O programa [BF] tem características assistencialistas. Pronto! Desenchemos a linguiça!

Marcio_Osorio

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Portuguese
Do pequeno livro[1] que estou lendo (estou a ler) transcrevo este exemplo sobre o programa Bolsa Família:

"Como o processo de acompanhamento, além de ainda incipiente, obedece a etapas bastante rígidas, que vão desde a advertência até o cancelamento dos benefícios, com uma visão de evitar ao máximo a exclusão de uma família, o programa, em sua grande parte, ainda tem características meramente assistencialistas".

exemplo esse que as autoras do livro simplificaram para:

"O programa [Bolsa Família] tem características assistencialistas"! -- Ah... se nossos relatores, nossos tecnocratas, nossos parlamentares pudessem simplificar as coisas como as leis, por exemplo, talvez o povo as entendesse e a elas obedecesse prontamente!

Teriam os senhores visto -- e se disporiam a postar neste mesmo fio -- outros exemplos prolixos passíveis de simplificação?

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[1] Escrever Melhor (Guia para passar os textos a limpo), (c) Dad Squarisi e Arlete Salvador, Editora Contexto (Editora Pinsky Ltda.), ed. 2016, p. 42. Custou-me apenas R$9,90 (Euros 2,63). Não consegui a baixar a versão .pdf, pois o sítio ou sítios onde deveríamos baixá-lo nos redirecionam a outros sítios que nos redirecionam a outros subsítios que nos obrigam a instalar suas máquinas de busca personalizadas etc.
 
  • metaphrastes

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    "O programa [Bolsa Família] tem características assistencialistas"
    Este trecho contém uma mera asserção.

    Como o processo de acompanhamento, além de ainda incipiente, obedece a etapas bastante rígidas, que vão desde a advertência até o cancelamento dos benefícios, com uma visão de evitar ao máximo a exclusão de uma família, o programa, em sua grande parte
    Este trecho contém argumentos, alinhavados em ordem a justificar a asserção final, descrevendo o processo de acompanhamento, que do ponto de vista do autor é ineficaz e concede benefícios sejam estes necessários ou não, merecidos ou não.

    Pretende o seu manual eliminar todo e qualquer processo argumentativo, e incentivar asserções infundadas e arbitrárias? E resta a pergunta: qual o público-alvo do texto citado? É um texto dirigido a técnicos da área da assistência social, ou economistas, ou gestores públicos ou privados? Se sim, a linguagem é clara e adequada. Ou é o escrito dirigido ao público em geral, para informação da população? Se sim, a linguagem é muito técnica.

    Num caso ou noutro, a etapa de exposição dos argumentos não deveria ser eliminada.

    O exemplo dado, francamente, me parece pobre, e parece tentar seguir a linha de English for business, com a preferência por frases curtas, directas, simples - e amaldiçoando o uso da voz passiva, de numerosas orações coordenadas ou subordinadas, etc. É uma linha de trabalho muito boa para alcançar maior concisão e clareza - mas esquece que ideias complexas (como a descrição cronológica e causal de fenómenos complexos) exige a formação de sentenças complexas, que possam exprimir a complexidade dos fenómenos e ideias correlacionados.

    Além de que o exemplo é estúpido, por eliminar a argumentação. Eis como eu simplificaria a linguagem:
    "O processo de acompanhamento [do Bolsa-Família] está no início e não está ainda bem desenvolvido e consolidado. É um processo rígido, que tem de obedecer etapas rígidas: primeiro, as advertências e só em último caso o cancelamento dos benefícios. A intenção é evitar ao máximo a exclusão de uma família [mesmo que haja abusos evidentes]. Por isso, o programa tem características assistencialistas. [Isto é, presta assistência aos carentes e necessitados, mas não os retira desta condição; ou, ainda pior, é um sistema que se baseia no aliciamento político das classes pobres através da assistência social, com fins eleitorais]

    Tentei não eliminar nenhuma ideia ou argumento, apenas escrever em frases mais curtas, repetindo alguns termos para obter mais clareza - logo, não é mais sucinto, mas é provavelmente mais claro.
     

    Marcio_Osorio

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    Portuguese
    meta, mais adiante, as autoras do livro enxugaram o texto com a seguinte continuação[1]:

    "O processo de acompanhamento, ainda incipiente, obedece a etapas bastante rígidas. Elas vão desde a advertência até o cancelamento dos benefícios para evitar ao máximo a exclusão de uma família. O resultado é um programa, em grande parte[,] assistencialista".

