ordem de verbo e sujeito em perguntas

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casaleiro

Senior Member
English - Ireland
Olá!
Em muitas línguas, há uma ordem normal dos constituintes (sujeito-verbo-objeto) em frases declarativas, e outra ordem em perguntas. Em português não é o caso, portanto a mesma sequência de palavras pode ser declarativa ou interrogativa:
"O senhor está com sede" (frase declarativa)
"O senhor está com sede?" (frase interrogativa, que se realisa com outra entonação).

Mas também pode-se dizer "Está com sede" (sujeito nulo), "Está o senhor com sede" (VS variação em frases declarativas).
Ora, tenho uma dúvida: a pergunta "Está o senhor com sede?" (com a entonação apropriada) é gramatical, ou não é? Vocês lusófonos aceitam-a, rejeitam-a, aceitam mas não gostam?
Obrigado...
 
  • A construção gramatical está correta mas é de um formalismo tão elevado que nunca é usado senão em narrativas e mesmo essas são em tom muito formal. Daí nunca ser usado e se interpretar logo como alguém que está a aprender a língua portuguesa.
     

    casaleiro

    Senior Member
    English - Ireland
    Obrigado pelas respostas. Foram uma grande ajuda. Tenho um serviço para fazer que tem a ver com a variação da ordem das palavras, e o meu juízo não aguenta mais :)
     

    casaleiro

    Senior Member
    English - Ireland
    Obrigado englishmania pela sua resposta, que me faz pensar que o meu exemplo foi mal escolhido.

    Sff., os lusofalantes podem me dar a sua opinião sobre as seguintes frases interrogativas: quais são que acham corretas, quais estranhas, quais erradas?

    1. i. O gato saiu?
    ii. Saiu o gato?

    2. i. O gato bebeu o leite?
    ii. Bebeu o gato o leite?
    iii. Bebeu o leite o gato?
     

    Carfer

    Senior Member
    Portuguese - Portugal
    Concordo que a ordem directa é a forma mais comum em perguntas, sobretudo na linguagem corrente, e que, no caso proposto, será efectivamente como a maior parte das pessoas diz, mas daí a considerar incorrectas ou mesmo estrangeirismos construções como as citadas vai um passo que não vou dar, sobretudo porque passei umas dezenas de anos a empregá-las e a ver colegas empregá-las, nem sempre nem obrigatoriamente, é verdade, mas seguramente com muita frequência: 'Sabe a senhora testemunha se...', 'Está a senhora testemunha certa de que...?', 'Quando falou a senhora testemunha com F... a última vez?, 'Tem a senhora testemunha a certeza de que a frase foi...? Não terá antes o Réu dito que..', 'Está o declarante com receio de..?'. E, se é certo, que se trata de perguntas formais, em ambiente formal, não é menos verdade que essa forma de interrogar nada tem de específico nem de restrito a esse meio, que é português genuíno e que a mesma ordem inversa também ocorre na linguagem corrente: 'Estarás (tu) convencido de que essa é a melhor forma de agir? Não terá F... já demonstrado que só poderá trazer prejuízos?', 'Não estarás (tu) à espera que o dinheiro te caia do céu?', 'Não haverá aqui gato?'. Diria portanto, que menos comuns, sim, certamente que são, mas agramaticais é que não.
    Nestes dois tópicos do Ciberdúvidas há outros exemplos de ordem inversa em frases comuns
    O uso do sujeito posposto - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
    A concordância verbal numa frase interrogativa com inversão do sujeito - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa

    P.S. às questões que casaleiro entretanto pôs, na minha opinião são todas correctas e todas podem ocorrer, umas com mais frequência do que outras, e sempre sem prejuízo de que as mais comuns são as feitas na ordem directa.
     

    englishmania

    Senior Member
    Português Europeu
    Li e compreendo o que o Carfer disse. Confesso que nem tinha pensado na possibilidade desse uso num contexto específico. Tem razão. :thumbsup:

    Ainda assim, na minha opinião, esse uso não me parece generalizado e (posso estar completamente enganada) , por isso, sinto que devo aconselhar uma construção mais comum, principalmente a alguém que está a aprender português.

    Por exemplo, Bebeu o gato o leite? parece-me uma frase muito ambígua e incomum.

    O que eu diria a um aluno seria o seguinte:
    O gato bebeu o leite? deveria ser a forma privilegiada
    Bebeu o leite o gato? comum coloquialmente
    Bebeu o gato o leite? não aconselharia
     
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    Como o intuito é ensinar alguém, acho que se devem descartar regionalismos e vícios de língua, e acho que este é o caso.
    Por vezes também troco a ordem das palavras, mas não sendo registo de língua não acho que se deva propagar para quem está/quer aprender.
     

