"Boa" e "pessoa" como "boua" e "pessoua"

meencantesp

Member
Portuguese - Brazil
Em que lugares do Brasil essa pronúncia é mais frequente? Em quais é menos? É mais comum que mulheres pronunciem de forma ditongada? É uma fala mais do "povo" ou das "patricinhas" e dos "mauricinhos" (sendo bem informal)?
 
  • Antonio d'Oliveira

    Senior Member
    Português - Brasil
    Nunca ouvi ditongo nessas palavras, mesmo andando com pessoas de todo nível intelectual. Soa muito afetado e horroroso até para os que não cuidam de falar bem. Ouviu nalgum lugar?
     

    machadinho

    Senior Member
    Português do Brasil
    Nunca ouvi ditongo nessas palavras, mesmo andando com pessoas de todo nível intelectual. Soa muito afetado e horroroso até para os que não cuidam de falar bem. Ouviu nalgum lugar?
    Não é um tritongo? Posso estar enganada mas acho que eu só falo assim. Não sou lá muito ['bowə] de fonética. Mas mesmo se estivesse lendo um texto em voz alta numa palestra acho que ia sair assim.
     

    meencantesp

    Member
    Portuguese - Brazil
    Aparentemente todo brasileiro está propenso a dizer boua em fala descuidada para evitar o hiato.
    Não sabia disso. Moro na região de POA e falo "bôa", mas percebo que há bastante variação. Muitos falam "boua", assim como muitos têm a mesma pronúncia que eu. Meus pais são do interior do RS, de uma cidade de colonização italiana (embora meu pai e minha mãe já tenham tido o sotaque alterado fortemente por viver em outra região); ambos reproduzem "bôa", nunca "boua".

    Nunca ouvi ditongo nessas palavras, mesmo andando com pessoas de todo nível intelectual. Soa muito afetado e horroroso até para os que não cuidam de falar bem. Ouviu nalgum lugar?
    Afetado soa, concordo contigo. Ouço com certa frequência essa pronúncia entre as pessoas com quem convivo - principalmente de meninas ou de mulheres. Minha pergunta sobre o fato de ser mais comum entre mulheres foi derivada justamente disso: parece ser uma fala mais "afetada", não sei explicar bem ao certo. Entre os meninos essa pronúncia parece ser mais reduzida - creio eu que justamente por soar mais "feminina" (e de forma alguma estou concordando com padrões de gênero; trata-se somente de minha análise, não tão objetiva por sinal). Assistindo a vídeos de pessoas de outras regiões do país (Brasil), de forma bem breve, percebi que os cariocas tendem a ditongar essas palavras.

    Ouçam este registro muito breve, feito no Vocaroo.

    Registro de voz

    No começo, falo "pessôas" e "bôas" (minha fala natural). Em seguido, pronuncio "pessouas" e "bouas" (como ouço muitos pronunciarem). Ah, e ignorem minha voz de adolescente XD
     
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    anaczz

    Senior Member
    Português (Brasil)
    Pesquisa rápida: Sou paulistana e, revendo agora, acho que sempre falei "pessoua e "boua". Acabo de pedir a 3 pessoas (1 português e 2 paranaenses) que lessem "esta é uma boa pessoa" e todos pronunciaram "boa pessoa".
     

