A respeito da pronúncia paulista (sobretudo paulistana) de palavras como "fazendo" e "entendendo"

meencantesp

Member
Portuguese - Brazil
Oi, este é meu primeiro tópico neste fórum. Há muito tempo tenho o costume de lê-lo com o intuito de tirar dúvidas sobre o português e sobre o espanhol, duas línguas sobre as quais amo estudar detalhes. Também aprendo e sei consideravelmente inglês, embora não seja nem de longe um idioma que me agrada como os dois anteriores.

Todavia, o objetivo do tópico é obter uma resposta mais embasada sobre uma dúvida que tenho, já que, na internet, só vejo referências humorísticas a ela. Minha pergunta relaciona-se à temática dos sotaques, da variação regional de pronúncia. Através da mídia, ouço comumente paulistas e até mesmo jornalistas que neutralizam sua fala pronunciando palavras como "entendendo", "fazendo", "quinta", "emenda", entre várias outras, de maneira peculiar e, por que não dizer, caricata. Essas palavras passam a soar como "im-teindeindo", "fazeindo", "quim-ta" e "emeinda" (não sei fazer transcrição fonética, sou só um estudante do ensino médio, XD). Tal pronúncia é bem diferente da que ouço aqui no Rio Grande do Sul, que me parece ser similar à da maioria do país e à de Portugal, além de aproximar-se da feita à espanhola ("haciendo", por exemplo). Pelo que percebo, é um traço oral da maioria dos paulistas, ainda que fique mais acentuado nos paulistanos. Abaixo, deixo um áudio exemplificando a pronúncia da palavra "fervendo" de duas maneiras: primeiramente a gaúcha (a minha própria), e depois a paulista.

Áudio no Vocaroo: Pronunciando a palavra "fervendo"

Com isso, deixo minhas perguntas:

1 - Existe uma denominação para esse fenômeno? Qual?
2 - Se é que está, em quais outros sotaques brasileiros ele está presente?
3 - Qual sua possível origem? Tem algo que ver com a influência italiana ou indígena?
 
  • Guigo

    Senior Member
    Português (Brasil)
    1. Não seria um tipo de nasalização?

    2. Pelo que observo, os sotaques brasileiros de outras regiões (NE, RJ e, principalmente , MG) estão perdendo o "d", no gerúndio: fervenno, comenno, sabenno, etc.

    3. Não saberia dizer, são tantas influências na capital paulista. A Grande São Paulo tem 21.500.000 habitantes, mais que os 20.800.000 do segundo estado mais populoso (MG); então, a coisa é rústica mesmo.
     

    Ari RT

    Senior Member
    Português - Brasil
    Me lembrei do Emerson Fitipaldi em um comercial de artigos para carros: - Eu recomeeeeeeeiiindo (leia-se o primeiro e bem forte, decaindo suavemente até um schwa no primeiro i).
    Andei por boa parte do Brasil e não observei esse traço de pronúncia fora de SP. Outros traços sim, como o R caipira, que viaja com o pessoal do interior de SP, Paraná, MG, Goiás e chega longe na fronteira noroeste.
    Da influência indígena não sei nada. Tenho dúvidas sobre se a influência italiana teria sido causa eficaz. O imigrante italiano falava o n duro bem caracterizado, bem diferente do m, o l como ele mesmo, sem traço de u, o s sem chiar. Mas cantava. Aliás, ainda canta, estamos na terceira geração ainda falando com traços da fala dos avós. Esse cantar PODE ter pedido essa meia nasalização, meia epêntese, visando a acomodar as palavras portuguesas ao ritmo das frases italianas. Mas isso foi um long shot, só uma hipótese.
     

    meencantesp

    Member
    Portuguese - Brazil
    1. Não seria um tipo de nasalização?

    2. Pelo que observo, os sotaques brasileiros de outras regiões (NE, RJ e, principalmente , MG) estão perdendo o "d", no gerúndio: fervenno, comenno, sabenno, etc.

    3. Não saberia dizer, são tantas influências na capital paulista. A Grande São Paulo tem 21.500.000 habitantes, mais que os 20.800.000 do segundo estado mais populoso (MG); então, a coisa é rústica mesmo.
    Pensei nesse nome, mas não consegui achar nenhum artigo sobre isso na internet. Relativo ao "fervenno", até onde sei é algo antigo, presente entre as classes mais baixas (é muito representado nas estereotipagens da fala nordestina). A origem do "eindo" ainda me parece nebulosa.
     

