Conjugação com numeral e vários sujeitos

  • Carfer

    Senior Member
    Portuguese - Portugal
    Não me parece que o sujeito seja 'Marias'. É menos claro em 'tira', sobretudo porque não é óbvio a quem se dirige ou o que quer dizer com 'tira o pé' nesse contexto, mas leio o último verso como 'o que não seria?', ou seja que 'o que não aconteceria?', 'até que ponto chegaria?'
     

    visconde

    Member
    Português do Brasil
    O pé da noite escura tira uma, duas, três Marias, ou seja, a constelação ou cinturão de Órion.

    O sujeito é 'o pé da noite escura'; portanto, 'tira' fica no singular.

    Quanto a 'seria', concordo com @Nonstar: um verbo foi omitido. Esse verbo — tirar, ter, haver? — embora omitido, é o núcleo duma oração subjetiva, ou seja, duma oração subordinada que funciona como sujeito duma oração principal. Orações subjetivas exigem que o verbo da principal concorde com elas no singular: 'tirar duas Marias não seria demais'?
     
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    Oliveiratadeu

    Banned
    Português
    O pé da noite escura tira uma, duas, três Marias, ou seja, a constelação ou cinturão de Órion.

    O sujeito é 'o pé da noite escura'; portanto, 'tira' fica no singular.

    Quanto a 'seria', concordo com @Nonstar: um verbo foi omitido. Esse verbo — tirar, ter, haver? — embora omitido, é o núcleo duma oração subjetiva, ou seja, duma oração subordinada que funciona como sujeito duma oração principal. Orações subjetivas exigem que o verbo da principal concorde com elas no singular: 'tirar duas Marias não seria demais'?

    Mas também pode ser "duas, três, O que não seria? (O que não seria duas, três ?)", não?
     

    machadinho

    Senior Member
    Português do Brasil
    Uma, duas, três Marias
    Tira o pé da noite escura.
    Se [tirar] uma Maria é demais,
    [Tirar] duas, três, que não seria?
     

    Ari RT

    Senior Member
    Português - Brasil
    Por um lado, Manuel Bandeira foi um precursor e grande figura do modernismo. Que ele houvesse propositalmente usado uma conjugação "diferente" não deveria ser surpresa. Mas não parece que seja o caso, nem era ele dado a tais travessuras. Tinha lá suas tiradinhas de humor, mas... não creio.
    Por outro, não sei quanto ele realmente levava em conta a astronomia. Eu mesmo acreditava que as estrelas seriam para ele mais motivo lírico que de observação objetiva. Machadinho, de volta de um período sabático, talvez possa nos esclarecer, depois de receber nossas mais efusivas boas-vindas de volta.
    Se é que ele levou realmente em conta o formato da constelação, poderá ter observado que, no hemisfério sul, Órion surge deitado, com a cabeça mais baixa que o resto do corpo. De fato, a primeira coisa que aparece é a ponta do arco, mas com pouco brilho. A estrela mais brilhante que surge no céu a leste, quando anoitece, é o pé do gigante. Se essa suposição estiver certa, o pé de Órion PUXA da escuridão o restante do conjunto, incluindo as três Marias, uma depois da outra.
    No restante do poema, Maria é metáfora para mulher.
    Se o aparecimento de uma mulher na vida do poeta já é algo de grandes consequências, que se dirá do fato de que o pé do gigante "tire" do breu, inexoravelmente, três?
     

    machadinho

    Senior Member
    Português do Brasil
    Obrigada, Ari. :) Estou quebrando a cabeça aqui, viu? Primeiro, em resposta à pergunta original, me parece que 'tira' não deve concordar com 'uma, duas, três Marias', pois, na verdade, há uma vírgula separando 'Marias' e 'tira', vírgula essa que falta à citação feita pelo senhor @Oliveiratadeu. Pelo menos é o que se lê na minha edição da Lira dos cinquent'anos:

    Uma, duas, três Marias,
    Tira o pé da noite escura.¹​
    Quanto ao sentido, vixi maria! A sua leitura astronômica não é absurda. Além do cinturão de Órion, referido acima, sendo puxado do oriente pelo pé — um achado — o termo 'céu' aparece noutras linhas do poema: "Mais que as estrelas no céu", "E hoje é Maria do Céu". Não vejo maiores conflitos entre contemplação do céu e lirismo. Olho para o céu em noite estrelada, penso nos meus amores.

    Eu escuto uma cantiga de roda, uma brincadeira de crianças. Cinco Marias? Continuarei pensando.

    1. in Estrela da Vida Inteira, editora Nova Fronteira, 1993, página 176.
     
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