Com as ou co'as?

  • guihenning

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    Português do Brasil
    Ou [kũ], mas no discurso cuidado a opção acima aparece mais e é mais prestigiada que esta com redução vocálica de vogal nasal, fenômeno não muito comum.
     

    machadinho

    Senior Member
    Português do Brasil
    Aquele animo grande, que do antigo
    de seus maiores era alto retrato,
    desprezador de todo o vil perigo;
    misturado com doce e brando trato
    cos iguais juntamente e cos menores
    a todos amoroso, a todos grato
    Mas é um poema! Não vê a diferença? Os sons precisam se encaixar numa métrica, ora. Vamos virar a página?
     

    guihenning

    Senior Member
    Português do Brasil
    Na época de Camões o português nem sequer tinha grafia e nem pronúncia padrão ou homogeneizada. Essa padronização ocorre em grande parte pela escrita. É possível que Camões pronunciasse [ko], que é o que se espera de CUM (lat.)
    Mas logo após Camões o português foi-se padronizando e a grafia escolhida foi “com” e assim é até hoje. É claro que na poesia tem-se mais liberdade para criar e também há a métrica que precisa ser respeitada.
    Ora, quantas pronúncias possíveis tem “que” apesar da sua grafia? [kɪ], [k], [ke] A grafia entretanto é uma só (ok, duas, mas o exemplo não é dos melhores).
    Em todo o caso, a escrita de “com” pegou e assim é. Há outros casos de grafias que mudaram e que deixaram resquícios da pronúncia antiga, como “ontem” que sempre foi mesmo é “(h)onte” e cujos traços ainda hoje se ouvem em toda a lusofonia. Ninguém sabe de onde vem o M e por que, mas está lá. E por mais que alguém produza “onte”’o dia todo ao falar, só poderá escrever ontem. A menos que queira inovar na poesia (eu nem chamaria de inovação, mas na falta de termo melhor, lá está). E ontem ou “amanhã” (antigamente amanhan) são apenas exemplos parcos ao lado de “com”’que é bem mais complexa porque envolve uma série de pronúncias diferentes a depender das palavras que a cercam e o contexto fonético: [kõ], [kũ], [k], [kʷ], [kʊ],[ka(s)], [kʷa(s)], [kʷɐ(s)], [kɐ(s)] o que não significa que na escrita padrão essas grafias sejam aceitas. A natureza do português impede que a grande maioria das palavras tenha uma única realização, mas a escrita não consegue dar conta de tudo, obviamente, e o fato de Camões ter escrito algo no tempo em que Jesus era moleque não justifica que hoje lhe copiemos a escrita.
     
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    Oliveiratadeu

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    Português
    Era melhor em que sentido? De Camões, aliás, nem sequer se sabe ao certo onde e o que estudou. O facto de a sua obra revelar uma sólida cultura clássica não permite generalizações desse tipo.
    Basta pegar Camões e comparar seu português ao dos escritores do século XX para frente, estes, apesar de serem bons, são crianças perto a Camões. Não sei quanto a época propriamente de Camões, mas, em épocas posteriores, a gramática e a retórica eram inseparáveis, o que creio que aproximasse a forma escrita da oral. Sempre fico com raiva ao ver entrevistas de escritores que tem a dicção totalmente ao contrário da escrita. Mas posso estar enganado.

    Na época de Camões o português nem sequer tinha grafia e nem pronúncia padrão ou homogeneizada. Essa padronização ocorre em grande parte pela escrita. É possível que Camões pronunciasse [ko], que é o que se espera de CUM (lat.)
    Mas logo após Camões o português foi-se padronizando e a grafia escolhida foi “com” e assim é até hoje. É claro que na poesia tem-se mais liberdade para criar e também há a métrica que precisa ser respeitada.
    Ora, quantas pronúncias possíveis tem “que” apesar da sua grafia? [kɪ], [k], [ke] A grafia entretanto é uma só (ok, duas, mas o exemplo não é dos melhores).
    Em todo o caso, a escrita de “com” pegou e assim é. Há outros casos de grafias que mudaram e que deixaram resquícios da pronúncia antiga, como “ontem” que sempre foi mesmo é “(h)onte” e cujos traços ainda hoje se ouvem em toda a lusofonia. Ninguém sabe de onde vem o M e por que, mas está lá. E por mais que alguém produza “onte”’o dia todo ao falar, só poderá escrever ontem. A menos que queira inovar na poesia (eu nem chamaria de inovação, mas na falta de termo melhor, lá está). E ontem ou “amanhã” (antigamente amanhan) são apenas exemplos parcos ao lado de “com”’que é bem mais complexa porque envolve uma série de pronúncias diferentes a depender das palavras que a cercam e o contexto fonético: [kõ], [kũ], [k], [kʷ], [kʊ],[ka(s)], [kʷa(s)], [kʷɐ(s)], [kɐ(s)] o que não significa que na escrita padrão essas grafias sejam aceitas. A natureza do português impede que a grande maioria das palavras tenha uma única realização, mas a escrita não consegue dar conta de tudo, obviamente, e o fato de Camões ter escrito algo no tempo em que Jesus era moleque não justifica que hoje lhe copiemos a escrita.
    Ah certo. Obrigado.
     

    guihenning

    Senior Member
    Português do Brasil
    Basta pegar Camões e comparar seu português ao dos escritores do século XX para frente, estes, apesar de serem bons, são crianças perto a Camões. Não sei quanto a época propriamente de Camões, mas, em épocas posteriores, a gramática e a retórica eram inseparáveis, o que creio que aproximasse a forma escrita da oral. Sempre fico com raiva ao ver entrevistas de escritores que tem a dicção totalmente ao contrário da escrita. Mas posso estar enganado.
    Dê-nos exemplos.
     

    Oliveiratadeu

    Banned
    Português
    Olavo de Carvalho, por exemplo. Os seus artigos de opinião e ensaios, até mesmo os sonetos, não possuem a mesma dicção do tom oral. Outros exemplos são Manuel Bandeira ou Carlos Drummond de Andrade. E a lista é grande. Esses dois por vezes acertavam a dicção, mas as vezes são poucas.
     
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    guihenning

    Senior Member
    Português do Brasil
    não possuem a mesma dicção do tom oral.
    Não entendi o que quer dizer. Haveria, pois, uma dicção escrita? Na verdade, estou entendendo muito pouco. A dicção não é de cada um e coisa em que nem a ortoépia nem a fonologia se atrevem a se meter? Clarice Lispector, minha escritora brasileira favorita, tinha problemas com a fala e a sua escrita era impecável. Não consigo entender como uma coisa se relaciona com a outra, seja do ponto de vista leigo, seja do científico.
     
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