Pronúncia de b e v em Portugal

Dymn

Senior Member
Olá gente,

Tenho duas dúvidas:

1/ Hoje estive a discutir com um rapaz português que afirma que no país todo estas letras são pronunciadas da mesma forma a não ser que sejas um pivô de notícias ou queiras soar betinho. Eu disse-lhe que talvez esta fosse a situação no norte, mas ele diz que não é do norte e que também pronuncia assim. Estou mesmo confundido e não quero ser paternalista com um nativo, mas isto contradiz toda a minha experiência. Só para eu verificar, queria que me dizessem se este mapa é credível, ou seja, se em boa parte da Beira, Estremadura, Alentejo e Algarve todas as pessoas distinguem entre as duas consoantes.

2/ Além disso, sei que na maior parte do português europeu as consoantes /b d g/ são enfraquecidas para as aproximantes [β̞ ð̞ ɣ̞] entre vogais. Mas a Wikipédia diz que isto não acontece nem no sul do país (Alentejo e Algarve, imagino) nem nas ilhas, tal como não acontece no Brasil. Gostava de que alguém que seja destes lugares me diga se isto é assim.

Muito obrigado
 
  • englishmania

    Senior Member
    Português Europeu
    As pessoas distinguem as duas consoantes, apenas é frequente pronunciarem '"b" em vez de "v". Sou do norte e sei que é assim.
     

    Carfer

    Senior Member
    Portuguese - Portugal
    Empiricamente, diria que a troca do 'v' pelo 'b' só ocorre a norte do Douro. Nunca dei pelo fenómeno nem nas Beiras nem no território mais a sul, mesmo em meios rurais e desde meados do século passado, que são tempos de que guardo lembrança e que antecedem a homogeneização das pronúncias por influência da rádio e televisão.
     

    Dymn

    Senior Member
    As pessoas distinguem as duas consoantes, apenas é frequente pronunciarem '"b" em vez de "v". Sou do norte e sei que é assim.
    Apenas frequente? Ou seja, às vezes ou algumas pessoas é que pronunciam diferente. Talvez sejam os mais novos a pronunciarem diferente os dos sons pela influência do padrão?
     

    englishmania

    Senior Member
    Português Europeu
    Empiricamente, diria que a troca do 'v' pelo 'b' só ocorre a norte do Douro. Nunca dei pelo fenómeno nem nas Beiras nem no território mais a sul, mesmo em meios rurais e desde meados do século passado, que são tempos de que guardo lembrança e que antecedem a homogeneização das pronúncias por influência da rádio e televisão.
    Penso que em Aveiro também.

    Apenas frequente? Ou seja, às vezes ou algumas pessoas é que pronunciam diferente. Talvez sejam os mais novos a pronunciarem diferente os dos sons pela influência do padrão?
    Diria que é muito frequente. O que acontece é que há pessoas que tentam pronunciar corretamente ou, por outro lado, simplesmente há pessoas que se "deixam levar" mais facilmente pela pronúncia nortenha. O que estou a dizer é que, se uma pessoa for originária do norte, irá pronunciar o 'b' em vez do 'v' inevitavelmente, mas pode não o fazer em todas as palavras ou a toda a hora, mas, ainda assim, irá fazê-lo muito frequentemente. Como em tudo, depende do contexto. Sim, é uma marca diferenciadora das pessoas do norte. Nota-se logo!
     
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    guihenning

    Senior Member
    Português do Brasil
    Neste caso, nem precisaria temer ser paternalista com o nativo, sobretudo porque aparentemente com exceção do norte, o centro-sul de Portugal passou a distinguir B de V desde muito cedo. Inclusive até me pergunto se essa pronúncia já foi realmente nacional, visto que não acontece em francês, italiano, romanche, romeno, etc (pode ocorrer no sardo, mas a influência é sem dúvida castelhana).
    A título de curiosidade, no Brasil há um número ínfimo de palavras com variações entre bê e vê, mas apenas aquelas com vê são prestigiadas. Varrer x barrer, vassoura x bassoura, travesseiro x trabesseiro, bravo x brabo e deve haver mais alguns dois ou três pares. Presumo que tenha a ver com a data em que essas palavras foram introduzidas (embora bravo seja muito comum e tenha vindo antes de qualquer outra) ou apenas reflexo duma pronúncia mais antiga que persistiu. De todo o modo, o Brasil nunca parece mesmo ter experimentado betacismo e sabe-se também que os colonos eram sobretudo do centro-sul. Se já no século XVI os colonos diferenciavam as consoantes, essa mudança só pode ter ocorrido muito cedo ou, como creio eu, essa diferenciação sempre se fez no centro-sul -- sendo, portanto, a preterida em português, sobretudo na grafia desde o século XV (possível, amável, amava, indelével, etc) à variante dialetal.
     

