...drôlerie à dauber

Discussion in 'Português (Portuguese)' started by marta12, Aug 26, 2013.

  1. marta12 Senior Member

    Portugal
    português
    Olá a Todos!

    Pediram-me ajuda na tradução de um texto francês e estou em dificuldades.

    Para começar, com a frase a vermelho, que não sei como hei-de traduzir:

    Les machineries de la représentation changent plus vite hélas que nos métaphores, et il y a autant de danger que de drôlerie à dauber comme par devant "la scène publique" ou le "théâtre politique",

    As maquinarias da representação mudam, infelizmente, mais depressa que as nossas metáforas, e há tanto de perigo como de graça à dauber como à frente "da cena pública" ou do "teatro político"

    Podem ajudar-me?
     
  2. Carfer

    Carfer Senior Member

    Paris, France
    Portuguese - Portugal
    Também não consigo alcançar-lhe o sentido, mas posso avançar-lhe com um elemento que pode ajudar.
    'Dauber' é 'denegrir', julgo. Até aí, tudo bem, parece fazer algum sentido. O problema surge com o 'par devant' que significa 'perante' ou 'pela frente'. Que quer dizer 'Os mecanismos da representação, mudam, infelizmente (*), mais depressa do que as nossas metáforas e há tanto de perigoso como de divertido em denegrir como perante? a "cena pública" ou o "teatro político" ? Mistério! ("cena pública" e "teatro político2 aparentam ser o objecto directo de 'dauber', mas o sentido continua impenetrável)

    (*) 'Hélas' é um interjeição complicada de traduzir porque nem sempre significa 'infelizmente'. Frequentemente expressa também surpresa ou desalento, como me parece ser o caso aqui, e, sendo assim, 'infelizmente' talvez seja demasiado forte. Em todo o caso, não me ocorre nada melhor. 'Ai de nós/Ai de mim' padeceria, mesmo que atenuadamente, do mesmo defeito e já se usa muito pouco.
     
  3. marta12 Senior Member

    Portugal
    português
    Obrigada Carfer.

    Para mim, o problema nesta tradução tem sido esse mesmo. É-me, quase completamente, hermético. :)

    Obrigadíssimo pela ajuda e hei-de vir pedi-la, seguramente, mais vezes.
     
  4. Nanon

    Nanon Senior Member

    Entre Paris et Lisbonne
    français (France)
    Ah, Régis, Régis, se você pudesse escrever com um estilo menos hermético :p.
    Procurei o texto completo e, em grandes traços, concordo plenamente com a interpretação do Carfer. Confesso que não entendo bem a construção: "dauber, comme on le fait devant (par devant) la scène politique" ? :confused:
     
  5. marta12 Senior Member

    Portugal
    português
    Pois é , o estilo, o estilo, mas já é a segunda vez que também não o percebes, Nanon :p

    Concordei completamente com o Carfer foi, aliás, uma ajuda preciosa. Demonstrou-me que não era tão difícil quanto eu imaginava. E fora uma coisa ou outra, até o tenho percebido bastante bem.
    O que acontece é que estou muito mais enferrujada no francês do que julgava. :confused:

    Obrigada pela ajuda, Nanon
     
  6. Nanon

    Nanon Senior Member

    Entre Paris et Lisbonne
    français (France)
    É o seguinte: as construções que aparecem nos dicionários são dauber ou dauber sur. Dauber par devant eu entendo como um uso intransitivo de dauber + par devant la scène.
    Não é por causa da oxidação :D. Você está lidando com um autor que usa muitos... maneirismos, por assim dizer.
     
