abertura das vogais nas formas verbais

Dymn

Senior Member
Olá gente,

Uma das dificuldades do português é que na escrita não se distingue entre as vogais abertas (é ó), e as fechadas (ê ô). Julgo que não há atalhos para conhecer a abertura de cada palavra e tenho de procurar a pronúncia nos dicionários. Vejo que tanto o Priberam quanto a Infopédia dão a pronúncia, e ambos indicam os casos que são fechados no singular masculino e abertos no resto de formas, tais como ovo, novo, porto, olho, etc.

O problema é que nos verbos apenas mostram o infinitivo, o que nos faz perder informação porque:
  • A raíz do verbo é átona e o português tem redução vocálica nas sílabas átonas
  • Mesmo nas formas com a raíz tónica, há às vezes uma alteração próxima da dos nomes e adjectivos, por exemplo: môvo, móves, móve, móvem / cêdo, cédes, céde, cédem
A minha pergunta é se há algum recurso onde eu puder consultar o grau de abertura das formais verbais com a raíz tónica, ou há algum truque que não conheça.

Muito obrigado
 
  • guihenning

    Senior Member
    Português do Brasil
    Dificilmente haverá um modo de saber com certeza se há ou não metafonia verbal. Eu creio ser impossível, pois há casos de contextos muito similares ou idênticos em que haverá metafonia num verbo, mas não noutro. Esse parece ser um problema insolúvel da língua portuguesa. Daria para criar pseudo-regras e aproximações, mas o fato é que a metafonia verbal é muito imprevisível.
     

    aoficina

    New Member
    Variantes da língua portuguesa do Brasil
    Muitas vogais tônicas do português são abertas ou fechadas em decorrência da vogal latina da qual ela se originou. A quantidade vocálica (longa/breve) foi substituída pelo timbre vocálico (fechado/aberto).

    Por exemplo, o o será fechado se veio do o latino longo ou do u latino:
    amōre -> amor (ô)
    colōre -> cor (ô)
    lupu -> lobo (ô)
    bucca -> boca (ô)

    O o será aberto se veio do o latino curto:
    lǒcu -> logo (ó)
    nǒve -> nove (ó)

    O mesmo com o e:
    ille -> ele (ê) [terceira pessoa do singular]
    ěle -> ele (é) [letra l]
    vēna -> veia (ê)

    Pra essa "regra" te ser útil, você precisaria saber latim também. Não há outra forma de saber, a não ser aprendendo palavra por palavra. Os "atalhos" possíveis (singular/plural e pessoas verbais) você, aparentemente, já conhece.
     
    Last edited:

    Dymn

    Senior Member
    Muito obrigado Aoficina.

    Por acaso, quando perguntei neste fórum fui olhar várias palavras latinas e os seus resultados em cinco das línguas românicas para entender a sua evolução. Tem razão com esta tendência no caso do português, mas as excepções também são significativas. Por exemplo hora, sol, voz e nós são abertas mas o seu étimo latim é um o longo. E há muitas mais que têm um o curto em latim mas um o fechado em portugués. Estas geralmente coincidem com as que abrem o som nos plurais: porto, osso, fogo, novo, etc.

    Infelizmente, não sei latim e tenho de procurar todas as aberturas das vogais em latim no Wiktionary. De todo o modo, vejo que na Infopédia sempre dão a pronúncia das palavras em português, então vou olhar sempre que tenha qualquer dúvida.
     

    guihenning

    Senior Member
    Português do Brasil
    Estas geralmente coincidem com as que abrem o som nos plurais: porto, osso, fogo, novo, etc.
    A bem verdade, a vogal fecha-se no singular e continua com o timbre normal, sem metafonia, nos plurais e formas verbais. A vogal de "porto" é aberta, mas o substantivo masculino singular, por influência da letra "o" átona pós-tônica, tem a vogal tônica fechada (metafonia). O certo é dizer que nesses casos a vogal se fecha no singular, em vez de dizer que se abre nos plurais. É claro que não é muito importante na prática, mas ajuda a entender que o português não mudou o timbre latino de todo, apenas num caso em que há influência da vogal subsequente. Veja-se, por exemplo, o verbo "aportar" que tal como o plural "portos" tem vogal tônica sempre aberta, com exceção das formas cuja raiz seja átona (nós, vós).
     

    Dymn

    Senior Member
    Muito obrigado, Guilhenning, é uma melhor abordagem.

    Seja como for, eu acho curioso que os adjectivos femininos destas palavras mantenham a vogal aberta mas não as formas do conjuntivo: nôvo, nóva, nóvas; mas môvo, môva, môvas. É preciso um e nestes verbos para manter o timbre aberto: móves, móve, móvem.
     

    guihenning

    Senior Member
    Português do Brasil
    mas môvo, môva, môvas.
    Veja que justamente no subjuntivo temos "a", que não costuma afetar o timbre: [o] que eu mova, tu movas, ele mova, movamos, movais, movam...
    Já nas formas em que há alteração de vogal a metafonia ocorre porque o "e" (vogal alta no português do Brasil atual, mas neutralizada em schwa em Portugal) faz com que a vogal tônica abra-se e torne-se alta também: [ɔ] moves, move, movem… A metafonia é isso, uma vogal alta que influencia a vogal tônica que a antecede. O alemão tem regras bem sólidas, um "i" pós-tônico sempre transformara [u) em [y]: Kunst, Beruf, Mund > künstlich, berüflich, mündlich.
    Em português, infelizmente a mudança é mais esporádica, mas há sempre casos de suspeita:
    "o" átono, principalmente final tende a fechar uma vogal cujo timbre é aberto (por via normal, do latim) [ˈno.vʊ] (novo), [ˈnɔ.vɐ] (nova)
    "e" átono final ( [i), [ɪ]) costuma abri-la em verbos. Note-se que o sinal gráfico "e" não tem influência, é a pronúncia que afeta a vogal. A pronúncia portuguesa se alterou, mas a metafonia continua valendo. No Brasil a pronúncia [ɪ] se mantém, tornando levemente mais fácil de observar os fenômenos do umlaut.
    Note-se também que os casos de metafonia de substantivos ocorre mormente (e talvez tão-somente) em dissílabos. Em palavras maiores a força da metafonia tende a dissipar-se, mas há, como sempre, exceções.

    O que falta explicar (e aqui só posso especular) é que nem todas as mudanças tenham ocorrido por força metafônica. Casos de formas verbais e substantivos que são escritos de igual maneira mas pronunciados diferentemente (adorno [o] (s.m) vs adorno [ɔ] (1ªp. sing.) podem ter-se originado duma necessidade artificial de se distinguirem essas palavras. Nesses casos, é provável que a distinção não seja natural, mas fabricada.
     
    Last edited:
    < Previous | Next >
    Top