    E já agora um exemplo de falta de coerência:

    "A criança dormia tranquila e serena no berço enquanto os pais corriam desesperados de um lado para outro atrás de um brinquedo para acalmá-la".

    Solução: "Do sono tranquilo e sereno acorda e sai do berço a criança para sossegar os pais que, desesperados por um brinquedo, corriam de um lado para outro". A emenda saiu pior que o soneto?! :)


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    [1] ... que eu deveria ter transcrito para o meu post anterior.
     

    metaphrastes

    Senior Member
    Portuguese - Portugal
    "O processo de acompanhamento, ainda incipiente, obedece a etapas bastante rígidas. Elas vão desde a advertência até o cancelamento dos benefícios para evitar ao máximo a exclusão de uma família. O resultado é um programa, em grande parte[,] assistencialista"
    Este é bem um exemplo de business English, que se tenta impor como padrão único de linguagem em todo o mundo. Neste caso, está bem feito, evitando o acúmulo de orações subordinadas e ficando por sentenças breves, mais enxutas, que ganham em clareza. Mas francamente, não penso que a outra versão fosse demasiado complexa para um público minimamente habilitado.
    E este padrão supostamente único não o é, nem sequer nos EUA. Há estudantes que se queixam de, em certos graus académicos (como a High School e, penso, nas licenciaturas) serem "coagidos" a seguir os ditames deste inglês prático, directo. Mas noutros graus (penso que nas pós-graduações) a expectativa é oposta: é usarem uma linguagem mais complexa, com uso de voz passiva, longas sentenças com orações subordinadas, &c, exactamente para exprimirem ideias mais complexas. O que deixa os estudantes perplexos. Os sobreviventes saem aptos a escrever textos do mais simples ao mais complexo, conforme a situação exigir.

    Por isso, sou contra esta absolutização dalguns padrões ou técnicas de escrita, que podem ser muito bons e eficazes nalguns terrenos, mas um desastre noutros.
     

    Marcio_Osorio

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    Portuguese
    Os estudantes brasileiros -- disso os estudantes portugueses têm certeza -- apanham mais que boi ladrão na redação. Costumam esses achar a gramática difícil, estes, não tanto assim.

    O português europeu, falado ou escrito, obedece mais às regras gramaticais do que deveria o português do Brasil cuja língua falada, mas não tanto a escrita, por vezes delas se distancia enormemente, assustadoramente. A grande quantidade de gramáticas e a grande quantidade de compêndios e tomos de linguística e literatura tentam, à maneira da criança que referi acima, desvendar, ou melhor, guiar o estudante pelos meandros da língua numa batalha em que tanto a criança como os pais dela e estúltimo afinal se desconchavam a olhos vistos ou mesmo cerrados. E na batalha mesma esperneia exasperado, mas sucumbe por fim exausto, este meu ponto de vista sem pé nem cabeça.

    E da cabeça aos pés perde, na refrega ou caos que para si criou, todo o senso comum e toda a lógica que entre ele e a coerência abrem-lhe fosso profundo e enorme. E por aqui eu paro antes que por ali pare eu.
     
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    Marcio_Osorio

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    Portuguese
    "No canto mais escuro do quarto a quase cega e frágil velhinha de seus 90 e poucos anos, praticante de halterofilismo, lia avidamente as longas cartas de letras miúdas que Julinho, seu neto de três anos, com esmero lhe escrevia. De tarde, no Rio de Fevereiro, ele se vestia apressadamente e rumava ao escritório onde encabeçava demoradas reuniões sobre a política e a conduta econômica que sua empresa e seus empregados deveriam seguir; sua avó, por sua vez, dirigia-se velozmente em sua Ferrari, pelas atravancadas avenidas da pacata vila de São João do Mato Ralo, ao clube de halterofilismo, clube esse cujos instrutores impunham-lhe rígidos testes de resistência com halteres de 200kg ou mais. Ademais disso, nadava com surpreendente vigor na piscina olímpica da Associação dos Idosos Unidos Venceremos, prática essa recentemente adotada, em razão dos sucessivos ataques cardíacos que vinha tendo há coisa de um mês... e tome incoerência!"
    Fonte: Eu mesmo, Márcio Osório.
     