    meencantesp

    Member
    Portuguese - Brazil
    Me lembrei do Emerson Fitipaldi em um comercial de artigos para carros: - Eu recomeeeeeeeiiindo (leia-se o primeiro e bem forte, decaindo suavemente até um schwa no primeiro i).
    Andei por boa parte do Brasil e não observei esse traço de pronúncia fora de SP. Outros traços sim, como o R caipira, que viaja com o pessoal do interior de SP, Paraná, MG, Goiás e chega longe na fronteira noroeste.
    Da influência indígena não sei nada. Tenho dúvidas sobre se a influência italiana teria sido causa eficaz. O imigrante italiano falava o n duro bem caracterizado, bem diferente do m, o l como ele mesmo, sem traço de u, o s sem chiar. Mas cantava. Aliás, ainda canta, estamos na terceira geração ainda falando com traços da fala dos avós. Esse cantar PODE ter pedido essa meia nasalização, meia epêntese, visando a acomodar as palavras portuguesas ao ritmo das frases italianas. Mas isso foi um long shot, só uma hipótese.
    O R caipira é amplíssimo, seu uso compreende toda a região central do Brasil. Aqui no RS, onde vivo, entre pessoas de classes mais baixas e/ou menor escolaridade, em fala despreocupada, ouve-se a pronúncia retroflexa em certas palavras. Também pensei que se tratar de uma influência italiana fosse improvável, visto que o som "ein" não existe nessa língua. De qualquer forma, a hipótese talvez faça algum sentido. Continuarei à procura de uma resposta definitiva.
     

    jay jaw

    New Member
    português
    1. Não seria um tipo de nasalização?

    2. Pelo que observo, os sotaques brasileiros de outras regiões (NE, RJ e, principalmente , MG) estão perdendo o "d", no gerúndio: fervenno, comenno, sabenno, etc.

    3. Não saberia dizer, são tantas influências na capital paulista. A Grande São Paulo tem 21.500.000 habitantes, mais que os 20.800.000 do segundo estado mais populoso (MG); então, a coisa é rústica mesmo.
    no interior do nordeste nós não pronunciamos fazenno, mais sim fazend com o D surdo, e o O mudo, a pronuncia fazenno é mais característica do Rio de Janeiro e Minas Gerais.
     
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    guihenning

    Senior Member
    Português do Brasil
    Oi, este é meu primeiro tópico neste fórum. Há muito tempo tenho o costume de lê-lo com o intuito de tirar dúvidas sobre o português e sobre o espanhol, duas línguas sobre as quais amo estudar detalhes. Também aprendo e sei consideravelmente inglês, embora não seja nem de longe um idioma que me agrada como os dois anteriores.

    Todavia, o objetivo do tópico é obter uma resposta mais embasada sobre uma dúvida que tenho, já que, na internet, só vejo referências humorísticas a ela. Minha pergunta relaciona-se à temática dos sotaques, da variação regional de pronúncia. Através da mídia, ouço comumente paulistas e até mesmo jornalistas que neutralizam sua fala pronunciando palavras como "entendendo", "fazendo", "quinta", "emenda", entre várias outras, de maneira peculiar e, por que não dizer, caricata. Essas palavras passam a soar como "im-teindeindo", "fazeindo", "quim-ta" e "emeinda" (não sei fazer transcrição fonética, sou só um estudante do ensino médio, XD). Tal pronúncia é bem diferente da que ouço aqui no Rio Grande do Sul, que me parece ser similar à da maioria do país e à de Portugal, além de aproximar-se da feita à espanhola ("haciendo", por exemplo). Pelo que percebo, é um traço oral da maioria dos paulistas, ainda que fique mais acentuado nos paulistanos. Abaixo, deixo um áudio exemplificando a pronúncia da palavra "fervendo" de duas maneiras: primeiramente a gaúcha (a minha própria), e depois a paulista.

    Áudio no Vocaroo: Pronunciando a palavra "fervendo"

    Com isso, deixo minhas perguntas:

    1 - Existe uma denominação para esse fenômeno? Qual?
    2 - Se é que está, em quais outros sotaques brasileiros ele está presente?
    3 - Qual sua possível origem? Tem algo que ver com a influência italiana ou indígena?
    Não há nome específico, mas como o Guigo disse, eles ditongam o "e" nasal que no resto do país é uma vogal simples. Por isso soa "einteindeindo". É mais forte e audível em sílabas tônicas, mas em átonas também ocorre.
    Sobre o "i" de quinta, eu tenho a impressão de que é uma vogal alongada [i:] que começa simples e depois se nasaliza, dando a impressão de hiato.
    Parece só ocorrer na Capital e no litoral. Esse fenômeno desaparece no interior.
    Difícil precisar a origem, a ditongação nasal não é característica de nenhum língua fora o português que eu saiba. Pela generalidade do fenômeno, é provável que tenha sido espontâneo em vez duma influência doutra língua e que se expandiu quer da capital para o litoral, quer o contrário.
     

    meencantesp

    Member
    Portuguese - Brazil
    Não há nome específico, mas como o Guigo disse, eles ditongam o "e" nasal que no resto do país é uma vogal simples. Por isso soa "einteindeindo". É mais forte e audível em sílabas tônicas, mas em átonas também ocorre.
    Sobre o "i" de quinta, eu tenho a impressão de que é uma vogal alongada [i:] que começa simples e depois se nasaliza, dando a impressão de hiato.
    Parece só ocorrer na Capital e no litoral. Esse fenômeno desaparece no interior.
    Difícil precisar a origem, a ditongação nasal não é característica de nenhum língua fora o português que eu saiba. Pela generalidade do fenômeno, é provável que tenha sido espontâneo em vez duma influência doutra língua e que se expandiu quer da capital para o litoral, quer o contrário.
    Muito obrigado pela resposta. Pesquisando "ditongação nasal", obtive várias explicações.
     
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