atributos

Billie Ro

Senior Member
Spanish (Spain)
Saludos.

¿Cómo entendéis "atributos" en esta frase?

"(...) indios trazidos da América para Paris, sem mostra de piedade, impressionado com o cinismo da cultura ocidental, que fora capaz de exibir estes índios americanos, a pretexto de serem representantes de nobre etnia, para tanto sobrecarregando-os de atributos."

¿Para lo cual les atribuían más cualidades de las que tenían, por ejemplo?

Gracias otra vez.
 
  • Carfer

    Senior Member
    Portuguese - Portugal
    Como 'qualidades', efectivamente. 'Atributo', o termo espanhol, não serviria? É que me parece que o significado é o mesmo. E 'sobrecarregar' parece ser mais forte do que simplesmente 'atribuir más cualidades'.
     

    Billie Ro

    Senior Member
    Spanish (Spain)
    (...) los indios llevados de América a París sin muestra alguna de piedad, horrorizado por el cinismo de la cultura occidental, la nuestra, que era capaz de exhibir a aquellas personas en cuanto representantes de etnias nobles, sobrecargándolos de atributos para tal fin.

    Gracias, sí, creo que al reformular la frase, fluye mejor esta versión, con las mismas palabras, sin que suene extraño.

    Gracias, Carfer y olivinha :)
     

    gato radioso

    Senior Member
    spanish-spain
    Eu diria que aqui "atributo" é, mais que nada, "estigma"
    "estereótipo"...antes que "atributo" como arranjo, ornamentação, elemento num vestiário ceremonial...
     

    Carfer

    Senior Member
    Portuguese - Portugal
    Não li o livro, que, se é o que julgo, custa aqui a disparatada quantia de €50, pelo que tenho de me circunscrever ao que posso deduzir dos fragmentos que Billie Ro nos propõe (aliás, a própria identificação da obra é já por si uma dedução que faço a partir das pistas que nos dão as diferentes perguntas que faz). Admitindo, consequentemente, a falibilidade do que vou dizer, a minha interpretação é outra e oposta, ou seja, penso em qualidades, não em estigmas.
    Para que haja cinismo tem de haver uma despudorada contradição entre o que se afirma e o que se pratica. No meu entender, estará na contradição entre o tratamento real que era infligido aos índios nas Américas e a forma como eram apresentados/representados/vistos/ na Europa, ou seja, como "etnias nobres" e cheias de qualidades, os tais "atributos".
    A falta de mais contexto não permite localizar temporalmente em que momento histórico esses referidos índios foram levados a Paris. Há uma caso conhecido, o dos índios brasileiros que foram exibidos em 1550, numa teatrada em Rouen, ao rei Henrique II de França. Não é Paris, mas é perto. Pode ser esse, portanto. Em contrapartida, mais perto da data em que o personagem do texto emigra para o Brasil e por no fragmento se falar de exibição, vêm logo à mente os zoos humanos nos quais eram exibidos indígenas dos países colonizados como forma de ilustrar e justificar a "missão civilizadora" das potências coloniais https://achac.com/zoos-humains/wp-c...-Paris-jardinacclimatation-web.compressed.pdf e que estiveram na moda a partir do século XIX e até ao termo da ocupação europeia. Porém, em Portugal, que era onde podia ter visto algum, só em 1934, na Exposição Colonial do Porto, ocorreu uma exibição semelhante. A visão do colonizado que esse género de exibições veiculava não é, de resto, compatível com a tal "nobreza" das etnias (a menos que o texto seja irónico, o que é provável) pelo que parece ser de afastar essa hipótese. Seja como for, há manifesto cinismo e desvergonha em invocar a civilização ou uma missão civilizadora e exibir outros seres humanos como se fossem animais.
    Mesmo que a referência vise uma época anterior, parece-me que ainda assim se pode entender a afirmação no sentido que proponho. Houve sempre uma contradição, que só espantará os ingénuos, entre o que os poderosos defendem e o que praticam, entre as tiradas ideológicas que justificam a dominação e a real situação dos dominados. A colonização não é, obviamente, excepção, é até, talvez, o paradigma dessa contradição. O mito do bom selvagem, no qual penso que assentarão os tais "atributos", nasce com a colonização das Américas, ainda que seja bastante posterior a sua formulação por Montaigne, que afirmou ter contactado com índios brasileiros na corte de Carlos IX (mais uma vez em Rouen) e que vê neles um povo inocente, natural e puro (lá está, mais atributos positivos) (*). É claro que essas representações idealizadas estavam nas antípodas do tratamento dado no terreno às populações colonizadas, daí que continua a ser justo afirmar que há nela cinismo, porque, dada a qualidade das pessoas, não podiam ignorar os maus tratos e abusos que sofriam. (**).
    Resumindo, creio que a letra do fragmento em causa não suporta a ideia de atributos negativos, por um lado, e, por outro, que o tempo em que verosimilmente poderá ter ocorrido o facto referido aponta mais para épocas em que se viam os índios como bons selvagem, com atributos positivos, portanto.

    (*)Em boa verdade, até já há manifestações desse mito na "Carta do achamento do Brasil" do Pero Vaz de Caminha, que dá deles uma ideia claramente positiva.
    Essa visão dos índios persiste na Europa nos séculos seguintes. No "Grand Carrousel du Roi-Soleil" de 1662, há figurantes, altas personalidades da nobreza francesa, como o duque de Guise, a representar, de maneira totalmente idealizada, os índios da América, como podem ver na quadrilha V do livro de gravuras que Chauveau lhe dedicou. (Catalogue en ligne des gravures de la Chalcographie du Louvre). Imaginam membros da alta aristocracia francesa, na corte mais megalómana e pretensiosa da Europa, a mascararem-se de índios se deles houvesse então uma ideia negativa?
    Outro exemplo, as entradas 2ª e 4ª da ópera-ballet "As Índias Galantes" de Rameau (1735) têm como tema os selvagens da América. Até Diderot, que mesmo rejeitando-a, não adopta uma visão negativa, é essa ideia do bom selvagem que predomina.

    (**)E é igualmente por cinismo, por mero cálculo político, que, logo do início, os colonizadores fizeram questão de bem tratar um pequeno segmento das populações nativas: os caciques e reizetes locais, particularmente os que vieram à Europa. Logo que se deram conta do peso e influência que esses caciques e reizetes tinham sobre os indígenas, usaram com eles das maiores deferências, na expectativa de que, por essa via, lhes fosse mais fácil dominar as populações nativas. Em Espanha foram considerados nobres e foram-lhes inclusivamente atribuídos títulos, privilégios e tratamentos de nobreza (o tratamento por 'Don', por exemplo - vide don Fernando de Aragón ou don Juan de Castilla, ambos índios que Colombo trouxe de Hispaniola logo na sua primeira viagem, ou don Pedro de Moctezuma ou don Gabriel, caciques índios a quem Carlos V mandou pagar vitaliciamente 2.000 pesos de ouro, mercê à qual só os conquistadores tinham tido direito até então)
     
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