei centro de uma maneira genérica. E o caso do Paraná é interessante, porque, ao que parece, mais ao norte a pronúncia do R é caipira, enquanto mais ao sul ela é mais de tipo sulista.

    A pronúncia padrão curitibana ainda contempla o erre forte, por exemplo, embora apenas em coda, diferente do efetivamente caipira, em que pode ocorrer em posição intervocálica. Não há indícios de que havia um erre retroflexo no tupi; não se pode afirmar com certeza que a origem desse erre vem de lá. De todo.
    Que seria o erre forte? Sobre a última parte, não há tanto que eu possa dizer. Tratava-se somente de uma informação de alguém sem aprofundamento verdadeiro no assunto.
     

    meencantesp

    Member
    Portuguese - Brazil
    Erre forte é um erre retroflexo, mas não tão marcado como o caipira. Julgo que seja um aproximante alveolar, mas já não tenho a certeza.
    Está bem. Esse R retroflexo é incomum no Rio Grande do Sul, ainda que certos fatores o façam aparecer na fala de algumas pessoas, em alternância com a vibrante simples. Palavras como cirurgia geram certo tipo de dificuldade na pronúncia do R, fazendo com que saia uma aproximante alveolar. Além disso, há a condicionante social e instrucional de sempre: quanto menos favorecidas, mais retroflexizadores os falantes. De qualquer forma, parece que o R retroflexo ouvido nestas bandas é leve, como que escondido, um resíduo, enquanto o ouvido dos paulistas (e de muitos paranaenses) tende a ser forte, como se o sujeito estivesse querendo dar ênfase à própria pronúncia à americana. Vejo também que o usuário do R vibrante consegue reproduzir todos os outros sons róticos do Brasil, enquanto o do R retroflexo parece ter certa dificuldade ao imitar outras pronúncias.
     
    < Previous | Next >
    Top