    Guigo

    Senior Member
    Português (Brasil)
    Interessante @guihenning mas ainda tenho dúvidas se os colonos (aqueles que vieram antes da Independência) eram mesmo, predominantemente, do centro-sul de Portugal; procurei e não achei algum censo e/ou estimativa das regiões de origem destes colonos.
    O que tinha sabido era que, em Pernambuco, quem dominava, nos séculos XVI e XVII eram 'aqueles de Viana do Castelo' e que, quando do surto do ouro, nas Minas Gerais, a emigração do Minho para a região aurífera foi tão intensa que "o surto migratório que se deu de portugueses do Minho em direção às áreas mineradoras da colônia foi tão intenso que Portugal teve que baixar três leis proibindo a migração de pessoas do Noroeste português para o Brasil, nos anos de 1709, 1711 e 1720. Em relação à lei editada em 1720, autoridades portugueses afirmaram: 'Tendo sido o mais povoado, o Minho hoje é um estado no qual não há pessoas suficientes para cultivar a terra ou prover para os habitantes'".
    O que sei é que no bairro onde nasci e fui criado (Tijuca, onde vivi até 2018), na cidade do Rio de Janeiro, temos: Clube Transmontano e Alto Douro, Casa dos Lafões, Clube do Minho, Orfeão Portugal, Orfeão Português, Vila da Feira, Clube dos Poveiros, Casa da Beira, todos do centro-norte de Portugal. Não lembro de ter percebido a dualidade b/v, com as pessoas que convivi por lá.
    Também não lembro de meu falecido sogro, natural de Vila de Nova de Gaia, fazer esta troca b/v, mas posso não ter percebido bem, além dele ter um grau de instrução bem acima da média dos portugueses aqui chegados, na época. Porém, minha esposa me confirmou que seu avô materno, orgulhoso nativo de Marco de Canaveses, trocava estas consoantes e ele era pouquíssimo instruído - o que talvez explique porque ficou rico, enquanto o genro (meu sogro) foi uma pessoa de recursos apenas medianos. :rolleyes:
    Não seria esta dualidade b/v um fenômeno mais perceptível entre os menos esclarecidos, algo cada vez mais raro no Portugal de hoje? Com a palavra os portugueses do fórum.
     

    englishmania

    Senior Member
    Português Europeu
    Não é algo característico dos menos esclarecidos, é mesmo uma característica das pessoas do norte. Talvez as pessoas menos esclarecidas o façam de forma mais vincada e despreocupada e, se calhar, sem tanta "noção" ou conhecimento. (Por vezes, há até o fenómeno de hipercorreção, no qual as pessoas pronunciam "voi" em vez de "boi", o que é raro, mesmo assim).

    No entanto, como já referi, as pessoas ditas mais instruídas talvez façam um "esforço" mais consciente para pronunciar as duas consoantes de forma clara, dependendo do contexto em que se encontram, claro, mas no geral, haverá sempre essa tendência intrínseca nas pessoas do norte.

    Por exemplo, se estiverem na tv, a dar aulas, a falar em público, a falar com os clientes do seu negócio, a cantar... tentarão pronunciar corretamente.
    Agora, se estiverem entre amigos ou familiares, é muito frequente "relaxarem". E atenção que não tem mal nenhum nisso. Eu sou do norte ;)

    Só mais uma coisa. No norte, há regiões com pronúncias mais ''carregadas'' do que outras. E, na mesma região, também pode ter a ver um pouco com cada pessoa.

    www.youtube.com/watch?v=R5mcMyjtTVg Este senhor é um advogado, claramente do norte. É instruído e pela sua pronúncia nota-se perfeitamente que é do norte. Há momentos em que pronuncia o "v", outras em que o "transforma" em "b".
     
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    Dymn

    Senior Member
    Inclusive até me pergunto se essa pronúncia já foi realmente nacional, visto que não acontece em francês, italiano, romanche, romeno, etc (pode ocorrer no sardo, mas a influência é sem dúvida castelhana).
    O betacismo acontece em português do norte, galego, asturleonês, castelhano, aragonês, a maior parte do catalão, as variedades gascona e lenguadociana do occitano, e em sardo. Imagino que, à exceção do sardo, tem uma origem comum no norte da península (o basco também não distingue estes dois sons), e daí espalhou-se.

    essa diferenciação sempre se fez no centro-sul
    Eu acho que sim. Seria muito difícil, ou mesmo impossível, reestabelecer uma distinção fonética se não se fizesse anteriormente.
     

    Alentugano

    Senior Member
    Português - Portugal
    Nunca ouvi ninguém que tivesse sido criado a sul de Coimbra trocar os v pelos b. Diria mesmo que, no sul, não há possibilidade de haver essa confusão, ninguém falaria assim, a menos que estivéssemos a imitar a pronúncia do norte do país. Tal como aqui ninguém diria "aiágua" em vez de "a água", etc... No entanto, há algumas palavras cuja pronúncia parece ter cristalizado como bassoura, brabo, que são usadas em registos muito coloquiais e/ou normalmente por pessoas de baixa escolaridade. Semelhante ao que acontece no Brasil, só as versões com v são prestigiadas.
     
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