Perífrase "ia+ infinitivo" como "passado iminente"?

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Erick Silva

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Português brasileiro
Bom, não me refiro à substituição do futuro do pretérito pelo pretérito imperfeito para falar sobre o condicional, mas ao uso da perífrase verbal ia + infinitivo para passar a ideia de a ponto de ou prestes a, muito comum na fala cotidiana dos brasileiros.​

(1)​
- Você ainda não arrumou seu quarto?​
- Eu ia arrumar, mas me distraí​

(2)​
- Por que você se calou de repente?​
- Porque eu ia dizer besteira...​

Nos exemplos acima, a perífrase verbal ia + infinitivo não substitui o futuro do pretérito, que é a função mais debatida dessa locução verbal, mas representa um passado na iminência de ter acontecido. Pesquisando sobre esse uso, encontrei poucas informações, por isso venho perguntar aqui a respeito do emprego de ia + infinitivo como passado que estava a ponto de acontecer.​
 
  • metaphrastes

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    Portuguese - Portugal
    Bom, não me refiro à substituição do futuro do pretérito pelo pretérito imperfeito para falar sobre o condicional, mas ao uso da perífrase verbal ia + infinitivo para passar a ideia de a ponto de ou prestes a, muito comum na fala cotidiana dos brasileiros.​

    (1)​
    - Você ainda não arrumou seu quarto?​
    - Eu ia arrumar, mas me distraí​

    (2)​
    - Por que você se calou de repente?​
    - Porque eu ia dizer besteira...​

    Nos exemplos acima, a perífrase verbal ia + infinitivo não substitui o futuro do pretérito, que é a função mais debatida dessa locução verbal, mas representa um passado na iminência de ter acontecido. Pesquisando sobre esse uso, encontrei poucas informações, por isso venho perguntar aqui a respeito do emprego de ia + infinitivo como passado que estava a ponto de acontecer.​

    Esta é uma boa pergunta. Tanto quanto sei, a locução "ia + infinitivo" não é listada nas gramáticas como um tempo verbal composto, como por exemplo o mais-que-perfeito composto, "ele tinha/havia dito" em vez de "ele dissera", forma sintética pouquíssimo usada, sobretudo em qualquer registo coloquial ou menos formal.

    Em todo o caso, o português como outras línguas tem formas muito variadas de exprimir aspecto temporal, através de verbos auxiliares que agregam, cada um, uma nuance difícil de capturar e definir exactamente.

    Parece-me que nos exemplos citados, o aspecto temporal é *grosso modo* o do velho condicional, em que a acção não realizada no passado depende de uma certa condição ou ausência dela.

    No caso das frases citadas, poder-se-ia subentender uma condição tácita: "Eu arrumaria/teria arrumado o quarto, se estivesse/fosse mais atento". "Eu diria besteira, se não tivesse já aprendido a me calar (porque a besteira teria consequências)".

    É claro que a nuance precisa do "ia falar/ia arrumar" é diferente, e subentende este aspecto de iminência, se não de facto, apenas como desculpa: "eu ia arrumar, se você aparecesse daqui a uma ou duas horas o quarto já estaria arrumado" (mas provavelmente não, ficou apenas na intenção ou na desculpa).

    Mas esta análise do que está subentendido na expressão "ia+infinitivo" entra no terreno da conotação e não da denotação e provavelmente por isso as gramáticas não se ocupam dela, tratando sobretudo da denotação, ficando o aspecto subjectivo do texto mais no domínio do estilo com o seu aspecto não capturável por critérios formais reproduzíveis.
     
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    Erick Silva

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    Português brasileiro
    Esta é uma boa pergunta. Tanto quanto sei, a locução "ia + infinitivo" não é listada nas gramáticas como um tempo verbal composto, como por exemplo o mais-que-perfeito composto, "ele tinha/havia dito" em vez de "ele dissera", forma sintética pouquíssimo usada, sobretudo em qualquer registo coloquial ou menos formal.

    Em todo o caso, o português como outras línguas tem formas muito variadas de exprimir aspecto temporal, através de verbos auxiliares que agregam, cada um, uma nuance difícil de capturar e definir exactamente.

    Parece-me que nos exemplos citados, o aspecto temporal é *grosso modo* o do velho condicional, em que a acção não realizada no passado depende de uma certa condição ou ausência dela.

    No caso das frases citadas, poder-se-ia subentender uma condição tácita: "Eu arrumaria/teria arrumado o quarto, se estivesse/fosse mais atento". "Eu diria besteira, se não tivesse já aprendido a me calar (porque a besteira teria consequências)".

