Eufonia: há algum critério para se saber se algo é eufônico ou não é?

< Previous | Next >

meencantesp

Senior Member
Portuguese - Brazil
Quando se lê sobre colocação pronominal, é comum que se depare com gramáticos afirmando que o assunto é definido pela eufonia, isto é, pela suposta agradabilidade do som ao ouvido. Quer dizer, em tese, o “agradável” ao ouvido é “parece-me”, enquanto “me parece” vai de encontro aos critérios eufônicos. Agora há pouco, acabei de ler no Ciberdúvidas a seguinte afirmação, no fim de uma resposta:

“Empreguei ’em nossa vida’ propositadamente para evitar o encontro desagradável ao ouvido dos dois nn (nanó: na nossa vida)”.

Por que é que “nanó” (ou o encontro de dois enes) é um desagradável ao ouvido? Não consigo captar. Se eu disser “comi uma maçã” o encontro de dois emes será desagradável a alguém?

Enfim, a publicação tem mais o objetivo de obter respostas gerais do que de obter respostas específicas.
 
  • pfaa09

    Senior Member
    Portugal - Portuguese
    É claramente um "problema" da variante brasileira, pois no pt-eu temos isso bem definido. Como sabem há situações onde é indiferente a próclise ou a ênclise (deixemos a mesóclise de fora disto). Aproveito para deixar uma pergunta sobre o pt-br: Quão comum é começar frases por pronomes oblíquos sabendo que é um erro gramatical? Mesmo aqueles que têm mais estudos falam assim?
    Te amo; Se vende/vendem, etc...

    Nota: no caso de sujeito oculto: (Eu) te amo. Deixa de ser erro?
     

    guihenning

    Senior Member
    Português do Brasil
    Quando se lê sobre colocação pronominal, é comum que se depare com gramáticos afirmando que o assunto é definido pela eufonia, isto é, pela suposta agradabilidade do som ao ouvido. Quer dizer, em tese, o “agradável” ao ouvido é “parece-me”, enquanto “me parece” vai de encontro aos critérios eufônicos
    Não, de todo. "me parece" não se aceita pela norma-padrão porque o pronome está antes do verbo, não por eufonia. "me parece" é perfeitamente eufônico a ouvidos brasileiros e portugueses, com ressalvas para estes.
    Os casos que seguem a eufonia do falante são os casos em que duas ou mais colocações pronominais são possíveis, cabendo, então, ao indivíduo escolher qual quer fazer. Em locuções verbais o fenômeno fica aparente. Segundo as regras, os infinitivos selecionam preferencialmente a ênclise, mas aí se lê: "ele vem-me ver" que encontra eufonia em ouvidos brasileiros e portugueses, embora a grafia com ênclise ao auxiliar seja mormente portuguesa. Neste mesmíssimo caso, "ele vem ver-me" também está igualmente correto, mas ouvidos brasileiros tendem a achar a ênclise com os átonos "me, te, lhe, nos, vos, lhes" afetada e formal para a língua falada, diferente dos portugueses. Note-se, entretanto, que diferente dos outros átonos, "o, a, os, as" são perfeitamente eufônicos e aceitáveis no português do Brasil. Resolvendo o problema por eufonia, os brasileiros vão com "ele vem me ver" que não difere de nada do português "ele vem-me ver" na língua falada.
    Por que é que “nanó” (ou o encontro de dois enes) é um desagradável ao ouvido? Não consigo captar. Se eu disser “comi uma maçã” o encontro de dois emes será desagradável a alguém?
    Ora, o som é aparentemente desagradável aos ouvidos de quem redige a resposta. Eu prefiro mil vezes "na nossa vida" a "em nossa vida", pois esta última me soa afetada e artificial. Se o autor da resposta acha melhor soar afetado a evitar uma suposta construção "não-eufônica" isso é lá com ele.
    Sobre sons desagradáveis aos ouvidos, algumas combinações parecem ser universalmente percebidas como desagradáveis, como "terceira-feira" ou "fazeria-me" — a primeira porque repete sons, a segunda por ser impossível, causando uma sensação de estranhamento. Cada caso é um caso.
    Quão comum é começar frases por pronomes oblíquos sabendo que é um erro gramatical? Mesmo aqueles que têm mais estudos falam assim?
    É normal no Brasil que se comecem frases com pronomes átonos. Todos os brasileiros falam normalmente assim, não é um caso de instrução ou falta dela. Interessantemente, mesmo os menos instruídos tendem a preterir a próclise no registro escrito, ainda que não seja muito formal.
    no caso de sujeito oculto: (Eu) te amo. Deixa de ser erro?
    À norma pouco se lhe dá se o sujeito está ou não oculto, então no caso seria um erro de todo o modo. O problema maior parece ser quando o sujeito está de fato explícito, o que aparentemente legitima tanto a próclise quanto a ênclise e nesses casos a eufonia tende a decidir, privilegiando a próclise no Brasil.
     