    guihenning

    Senior Member
    Português do Brasil
    Não sei bem donde vem esse julgamento linguístico cada vez mais frequente aqui neste fórum, em que ou se questionam e tacham pronúncias ou usos alheios, ou se elaboram teses de fundo de quintal que sempre buscam apartar falantes por nível de instrução e quejandos.
    Eu já diria logo bem de cara que muito dificilmente há brasileiros que sempre pronunciam esta ou aquela variante exclusivamente. Sou paranaense e tendo a preservar o hiato, mas sei —porque sei e porque já reparei— que às vezes, não raro, o hiato se desfaz, como é comum e absolutamente lusófono fazer; se não o fosse, ainda falaríamos jacto, perfacto e facçom para jeito, perfeito e feição, respectivamente. Por algum motivo ainda subsiste no imaginário luso-brasileiro, de certo modo, sobretudo no brasileiro, que a boa pronúncia tem de se assemelhar à escrita, o que é irreal e risível, já que a pronúncia do português é bem distinta da escrita, embora o falante nativo não se aperceba disso, normalmente. Ainda é importante dizer que nalguns lugares, sobretudo em São Paulo, pode haver desnasalização e a pronúncia de "bom" se assemelhar mais a [bow] que [bõ], o que faz sentido que "boa" se produza [bowɐ]. Também é um fato que ninguém nem sequer nota se uma pessoa preserva ou não o hiato, é preciso antes prestar atenção ou ouvir conscientemente. O nome disso é alofonia, não afetação. Além disso, também se frise que a ortoépia não recomenda uma pronúncia mais do que outra, ambas ocorrem em variação.
    O hiato português em boa, pessoa, varoa e casos semelhantes é um mero caso dialetal. Na passagem do latim para o português abundaram formas que iam desde varôa, varonha a varõa e semelhantes. Se a língua padrão privilegiou a escrita e pronúncia dum dialeto mais que outros é mero acaso. O a dissolução do hiato tanto é natural que se diz ceia, freia, feia, saia para o que um dia já foi cea, fea, frea, fea, salga. Escusado também será mencionar novamente perfeito, jeito, peito, leito, leite, feição, cheio, provas vivas de que o português tende a sistematicamente acabar com os hiatos restantes de quedas consonânticas. Também é verdade que a portuguesa, das latinas, é a língua cujo número de ditongos é o maior de todos: são 27 (talvez 29*). Afeição por ditongos nós temos e não é de hoje; e o nosso sistema vocálico é prova disso, boa parte desses ditongos e tritongos (que também são numerosos) surge duma dissolução dum hiato. Chamar um falante que obedece fenômenos produtivos da língua de forçado é um sinal de ignorância linguística pantafaçuda, para não dizer mais.
    Variação é variação. É parte natural de qualquer idioma e alofonia existe em qualquer língua natural, não cabe aqui fazer juízo de valor sobre a variação alheia nem querer segmentar toda variação em grupos de pessoas estudadas ou não, pobres ou ricas e o que mais se tenha querido fazer por aqui ultimamente.
     
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    meencantesp

    Member
    Portuguese - Brazil
    Pesquisa rápida: Sou paulistana e, revendo agora, acho que sempre falei "pessoua e "boua". Acabo de pedir a 3 pessoas (1 português e 2 paranaenses) que lessem "esta é uma boa pessoa" e todos pronunciaram "boa pessoa".
    Fica a contribuição para a discussão. ;)

    Não sei bem donde vem esse julgamento linguístico cada vez mais frequente aqui neste fórum, em que ou se questionam e tacham pronúncias ou usos alheios, ou se elaboram teses de fundo de quintal que sempre buscam apartar falantes por nível de instrução e quejandos.
    Por algum motivo ainda subsiste no imaginário luso-brasileiro, de certo modo, sobretudo no brasileiro, que a boa pronúncia tem de se assemelhar à escrita, o que é irreal e risível, já que a pronúncia do português é bem distinta da escrita, embora o falante nativo não se aperceba disso, normalmente.
    O nome disso é alofonia, não afetação. Além disso, também se frise que a ortoépia não recomenda uma pronúncia mais do que outra, ambas ocorrem em variação.
    Chamar um falante que obedece fenômenos produtivos da língua de forçado é um sinal de ignorância linguística pantafaçuda, para não dizer mais.
    Variação é variação. É parte natural de qualquer idioma e alofonia existe em qualquer língua natural, não cabe aqui fazer juízo de valor sobre a variação alheia nem querer segmentar toda variação em grupos de pessoas estudadas ou não, pobres ou ricas e o que mais se tenha querido fazer por aqui ultimamente.
    Confesso que elaboro essas ditas "teses de fundo de quintal", e acho que é até normal que muitos também o façam. De forma nenhuma, entretanto, o faço a fim de hierarquizar pessoas; faço-o por simples observação, até porque, como disse, a pronúncia do português é distinta da escrita: falo "pêxe" em vez de "peixe", reproduzo pronúncias variadas de acordo com o contexto ("tiá-tru", "ti-a-tru" e "tê-a-tru", digo "méu" em vez de "mel" (com o L pronunciado da forma tradicional), etc. A palavra "afetação" talvez não fosse a mais adequada, de fato. A ideia que quis dar era de que se tratava de uma pronúncia com "swag" (sendo bem informal), mas, como disse anteriormente, não tinha a mínima intenção de dizer que esse "swag" é algo negativo ou positivo. Quanto à observação que fez sobre a "segmentação", confesso que fiquei um pouco reticente. É um problema observar as variações de fala e agrupar certos traços de acordo com o grupo social a que as pessoas que o reproduzem pertencem, mesmo que sem a mínima intenção de tratá-las de forma inferior, somente para uma conversa menos técnica?


