pegar na consciência ao colo

Billie Ro

Senior Member
Spanish (Spain)
Hola a todos.
¿Alguien podría ayudarme con el significado de esta frase? Le he dado muchas vueltas y no consigo descifrarla. Gracias de antemano.

Entre as horas felizes que a vida deixa que eu passe, conto por do melhor ano aquelas em que a leitura de Agatha Christie me pega na consciência ao colo.
 
  • rschieber

    New Member
    Portuguese - Brazil
    Boa tarde, Billie.

    Em verdade, este trecho de Fernando Pessoa é:
    Um dos poucos divertimentos intelectuais que ainda restam ao que ainda resta de intelectual na humanidade é a leitura de romances policiais. Entre o número áureo e reduzido das horas felizes que a Vida deixa que eu passe, conto por do melhor ano aquelas em que a leitura de Conan Doyle ou de Arthur Morrison me pega na consciência ao colo.

    Quando ele diz me pega na consciência ao colo, quer dizer que a leitura dos contos de Doyle e Morrison preendem-no "da cabeça ao coração". Faz envolvê-lo em consciência e sentimento.

    De fato o termo utilizado por Pessoa não é uma expressão comum da língua portuguesa.
    Por favor, outros participantes, colaborem. Não sei se fui claro.
     
    Last edited:
    Boa tarde, Billie.

    Em verdade, este trecho de Fernando Pessoa é:
    Um dos poucos divertimentos intelectuais que ainda restam ao que ainda resta de intelectual na humanidade é a leitura de romances policiais. Entre o número áureo e reduzido das horas felizes que a Vida deixa que eu passe, conto por do melhor ano aquelas em que a leitura de Conan Doyle ou de Arthur Morrison me pega na consciência ao colo.

    Quando ele diz me pega na consciência ao colo, quer dizer que a leitura dos contos de Doyle e Morrison preendem-no "da cabeça ao coração". Faz envolvê-lo em consciência e sentimento.

    De fato o termo utilizado por Pessoa não é uma expressão comum da língua portuguesa.
    Por favor, outros participantes, colaborem. Não sei se fui claro.

    Está correta a minha intuição de que ele preferiu a preposição "em" a "de", sacrificando um pouco a clareza, simplesmente para obter uma frase mais eufônica? Porque "me pega da consciência ao colo" é mais intuitivo e bem mais próximo de "me pega da cabeça ao coração", e essa troca de preposição não altera em nada o sentido...
     

    Carfer

    Senior Member
    Portuguese - Portugal
    Não, acho que há um problema com a interpretação que lhe está a dar. Não se refere a extensão, de um ponto a outro, da consciência até ao coração. 'Pegar', aqui, rege a preposição 'em' porque tem o significado de 'agarrar', 'segurar', 'apoderar-se de'. O objecto da acção é a consciência, é a consciência que é agarrada, portanto 'pega na consciência'. O sentido é o de que os romances tomam conta/se apoderam/ da consciência de Pessoa, que se deixa por eles envolver, e é por eles conduzida. O poeta tem uma sensação semelhante à de uma criança ao colo de um adulto, à da criança no regaço da mãe, protegida, acarinhada, isolada do mundo exterior, imersa numa situação de bem-estar, de conforto, de prazer, desobrigado de maior esforço intelectual. Em Portugal, a expressão 'levar ao colo' também significa, figuradamente, 'facilitar a vida a alguém', 'tratá-la bem', mais do que seria necessário ou se justificaria. No fundo, o que ele está a dizer é que esses romances são uma forma fácil e prazenteira de se alhear do mundo.
     
    Last edited:

    gato radioso

    Senior Member
    spanish-spain
    Sei que isto talvez pode ficar criativo de mais:
    considero como las mejores aquéllas en que la lectura de Conan Doyle o de Arthur Morrison me acarician el juicio...
     