    Carfer

    Senior Member
    Portuguese - Portugal
    Ainda assim, na minha opinião, esse uso não me parece generalizado e (posso estar completamente enganada) , por isso, sinto que devo aconselhar uma construção mais comum, principalmente a alguém que está a aprender português.

    Por exemplo, Bebeu o gato o leite? parece-me uma frase muito ambígua e incomum.

    O que eu diria a um aluno seria o seguinte:
    O gato bebeu o leite? deveria ser a forma privilegiada
    Bebeu o leite o gato? comum coloquialmente
    Bebeu o gato o leite? não aconselharia
    Também tem razão. Tudo depende do contexto, naturalmente. No fim de contas, a inversão do sujeito não é mais do que um recurso linguístico para empregar quando for útil ou conveniente, seja por razões estilísticas, seja por ênfase, uso, consonância, etc.. A gramática não tem aí muito a dizer. A ordem em que os elementos sintáticos ocorrem não é rígida, não podemos dizer que só a ordem directa vale(*), ainda que esta seja aquela que o bom senso aconselha que se recomende a um principiante. Contudo, como nem todos aqui são principiantes, não podemos ignorar que há outras possibilidades e maneiras de dizer.

    (*)A propósito, lembro-me sempre das estrofes de 'Os Lusíadas', sobre os quais recaía, no meu tempo de Liceu, a análise sintática, uma descabelada e provavelmente inútil prática que deve ter alienado inúmeros estudantes do poema e da literatura. Nelas, o sujeito está frequentemente num verso, o verbo meia dúzia de versos mais acima ou mais abaixo, um e outro escondidos o mais das vezes entre incompreensíveis referências mitológicas cujo significado, naquela idade, o nosso grau de cultura não permitia alcançar. Concedo que foi de alguma utilidade para aqueles que não desistiram logo da empresa, deu-nos treino e ferramentas para interpretar textos complexos, mas, no geral, não deixa de ser uma barbaridade. Não quero que baixemos (ou subamos? ;)) a esse nível, mas, se a frase é compreensível, se não viola nenhuma regra gramatical imperativa, o máximo que me parece que devamos fazer é assinalar a invulgaridade sem a rejeitar, até mesmo se aparece na forma extrema de 'Bebeu o gato o leite?'. É que na verdade, a bizarria da forma não afecta em nada a compreensão nem causa ambiguidade. Diz-nos a experiência da vida que o leite não bebe o gato, logo é bastante claro quem bebe o quê.
     
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    guihenning

    Senior Member
    Português do Brasil
    Talvez o exemplo do gato seja meio extremo e engessado, mas no meu português frases como as seguintes são bem comuns de se ouvirem:
    — Está subindo ou descendo esse elevador?
    — Já chegou o médico que atende aqui à tarde?
    — Então sou eu o culpado?

    e outras tantas.
     
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    englishmania

    Senior Member
    Português Europeu
    As frases que mencionou são bastante comuns.

    Pelo que vejo, o que me parece causar estranheza é quando se coloca o sujeito entre o verbo e o predicado. Para mim, o verbo e o predicado fazem sentido juntos.

    O João encontrou as chaves? OK
    Encontrou as chaves o João? OK
    Encontrou o João as chaves? estranho (desculpem, não me levem a mal, mas não sou capaz de "aceitar" esta construção como natural e aconselhar um discente a usá-la)
     
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    Vanda

    Moderesa de Beagá
    Português/ Brasil
    Carfer disse:
    A propósito, lembro-me sempre das estrofes de 'Os Lusíadas', sobre os quais recaía, no meu tempo de Liceu, a análise sintática, uma descabelada e provavelmente inútil prática que deve ter alienado inúmeros estudantes do poema e da literatura. Nelas, o sujeito está frequentemente num verso, o verbo meia dúzia de versos mais acima ou mais abaixo, um e outro escondidos o mais das vezes entre incompreensíveis referências mitológicas cujo significado, naquela idade, o nosso grau de cultura não permitia alcançar.
    Me fez lembrar nosso hino nacional:
    Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
    De um povo heroico o brado retumbante
    Com influência do Parnasianismo, a inversão faz com que a maioria dos brasileiros não entenda bem e não consiga achar o sujeito no trecho, tanto que é uma questão bem famosa em alguns concursos públicos.
     
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