    De resto, fico muito agradecido pela explicação, tem um bom conhecimento sobre o assunto. No espanhol, "arquero" é oficial. :p
     
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    Antonio d'Oliveira

    Senior Member
    Português - Brasil
    Sou paulista e digo «loco», «fea», «oro» e «boa». Se juntarmos as bichas, teremos «Na boa: é oportunidade de oro. Nem dê uma de loco, que é feo, parça». Enfim: falo «boa»
     

    guihenning

    Senior Member
    Português do Brasil
    Confesso que elaboro essas ditas "teses de fundo de quintal", e acho que é até normal que muitos também o façam. De forma nenhuma, entretanto, o faço a fim de hierarquizar pessoas; faço-o por simples observação
    Certo. A bem verdade, o meu extensivo comentário dizia muito pouco sobre a sua postagem e dizia muito mais sobre o post #3.
    A palavra "afetação" talvez não fosse a mais adequada, de fato. A ideia que quis dar era de que se tratava de uma pronúncia com "swag" (sendo bem informal), mas, como disse anteriormente, não tinha a mínima intenção de dizer que esse "swag" é algo negativo ou positivo.
    De fato, a escolha foi infeliz pela problemática que ela traz consigo, mas, novamente, não foi você que surgiu com o termo, apesar de ter concordado com ele.
    É um problema observar as variações de fala e agrupar certos traços de acordo com o grupo social a que as pessoas que o reproduzem pertencem, mesmo que sem a mínima intenção de tratá-las de forma inferior, somente para uma conversa menos técnica?
    Não, não é um problema. De todo. A questão é que certas questões que têm sido abordadas neste fórum ultimamente trazem sempre essa problemática à tona quando, na verdade, costumam ser meros traços dialetais ou fazem parte do português padrão. É sempre possível que haja pessoas inseridas em contextos sociais específicos e que tendem a achar que tudo aquilo que fuja ao seu socioleto ou dialeto local possa ser traço de fala menos cuidada ou que sejam características de pessoas não.escolarizadas quando, na verdade, não são. O caso de boa é mais ou menos este, embora ocorra em todos os lugares e dialetos do Brasil. É saudável que se façam perguntas e que haja debate, tomando sempre o cuidado de não deixar que as percepções pessoais permitam que se façam juízos de valor sobre a língua do vizinho.
    Nunca ouvi ditongo nessas palavras, mesmo andando com pessoas de todo nível intelectual. Soa muito afetado e horroroso até para os que não cuidam de falar bem. Ouviu nalgum lugar?
    Ouve, na verdade, todos os dias. Como as palavras estão em variação, não percebe; o que por si só já mostraria que o seu juízo sobre a língua dos outros é descabido e obnóxio. Entretanto tenho de frisar algo muito curioso:
    Sou paulista e digo «loco», «fea », «oro» e «boa». Se juntarmos as bichas, teremos «Na boa: é oportunidade de oro. Nem dê uma de loco, que é feo , parça». Enfim: falo «boa»
    Aí está uma pronúncia que nunca ouvi de paulista, muito menos de paulistano (o que não significa que não exista ou possa existir). Sabe-se que em vários lugares do estado de São Paulo, sobretudo nalguns lugares da capital, que a afinidade por ditongos é imensa, o que facilmente se percebe ao ouvir um paulistano falar: imensa, comendo, bebendo etc… A ditongação de "feio" também já ocorreu há muito, muito tempo e o que não é natural, de todo, é formar um hiato sem que tenha havido queda de consoante. Ora, da perspectiva lusófona geral, eu diria é que "feo" é que é um hiato forçado. E é. Não estou com isso querendo dizer que é uma pronúncia ridícula ou querendo dar a entender, como você fez, que o nível intelectual possa afetar nessa escolha peculiar de pronúncia. Respeito a variação e idioleto dos outros, como seria interessante que sempre se fizesse neste fórum.
     