  7. Carfer

    Carfer Senior Member

    Paris, France
    Portuguese - Portugal
    Do Régis Debray não tenho nada que nos ajude, ou se tenho, o que é bem provável, há-de estar para aí soterrado, mas certamente que não é nada sobre mediologia. De resto, há que anos que também não lia nada dele! Não obstante, agora com o precioso auxílio da Nanon, vêem alguma possibilidade de 'par devant' significar 'anteriormente' ou coisa parecida? Isto é, de ter um sentido temporal e não espacial? É que em português 'anterior' tanto pode ser o que está antes como o que está à frente e o mesmo sucede com 'diante'. Se também assim for em francês, a frase passaria a ter um sentido mais transparente: há tanto de perigoso como de divertido em denegrir " a cena pública" ou "o teatro político" como se fazia/acontecia antes/anteriormente. Parece-me esquisito e forçado, mas, por um lado estaria em consonância com o uso que a Nanon apontou de outros termos com sentido menos comum ou actual e não destoaria do que se segue: 'há tanto de perigoso como de divertido em denegrir " a cena pública" ou "o teatro político" à semelhança do que acontecia antes, como se na nossa 'life-style politics', a conversação não tivesse dito adeus à peroração, o ar livre ao trompe-l'oeil, o grande plano à vista de conjunto.'
     
  8. marta12 Senior Member

    Portugal
    português
    Obrigado aos dois!!

    Sim, isto faz muito sentido.

    Obrigado Carfer pelo esforço e pela ajuda.
     
  9. Nanon

    Nanon Senior Member

    Entre Paris et Lisbonne
    français (France)
    Vejo sim. Seria mais um arcaismo, mas o Régis Debray é capaz de usar a palavra desse jeito.
    Le Robert historique de la langue française

    Mas eu não tenho certeza disso e também acho meio forçado, pois "la scène publique et le théâtre politique" não são realidades antigas. Aliás, um par de vírgulas ajudaria a compreensão do valor temporal: "Il y a autant de danger que de drôlerie à dauber, comme par devant, la scène publique (...)" Mas quem sou eu para criticar o Régis Debray? Aliás, ele ainda publica. Estou tentada em procurar algua coisa recente dele para ver se o estilo evoluiu (já sei que a grosso modo, ele se manteve fiel as suas convicções :)).
     
  10. marta12 Senior Member

    Portugal
    português
    Mas é o que faz mais sentido, não é?
    De qualquer modo fiz uma chamada e a pessoa terá de escolher.

    Obrigada :)
     
  11. Carfer

    Carfer Senior Member

    Paris, France
    Portuguese - Portugal
    Mas eu não tenho certeza disso e também acho meio forçado, pois "la scène publique et le théâtre politique" não são realidades antigas. Aliás, um par de vírgulas ajudaria a compreensão do valor temporal: "Il y a autant de danger que de drôlerie à dauber, comme par devant, la scène publique (...)" Mas quem sou eu para criticar o Régis Debray? Aliás, ele ainda publica. Estou tentada em procurar algua coisa recente dele para ver se o estilo evoluiu (já sei que a grosso modo, ele se manteve fiel as suas convicções :)).[/QUOTE]

    Eu também pensava isso até ler, já há uns anos, um livro sobre a entrada, aclamação e estadia de Filipe II em Lisboa, se bem me lembro do Fernando Bouza Álvarez, cujo título exacto agora não recordo se bem que o tenha por aí, em que ele trata da encenação do poder, da importância que essa encenação teve para o afirmar como soberano do reino de Portugal conquistado e da sofisticação a que chegou essa encenação. A partir dessa leitura fiquei convencido de que o "teatro político" é coisa de sempre.
     
  12. marta12 Senior Member

    Portugal
    português
    Também há muito que acho que o 'teatro político' é de todos os tempos.
    Não pela razão dada pelo Carfer, mas porque a ostentação dos reis era pura encenação política e chegou às últimas consequências com Luis XIV e LUIS XV e mais tarde Luis XVI sofre as consequências.
     
  13. Nanon

    Nanon Senior Member

    Entre Paris et Lisbonne
    français (France)
    Claro que o teatro político é coisa de sempre. Provavelmente me exprimi mal. Quis dizer que essas expressões não se referem apenas a coisas do passado ou do presente. Até tentei procurar informação sobre a aparição da expressão "théâtre politique" e não achei nada convincente... ou seja, não consigo confirmar se o valor é espacial ou temporal.
     

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