    É claro que a nuance precisa do "ia falar/ia arrumar" é diferente, e subentende este aspecto de iminência, se não de facto, apenas como desculpa: "eu ia arrumar, se você aparecesse daqui a uma ou duas horas o quarto já estaria arrumado" (mas provavelmente não, ficou apenas na intenção ou na desculpa).

    Mas esta análise do que está subentendido na expressão "ia+infinitivo" entra no terreno da conotação e não da denotação e provavelmente por isso as gramáticas não se ocupam dela, tratando sobretudo da denotação, ficando o aspecto subjectivo do texto mais no domínio do estilo com o seu aspecto não capturável por critérios formais reproduzíveis.
    Concordo com você, talvez haja uma condição subentendida no emprego, em questão, da perífrase ia + infinitivo. Contudo, é uma condição remota e vinculada a uma nova construção (ou desconstrução) da frase e, consequentemente, da intenção de quem fala.​
    Continuei pesquisando e encontrei, na Moderna Gramática Portuguesa (BECHARA, 2009), a subcategoria de verbo chamada fase: "trata-se aqui da relação entre o momento da observação e o grau de desenvolvimento da ação verbal observada". Em seguida, o autor explica que a fase iminente ou ingressiva "trata-se da ação no seu começo e se indica com perífrases verbais, em geral, com o verbo estar para (por) + infinitivo: estou para (por) escrever". Assim, quiça a locução ia + infinitivo possa ser considerada nesse contexto.​
     

    metaphrastes

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    Portuguese - Portugal
    Continuei pesquisando e encontrei, na Moderna Gramática Portuguesa (BECHARA, 2009), a subcategoria de verbo chamada fase: "trata-se aqui da relação entre o momento da observação e o grau de desenvolvimento da ação verbal observada". Em seguida, o autor explica que a fase iminente ou ingressiva "trata-se da ação no seu começo e se indica com perífrases verbais, em geral, com o verbo estar para (por) + infinitivo: estou para (por) escrever". Assim, quiça a locução ia + infinitivo possa ser considerada nesse contexto.​
    Muitíssimo interessante esta subcategoria da fase, é a primeira vez que leio a respeito. Tem alguma correlação com o chamado aspecto temporal (acção acabada, "perfeita", acção em andamento ou habitual, logo inacabada, "imperfeita", acção no seu início, &c). O par dos aspectos perfeito/imperfeito estão presentes em muitas línguas, com graus distintos de clareza. Nós temos o par de pretérito perfeito/imperfeito, mas não temos pares para o presente ou o futuro. O russo tem pares de verbos diferentes em que um exprime o aspecto imperfeito e o seu sinónimo exprime o aspecto perfeito (muitas vezes pela adição de um prefixo, mas não só). O grego tem o pretérito perfeito e o imperfeito (em que o perfeito é não só uma acção acabada, mas com consequências que subsistem no momento presente) e tem o aoristo, passado indefinido quanto ao aspecto, acabado ou inacabado, contínuo ou não, habitual ou não, no início ou não. O hebraico, estranhamente, não tem uma distinção entre passado, presente e futuro mas apenas do aspecto, perfeito ou imperfeito, acabado ou inacabado (deduzindo-se o tempo pelo contexto mas sendo possíveis diferentes interpretações).

    O mais análogo que me posso lembrar deste conceito de fase verbal, ensinado na gramática de Bechara, são os particípios do grego. O particípio presente, grosso modo, equivale ao nosso gerúndio, e exprime uma acção contínua, *simultânea ao verbo principal*. Seria algo como: "cantando, faço o meu trabalho", ou "enquanto canto, faço o meu trabalho". Ou então, "cantando, fazia o meu trabalho", se o verbo principal estiver no Aoristo. Se for um particípio aoristo, a acção do particípio antecede necessariamente a do verbo principal: "tendo apresentado/depois de apresentar a documentação, entrei nas instalações militares", sendo que este "tendo apresentado" é uma única palavra no particípio, algo como "Apresentados os documentos, entrei...".

    A analogia com esta fase ingressiva é a de que os verbos no particípio grego necessariamente dependem de um verbo principal e se situam temporalmente *em relação* ao último - e quando se diz "estava prestes a..." a lógica exige um "quando" com uma acção principal: "estava prestes a terminar a limpeza do piso, *quando* passou uma manada de búfalos selvagens (e sujou tudo)".

    Peço desculpas pela digressão, bastante tangencial à pergunta inicial, e espero que as analogias possam lançar alguma luz sobre esta questão das fases verbais.
     
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