    Antonio d'Oliveira

    Senior Member
    Português - Brasil
    Certo. A bem verdade, o meu extensivo comentário dizia muito pouco sobre a sua postagem e dizia muito mais sobre o post #3.

    De fato, a escolha foi infeliz pela problemática que ela traz consigo, mas, novamente, não foi você que surgiu com o termo, apesar de ter concordado com ele.

    Não, não é um problema. De todo. A questão é que certas questões que têm sido abordadas neste fórum ultimamente trazem sempre essa problemática à tona quando, na verdade, costumam ser meros traços dialetais ou fazem parte do português padrão. É sempre possível que haja pessoas inseridas em contextos sociais específicos e que tendem a achar que tudo aquilo que fuja ao seu socioleto ou dialeto local possa ser traço de fala menos cuidada ou que sejam características de pessoas não.escolarizadas quando, na verdade, não são. O caso de boa é mais ou menos este, embora ocorra em todos os lugares e dialetos do Brasil. É saudável que se façam perguntas e que haja debate, tomando sempre o cuidado de não deixar que as percepções pessoais permitam que se façam juízos de valor sobre a língua do vizinho.

    Ouve, na verdade, todos os dias. Como as palavras estão em variação, não percebe; o que por si só já mostraria que o seu juízo sobre a língua dos outros é descabido e obnóxio. Entretanto tenho de frisar algo muito curioso:

    Aí está uma pronúncia que nunca ouvi de paulista, muito menos de paulistano (o que não significa que não exista ou possa existir). Sabe-se que em vários lugares do estado de São Paulo, sobretudo nalguns lugares da capital, que a afinidade por ditongos é imensa, o que facilmente se percebe ao ouvir um paulistano falar: imensa, comendo, bebendo etc… A ditongação de "feio" também já ocorreu há muito, muito tempo e o que não é natural, de todo, é formar um hiato sem que tenha havido queda de consoante. Ora, da perspectiva lusófona geral, eu diria é que "feo" é que é um hiato forçado. E é. Não estou com isso querendo dizer que é uma pronúncia ridícula ou querendo dar a entender, como você fez, que o nível intelectual possa afetar nessa escolha peculiar de pronúncia. Respeito a variação e idioleto dos outros, como seria interessante que sempre se fizesse neste fórum.
    Não sei se influencia nalgo: sou filho de nordestinos que, creio eu, comem as letras e dizem, por exemplo: fejão em vez de feijão. Não sou afeito a passeios, então fico mais em casa com minha família que na rua com colegas e amigos paulistas. Também não assisto a tevê muito, não.

    Segundo, não tentei dizer que o nível intelectual afeta a pronúncia e que essas sejam de gente ignorante, mas só que, mesmo andando com todo tipo de gente, nunca vi essas coisas, o que não invalida a existência delas.

    Terceiro, obrigado pela contribuição. É sempre bom aprender.

    Abraços.
     
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