Emprego das preposições "a" e "para"

meencantesp

Member
Portuguese - Brazil
1) Para mim (ou a mim), não há forma melhor de fazê-lo (esse, em especial, parece ser um caso à parte dos outros);
2) Entreguei para eles (ou a eles) os papéis;
3) Prometi para vocês (ou a vocês) que não iria;
4) Gravei uma mensagem em vídeo para meu filho (ou a meu filho).

O uso de a e para em casos semelhantes a esses é uma questão de escolha pessoal ou existe alguma regra?
 
  • Nonstar

    Senior Member
    Nheengatu/il linguaggio del corpo
    Minhas escolhas.
    1) Para mim
    2) a eles
    3) a vocês
    4) para meu filho.
    Por quê?
    Não levei em conta gramática, como diria Caê, 'a música pedia tal coisa'. Digamos que ambos podem soar assíncopados, dependendo da frase, e prefiro sincopar as coisa.
     

    englishmania

    Senior Member
    Português Europeu
    1) Para mim, (=na minha opinião)
    2) Entreguei-lhes / a eles
    3) Prometi-vos (a vocês)
    4) Gravei uma mensagem em vídeo para o meu filho.

    Neste caso, parece-me que as variantes têm usos diferentes. Do contacto que tenho com a variante brasileira, parece-me que usam a preposição "para" mais frequentemente, em contextos que eu não usaria. Por exemplo, "Entreguei para eles", em Portugal, seria "Entreguei-lhes / a eles".
     
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    Ari RT

    Senior Member
    Português - Brasil
    Examinando apenas o meu uso, sem consultar nenhuma gramática, vejo que eu prefiro "a" quando exista uma noção de movimento, direção, aproximação física. Faz sentido, o "a" prefixo latino indica exatamente isso e seria natural que, conscientemente ou não, essa analogia se estabelecesse.
    E prefiro o "para" quando haja noção de razão / motivo ou de direção / aproximação não físicas. Talvez por analogia com por, pour, for, per...
    Claro que minhas escolhas acabam contaminadas pelo que ouço mais frequentemente, como é o caso reportado acima por englishmania.
     

    machadinho

    Senior Member
    Português do Brasil
    @meencantesp, na boa, você sabe muito bem, como qualquer um de nós, quais desses usos são formais e quais são coloquiais, quais soam naturais e quais soam estranhos. O que realmente você quer saber?
     

    guihenning

    Senior Member
    Português do Brasil
    O meu uso é igual ao da englishmania (com exceção das formas com "vos") e nonstar no português escrito (nem sempre necessariamente formal), português falado relativamente formal ou nalgumas tentativas de escrita de literatura. No meu português "normal" digo normalmente "entregar para" e "prometer para", embora haja variação com as formas padrões com "a". Esse "bilinguismo" brasileiro é bastante comum, já que a maioria dos brasileiros médios mais ou menos escolarizados sabe que a variante padrão pede "a" quando normalmente se diz "para". Pelo menos são esses os dados que se obtém quando há pesquisas nessa área.
     

    meencantesp

    Member
    Portuguese - Brazil
    Obrigado por todas as respostas.

    @meencantesp, na boa, você sabe muito bem, como qualquer um de nós, quais desses usos são formais e quais são coloquiais, quais soam naturais e quais soam estranhos. O que realmente você quer saber?
    Não exatamente. Embora nas frases 2 e 3 eu já imaginasse que as duas formas seriam possíveis, a primeira e a última não me parecem óbvias. Queria, na verdade, uma explicação sobre o uso dessas duas preposições de maneira mais ampla (já que, em geral, só se abordam regras sobre o uso delas no sentido de viajar ou de ir a/para algum lugar).
     
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    meencantesp

    Member
    Portuguese - Brazil
    já que a maioria dos brasileiros médios mais ou menos escolarizados sabe que a variante padrão pede "a" quando normalmente se diz "para".
    Essa é a origem da minha dúvida. Seguindo a fala, escolheria para em qualquer um dos casos (e reduzido ainda, pra, nunca para a) Mas pode acontecer de essa forma ser inadequada pra escrita (por exemplo, escrever viajar para, que é algo de que os professores costumam bater na tecla).
     

    englishmania

    Senior Member
    Português Europeu
    Embora nas frases 2 e 3 eu já imaginasse que as duas formas seriam possíveis.
    São possíveis no Brasil, porque na variante europeia não se diz "Entreguei para eles." nem "Prometi para vocês."