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    jazyk

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    Brazílie, portugalština
    Corretamente: todo o senso comum e toda a lógica que entre ele e a coerência lhe abrem fosso profundo e enorme. - Próclise em oração subordinada.

    Corretamente: clube esse cujos instrutores lhe impunham rígidos testes de resistência com halteres de 200 kg ou mais. - Próclise em oração subordinada.
     

    Marcio_Osorio

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    Portuguese
    O símbolo de qualquer unidade de medida deve vir sem ponto e espaço junto ao número: 2m³, 20km, 8h25m, 15°C, 3°24’30.

    De uma maneira ou de outra, a ausência de senso comum e de lógica criaram um enorme fosso abissal em que caíram eu, minhas noções e minha esquizoafetividade sociopática. Ou socioapática. Tenho ainda algumas cartas na manga que colhi madura e pus na manga, acabando por chupar esta última por engano. Da pequena barra do meu quarto levantei-me depois disso, pensando em ir até o porto e ver os navios que adentravam a barra; lá possivelmente veria mulheres cujos vestidos teriam barras à mostra. Caminhando displicentemente, enquanto comia uma barra de chocolate, esbarrei com um cartaz escrito com barras verticais e invertidas, de autoria anônima. Quase o derrubei. No porto, encostei-me na barra recém-pintada da parede de um armazém cujo fiel, ao me repreender, confessou-se não tão fiel à esposa, mas já a deixava pela amante, amante de barras de ouro, para quem não havia barras nem obstáculos entre a ambição e a usura; à praia de barra levou-a certa vez, em Barra de Santana, mas a praia abarrotada de lama não prestava. A Barra de São Miguel foram então, mas lá também na praia barreira o barro imperava. Ava, a amiga dela, carta do mesmo naipe, as amígdalas tinha inflamadas. Infames e enlameadas, de cara deram com a dura cara da polícia que as esperava. E, assim, essa história se encerra.

    Fonte: Eu.
     
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    Marcio_Osorio

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    Portuguese
    Aqui em Terra Brasilis esse critério não funciona. Los corruptos impolutos poderiam pôr qualquer número entre 23 e km, assim como entre R$ e 23, e com isso ganhar uma nota preta. E outra branca.
     

    Marcio_Osorio

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    Portuguese
    Mais uma das minhas "incoerências":

    "À meia-noite brilhava o Sol majestosamente. Pássaros cantavam alegremente, mas, ao pularem de galho em galho, tropeçavam e caíam pesadamente na relva que, fofa, não lhes amortecia a queda. Seu Julião, cego de nascença, admirava, distraído, a paisagem iluminada; admirava, outrossim, a fisionomia da esposa, d. Alice, que, embora sentada, punha-se de pé para ler o jornal cujas letras se despregavam ou esmaeciam. De repente salta-lhes aos olhos já adormecidos a notícia de que dela o primo, eterno grato mas muito mal-agradecido, se jogara do alto de um pé de coentro. Ocupado que agora estava a examinar pelo microscópio uma larva cujo sovaco cheirava mal, de imediato pôs-se seu Julião a correr pelas ruas em busca de um desodorante; para isso bastou-lhe entrar no mercadinho vizinho a 213 km de sua casa. Enquanto isso, sua esposa, desnuda com uma das mãos no bolso do avental que sujara ao lavá-lo com o melhor detergente que encontrara, calada murmurava em altos berros: 'O planeta Saturno não passa duma bola quadrada que, ao girar estática, orbita a Terra ovalada'. Na festa de gala que no velório deram em homenagem ao primo cujo defunto às pressas os convidados enterraram, houve abundância de coquetéis e quitutes dos mais variados. Dos mais variados saíram-lhes também os urros de louvores, de burros que já não sentiam dores; também quem lhes iria suportar os humores, agora que o cego a mulher ameaçava com o desodorante, mas não com a faca que agarrara... para passar margarina na torrada, não para oferecer-lhe a torrada, mas a margarina num gesto de amoroso desprezo".

    Fonte: Baseado no livro A Coerência Textual, de Ingedore Villaça Koch e Luiz Carlos Travaglia. Copyright 1990. Ressalvo, aqui, que NÃO copiei o texto; apenas adaptei-o às minhas "ideias". Ou "apenas o adaptei..."? Agora, me diga, adianta escrever essa besteira e não saber onde colocar um pronome oblíquo? :confused:
     
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