De meu

Oliveiratadeu

Banned
Português
Gosto muito de crianças:
Não tive um filho DE MEU.
Um filho!... Não foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.


O que esses "de meu" aqui nesse verso do poema? Existe só para rimar com "nasceu", é? Esse constructo é possível?
 
  • visconde

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    Português do Brasil
    Difícil esse, hein? Bom, a primeira coisa que me vem à mente é um decalque do inglês: son of mine. Mas serei a primeira a abrir mão dessa leitura quando aparecer outra melhor.

    Acho que ficar no "só para rimar" não explica muito. O Bandeira não tinha maiores pudores com a métrica. Ele poderia ter suprimido o 'de' do verso e mantido a rima: "Não tive um filho meu [...] meu filho que não nasceu".

    De meu [ser]?
    De meu [corpo]?
     
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    englishmania

    Senior Member
    Português Europeu
    Sem nada de meu
    Dei-me inteiro. Os outros
    fazem o mundo (ou crêem
    que fazem) . Eu sento-me
    na cancela, sem nada
    de meu e tenho um sorriso
    triste e uma gota
    de ternura branda no olhar.
    Dei-me inteiro. Sobram-me
    coração, vísceras e um corpo.
    Com isso vou vivendo.

    Rui Knopfli



    Quadra popular

    Minha mãe, minha mãezinha,
    Para quem trabalho eu?
    Trabalho, mato o meu corpo,
    Não tenho nada de meu!




    Deslembro incertamente. Meu passado
    Deslembro incertamente. Meu passado
    Não sei quem o viveu. Se eu mesmo fui,
    Está confusamente deslembrado
    E logo em mim enclausurado flui.
    Não sei quem fui nem sou. Ignoro tudo.
    Só há de meu o que me vê agora —
    O campo verde, natural e mudo
    Que um vento que não vejo vago aflora.
    Sou tão parado em mim que nem o sinto.
    Vejo, e onde [o] vale se ergue para a encosta
    Vai meu olhar seguindo o meu instinto
    Como quem olha a mesa que está posta.


    Viajar! Perder países!
    Viajar! Perder países!
    Ser outro constantemente,
    Por a alma não ter raízes
    De viver de ver somente!

    Não pertencer nem a mim!
    Ir em frente, ir a seguir
    A ausência de ter um fim,
    E da ânsia de o conseguir!

    Viajar assim é viagem.
    Mas faço-o sem ter de meu
    Mais que o sonho da passagem.
    O resto é só terra e céu.

    Fernando Pessoa
     

    Carfer

    Senior Member
    Portuguese - Portugal
    Cá por estas bandas, 'de meu/de seu' é de uso comum ('F... não tem nada de seu', 'De meu, só tenho meia dúzia de livros')
     

    Carfer

    Senior Member
    Portuguese - Portugal
    Carfer, sua resposta foi dirigida a #7 ou #9?
    Ao post #7. À questão do #9 não cheguei a responder, mas 'de meu' é gramaticalmente correcto, sim, e, posso acrescentar também, não é uma exigência da métrica, é uma expressão corrente relacionada com posse ou pertença.
     

    Oliveiratadeu

    Banned
    Português
    Ao post #7. À questão do #9 não cheguei a responder, mas 'de meu' é gramaticalmente correcto, sim, e, posso acrescentar também, não é uma exigência da métrica, é uma expressão corrente relacionada com posse ou pertença.
    E por que um deles está certo e os outros, errados?
     

    Carfer

    Senior Member
    Portuguese - Portugal
    E por que um deles está certo e os outros, errados?
    Porque se refere a um acervo/conjunto/ indeterminado (aquilo que pertence a alguém) e, por isso, sem género definido. Você não diz 'nada foi feita', 'tudo foi dita', 'aquilo é composta de...', 'algo foi descoberta'. A regra convencionada é que, nesses casos, se usa o masculino.
     

    machadinho

    Senior Member
    Português do Brasil
    Porque se refere a um acervo/conjunto/ indeterminado (aquilo que pertence a alguém) e, por isso, sem género definido. Você não diz 'nada foi feita', 'tudo foi dita', 'aquilo é composta de...', 'algo foi descoberta'. A regra convencionada é que, nesses casos, se usa o masculino.
    Entendo, Carfer, e tendo a concordar. Mas o Manuel Bandeira não usa a locução de maneira assim tão indefinida. Ele diz 'não tive um filho de meu'. Como seria se fosse 'filha': 'não tive uma filha de meu'? :confused:

    Suponho que 'de meu' determine o verbo 'tive', não 'um filho':

    Tive de meu um filho.​
    [ [ Tive [de meu] ] [um filho] ]​

    e não:

    [ Tive [um filho [de meu] ] ]​
    Daí: 'não tive de meu uma filha' funcionaria? Eu não sei, pois nunca usei, que me lembre, a construção.
     
    Last edited:

    Carfer

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    Portuguese - Portugal
    'De meu' refere-se a uma relação de pertença, que tanto pode ser apenas moral (caso do filho/filha), como patrimonial (no sentido material, de posse ou propriedade jurídica). Portanto, é possível dizer 'de meu só tenho uma filha', mantendo 'meu' no masculino, porque o referente não é a filha, mas o património moral da pessoa, aquele que nos permite afirmar que um filho é nosso, que faz parte do nosso património afectivo, digamos assim. Ora o património de alguém, o acervo de que falava acima, é normalmente constituído por bens diversos, na vertente material, e por múltiplos afectos e bens imateriais, na vertente moral. Mas, mesmo quando é constituído apenas por um só bem ('de meu só tenho uma casa') ou por uma só relação afectiva ('de meu só tenho uma filha'), é ainda a ele que 'meu' se refere, não ao bem ou afecto/bem imaterial/ que a integra, portanto a concordância é feita com aquele, não com estes. Escusado será dizer que isso tanto vale para a concordância de género como para a concordância de número pelo que a forma válida continua a ser 'de meu só tenho duas filhas/casas'). E também será escusado dizer que a expressão nem sempre funciona bem, precisamente porque 'meu' tem habitualmente uma forte conotação de propriedade ou de posse que muitas vezes pode ser vista como desajustada. Não me parece, porém, ser o caso do Bandeira. O que ele basicamente diz é que, que lhe pertencesse ('de meu'), nem sequer um filho teve. Por isso, não sendo uma expressão incomum, não serve para tudo, há que ter algum cuidado com o uso que se faz dela.
     
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