    Nós pensamos da seguinte forma:
    Entreguei a quem? A eles. Entreguei-lhes.
    Prometi a quem? A vocês. Prometi-vos.
    Dei a quem? A ti. Dei-te.
    Perguntei a quem? A ela. Perguntei-lhe.
     

    machadinho

    Senior Member
    Português do Brasil
    Queria, na verdade, uma explicação sobre o uso dessas duas preposições de maneira mais ampla (já que, em geral, só se abordam regras sobre o uso delas no sentido de viajar ou de ir a/para algum lugar).
    Tudo bem. Sou da opinião de que as preposições são rigorosamente vazias de significação quando tomadas isoladamente. A função delas é, antes de mais nada, sintática, ajudar a formar estruturas. Se me apertar, digo que a função semântica delas, se alguma, está em ajudar a determinar ou delimitar o significado de outra coisa, a saber, dos sintagmas de que elas fazem parte. Esses sintagmas, de outro modo, permaneceriam vagos ou indefinidos demais. O 'ir a' e o 'ir para', por mais repisado que seja, dão um bom exemplo. O 'a' e o 'para' não trazem, de si, nada para dentro de 'ir a' e 'ir para'. Grosso modo, o que elas fazem nesse par de locuções é delimitar o significado de 'ir' em cada. Daí, poderia muito bem ser o inverso: 'ir a' poderia significar ir para; e 'ir para' poderia significar 'ir a'. É mera contingência histórica que 'ir a' queira dizer ir a, e 'ir para' queira dizer ir para. Outra preposição poderia até mesmo ter tomado o lugar de uma delas. Por exemplo, se a história tivesse sido outra, 'ir em' poderia hoje significar ir para. Nesse mundo possível, 'fui em França' ia querer dizer exatamente que fui para a França, sem prejuízo de outros usos de 'em', como 'moro em São Paulo'.

    Uma explicação ampla, geral, que se abstraia de usos particulares, me parece, portanto, impossível. O que é possível fazer é listar, com exemplos, os usos mais comuns e fazer comentários a respeito deles, como se pode encontrar com muito proveito nas páginas de qualquer gramática.
     
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    guihenning

    Senior Member
    Português do Brasil
    Nesse mundo possível, 'fui em França' ia querer dizer que fui para a França.
    Como fazem o italiano e o francês (e talvez o romanche) numa inovação que não parece ter atingido a periferia românica.
    E, já agora, eu apostaria que esse uso, se fosse importado, ia-se generalizar e se formalizar antes em Portugal do que no Brasil, se considerarmos uma certa tendência portuguesa (especialmente lisboeta) dalgumas décadas de ir ao encontro da sintaxe francesa e lhe copiar algumas estruturas que são alheias ao português do Brasil (é de ti mesmo que eu falo, infinitivo gerundivo e alguns usos, olhem só, da preposição "a"). A diferença é que os portugueses são extremamente simples: assim que algo se naturaliza no português culto, rapidamente o português padrão o absorve (é de ti agora que falo, ênclise). É por isso que vemos a englishmania afirmar mais duma vez neste mesmo fio que "vos" se relaciona a "vocês", embora, numa visão limitada e prescritivista, atenção, "vos" só se possa associar a "vós". Mas no português culto e padrão europeu "vos" se relaciona com "vocês" e está tudo muito bem, obrigado. No Brasil, exatamente a mesma coisa se passa no singular, mas é visto como uma anomalia de que ninguém fala muito pois é inevitável não se utilizar dela. Por isso, se fosse um brasileiro dizendo "se eu dou algo a você, logo, eu te dou essa coisa" neste fórum, dois parênteses se abririam, como muitas vezes já se abriram, dizendo: "no Brasil, usa-se "você" e "te", embora seja errado ou embora eles sejam gramaticalmente incompatíveis". Trocando em miúdos, no Brasil, nós somos, parece, mais resistentes a mudanças, pasmem, do que eles. Enquanto isso, seguimos falando "dar algo para alguém" ou "vou na casa dele" há décadas e só agora algumas gramáticas, muito timidamente, passam a indicar esse uso apenas como mais ou menos aceitável. Pois eu acho incrível que ainda não recomendem "estou a fazer" em vez de "estou fazendo", já que o exercício de cópia de gramática lusa é o esporte favorito de grande parte dos gramáticos brasileiros.
    Essa é a origem da minha dúvida
    Há muitas teorias acerca disso, mas nenhuma é peremptória e conclusiva. A mais provável é a progressiva atonização. De todo o modo, é só uma inovação que já aconteceu há um certo tempo e que, como boa parte das inovações, segue enfrentando grande resistência. Talvez fosse diferente se tivéssemos suplantado totalmente a preposição "a" e a tivéssemos trocado por outra, por exemplo, "para". Mas como "a" continua vivíssima e insubstituível noutros contextos, a ânsia de homogeneização e condenação natural de inovações segue firme e forte.
     