    Não, acho que há um problema com a interpretação que lhe está a dar. Não se refere a extensão, de um ponto a outro, da consciência até ao coração. 'Pegar', aqui, rege a preposição 'em' porque tem o significado de 'agarrar', 'segurar', 'apoderar-se de'. O objecto da acção é a consciência, é a consciência que é agarrada, portanto 'pega na consciência'. O sentido é o de que os romances tomam conta/se apoderam/ da consciência de Pessoa, que se deixa por eles envolver, e é por eles conduzida. O poeta tem uma sensação semelhante à de uma criança ao colo de um adulto, à da criança no regaço da mãe, protegida, acarinhada, isolada do mundo exterior, imersa numa situação de bem-estar, de conforto, de prazer, desobrigado de maior esforço intelectual. Em Portugal, a expressão 'levar ao colo' também significa, figuradamente, 'facilitar a vida a alguém', 'tratá-la bem', mais do que seria necessário ou se justificaria. No fundo, o que ele está a dizer é que esses romances são uma forma fácil e prazenteira de se alhear do mundo.
    Agradeço-te imensamente essa resposta! É por uma explicação assim que procurava. Em termos de análise sintática, então, "na consciência" é objeto indireto de "pega", e "ao colo" é advérbio, certo? Aconteceu que eu não entedi imediatamente de quem era o tal "colo"; no fim das contas, é o colo da própria "leitura", personificada.
     

    Carfer

    Senior Member
    Portuguese - Portugal
    Sintaticamente, 'na consciência' é objecto directo de 'pegar', 'ao colo' complemento circunstancial de modo (ou seja, como lhe pega).
     

    Carfer

    Senior Member
    Portuguese - Portugal
    Também acho intutivo que seja objeto direto, uma vez que recebe diretamente os efeitos da ação, mas os gramáticos da língua portuguesa considerariam indireto pela mera presença da preposição, não é?
    Sei que sim, mas continuo agarrado ao que me ensinaram: se a acção recai sobre 'consciência', consciência é o objecto directo (para dizer a verdade, a nomenclatura que me ensinaram até foi 'complemento directo'. Precisei de chegar à faculdade para me familiarizar com o conceito de 'objecto', ou seja, cheguei a ele por via do direito, não da gramática do liceu). Recordo-me, de resto, de um dos meus professores de português nos dizer que, se o complemento indirecto vinha sempre precedido de preposição ou pronome, não se seguia que todo o complemento preposicionado fosse indirecto. Como isso me parece lógico, nunca pensei muito sobre isso. Apenas me ocorre que dizer que, se só porque há um 'em', há gramáticos que mandam a função às ortigas e se cingem a aspectos meramente formais, não admira que a gramática seja tão intragável para a maioria dos alunos. Agora, depende do uso que quer fazer disto. Se é para algum exame, é melhor fechar os olhos ao ilogismo e fazer a devida vénia aos gramáticos. Faça como eu, use o que lhe ensinaram.
     
    Sei que sim, mas continuo agarrado ao que me ensinaram: se a acção recai sobre 'consciência', consciência é o objecto directo (para dizer a verdade, a nomenclatura que me ensinaram até foi 'complemento directo'. Precisei de chegar à faculdade para me familiarizar com o conceito de 'objecto', ou seja, cheguei a ele por via do direito, não da gramática do liceu). Recordo-me, de resto, de um dos meus professores de português nos dizer que, se o complemento indirecto vinha sempre precedido de preposição ou pronome, não se seguia que todo o complemento preposicionado fosse indirecto. Como isso me parece lógico, nunca pensei muito sobre isso. Apenas me ocorre que dizer que, se só porque há um 'em', há gramáticos que mandam a função às ortigas e se cingem a aspectos meramente formais, não admira que a gramática seja tão intragável para a maioria dos alunos. Agora, depende do uso que quer fazer disto. Se é para algum exame, é melhor fechar os olhos ao ilogismo e fazer a devida vénia aos gramáticos. Faça como eu, use o que lhe ensinaram.
    Concordo integralmente. Só perguntei para confirmar se o seu uso do termo tinha essa motivação ou alguma outra. Fico contente em ouvir alguém de muito mais vasta experiência confirmar essa intuição que já me vinha visitando devido ao meu estudo (ainda incipiente) do Latim.
     
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