    metaphrastes

    Senior Member
    Portuguese - Portugal
    Há uma variedade muito grande de critérios de eufonia - e, sendo de carácter estético, o seu peso maior ou menor tem sempre um aspecto subjectivo também, o que se resume no dito popular que "gosto não se discute".

    A questão de próclise ou ênclise envolve também a percepção de uma certa construção ser certa ou errada, segundo a norma culta. Assim o "eu te amo" nada tem, foneticamente ou em termos prosódicos, que o faça ser menos eufónico - mas a percepção de que está errado cria uma rejeição imediata.

    Noutros casos, que não dependem de regras gramaticais, mas das formações ou sucessões de sons e de acentos, há uma variedade de critérios.

    1. Evitar cacofonias. A própria definição de cacofonia é algo subjectiva, porque engloba termos vulgares e encontros sonoros "sugestivos", o que é difícil de definir. Minha impressão é que há tempos atrás, numa sociedade mais formal, tudo poderia ser sugestivo - aí deveria entrar o bom senso.

    O "na nossa vida" nada me ofende os ouvidos, mas entendo que essas assonâncias evocam a linguagem infantil com vocabulário como nanar, pipi, xixi, cocó, ó-ó, bumbum, tautau, &c. Varias destas expressões evocam de forma inocente partes do corpo ou actividades fisiológicas. Será talvez por algum prurido semelhante que o consulente do Ciberdúvidas evitou até a sombra de sugestão desse vocabulário.

    Há outro critério, muitas vezes subvalorizado, que é o da sucessão regular entre sílabas tónicas e átonas. Se alguém quiser escrever em prosa ou em poesia fluída, suave, tem de evitar o "solavanco" de duas sílabas tónicas seguidas - porque o fluxo natural dos acentos pede uma ou duas átonas após uma tónica (seja o acento principal ou secundário). Essa lei rítmica se observa tanto na música como na poética, que é outra forma de música.

    Proparoxítonas são também de evitar, sobretudo nos finais de frase ou de verso. Se ocorrerem no meio da frase ou do verso, melhor se forem seguidos de palavra iniciada em acento tónico - assim não haverá mais de duas átonas seguidas.

    Isto, é claro, num contexto de escrita poética ou semi-poética. Há poetas que escrevem em versos livres, belíssimos e musicais. Mas se não levarem em conta (mesmo que intuitivamente) a alternância entre tónicas e átonas, nunca irão fazer poesia.

    Hiatos são também complicados, eufonicamente. Quanto mais contrastarem as vogais na sua abertura, mais inestéticos, sobretudo para o canto. Os hiatos são inevitáveis, é claro, fazendo parte de muitas palavras, e de encontros inevitáveis entre palavras. Mas o que é de evitar, onde quer que se queira um texto agradável sonoramente, é a sucessão de dois ou mais hiatos seguidos. E se nas sílabas em hiato houver ditongos, ainda pior, torna-se extremamente difícil uma pronúncia clara, articulada e natural. Por exemplo: "ele, o hiato, ele é o inimigo da eufonia, ele é o anti-eufónico por excelência". Veja a sucessão de vogais em sílabas separadas que começa a cada cláusula iniciada com "ele", além do "daheu" em "da eufonia".

    Teoricamente, pode-se fazer elisão aqui e ali: mas onde quer que faca elisão, a sucessão infeliz de vogais só se torna mais confusa e incompreensível.

    Em textos técnicos ou lógicos, cujo propósito essencial é transmitir objectivamente conteúdos, essas considerações são é claro irrelevantes. Por isso eu diria que eufonia, ou cacofonia, depende em muito e sobretudo do contexto.
     
    < Previous | Next >
    Top