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    Alentugano

    Senior Member
    Português - Portugal
    Pois eu acho incrível que ainda não recomendem "estou a fazer" em vez de "estou fazendo", já que o exercício de cópia de gramática lusa é o esporte favorito de grande parte dos gramáticos brasileiros..
    Só não acho que as gramática lusas recomendem "estou a fazer" em vez de "estou fazendo" ou digam, em algum momento, que a primeira é mais correta que a segunda.
     

    guihenning

    Senior Member
    Português do Brasil
    Dizer não dizem, @Alentugano, é verdade, mas o que se costuma encontrar nessas gramáticas é que a construção padrão do
    português europeu consiste de “a + infinitivo” e que quando há certos verbos, mormente ir, o gerúndio propriamente dito é usado. “Estou a fazer”, mas “o bolo vai crescendo no forno”, que é o uso do centro e o único uso que se considera propriamente padrão por aí, sim?
    Foi nesse sentido que eu quis dizer estar surpreso que as gramáticas brasileiras não recomendem o mesmo, assim como recomendam a ênclise exatamente como ela ocorre na variante lusíada.
     

    Alentugano

    Senior Member
    Português - Portugal
    Eu entendi o seu ponto. Mas só quero deixar claro que uma coisa é descrever o que acontece na norma padrão. Outra coisa é sugerir que, por exemplo, "estar+gerúndio" seria uma forma incorreta ou menos correta. A construção é, sim, tida como regional e ainda se usa no sul do Alentejo, Algarve e ilhas.
     

    Antonio d'Oliveira

    Senior Member
    Português - Brasil
    Eu entendi o seu ponto. Mas só quero deixar claro que uma coisa é descrever o que acontece na norma padrão. Outra coisa é sugerir que, por exemplo, "estar+gerúndio" seria uma forma incorreta ou menos correta. A construção é, sim, tida como regional e ainda se usa no sul do Alentejo, Algarve e ilhas.
    Os senhores me dêem licença: a forma "estar+gerúndio" não é a mais antiga das duas? Por que essoutra seria a mais correta?
     

    machadinho

    Senior Member
    Português do Brasil
    Por que essoutra seria a mais correta?
    Porque é a típica de Lisboa. Assim como a língua de São Paulo, capital, é a mais correta e neutra na variante do Brasil, a de Lisboa é igualmente a mais correta e neutra na variante de Portugal. E como a variante de Portugal é mais correta e neutra que a do Brasil, a variante de Lisboa dita, portanto, o que é correto ou não em termos de língua portuguesa.
     

    guihenning

    Senior Member
    Português do Brasil
    Os senhores me dêem licença: a forma "estar+gerúndio" não é a mais antiga das duas? Por que essoutra seria a mais correta?
    Bom, essa questão de uma ser mais correta que a outra foi inaugurada agora no seu post. Ninguém aqui disse isso ainda. Eu, pelo menos, tenho tido um cuidado especial com a escolha das palavras até aqui. "recomendar", "português padrão", "culto" etc.
    Na minha crítica, eu salientei que os gramáticos brasileiros gostam de importar descrições portuguesas e tomá-las como regra e comentei que me espanto que ainda não se recomende "a + infinitivo" para expressar o gerúndio no Brasil.
    Também vale lembrar que mesmo no Português europeu padrão o gerúndio "propriamente dito" subsiste, como cito em #13 e que a construção com um valor mais ou menos gerundivo também existe no Brasil, como cito agora: "passou o dia a lavar as roupas".
     
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