Pronomes oblíquos e particípio passado

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AlexSantos

Senior Member
Portuguese - Brazil
Saudações, membros do fórum.

Há muito venho pensando a respeito das profundas diferenças entre a fala coloquial brasileira e o registro escrito.

Minha principal dúvida é a seguinte: quando há um particípio passado na frase, qual é a colocação pronominal que se justifica: próclise ou ênclise?

Qual ou quais destas frases estão certas?

Tinham-me chamado para a festa.
Tinham me chamado para a festa.
Tinham chamado-me para a festa.

Ainda no mesmo tópico, quando há uma palavra negativa ou atrativa na frase, deverá o pronome ficar interposto entre ela e o verbo auxiliar, ou há a possibilidade de transpô-lo para antes do verbo principal em colocação proclítica, como fazemos no falar coloquial do Brasil?

Não me tinham chamado para a festa.
Não tinham-me chamado para a festa.
Não tinham me chamado para a festa.
Não tinham chamado-me para a festa.

Desde já, agradeço aos que responderem.
 
  • guihenning

    Senior Member
    Português do Brasil
    Segundo a norma-culta:
    2. Quando o verbo principal está no particípio, o pronome átono não pode vir depois dele. Virá, então, proclítico ou enclítico ao verbo auxiliar, de acordo com as normas expostas para os verbos nas formas simples:
    3. Não se dá a ênclise nem a próclise com os particípios. Quando o particípio vem desacompanhado de auxiliar, usa-se sempre a forma oblíqua regida de preposição: Exemplo:

    Dada a mim a explicação, saiu.
    Então: «Não me tinham chamado para a festa». os outros casos são ilícitos.
    «Tinham-me chamado para a festa» os outros casos apresentados são ilícitos.

    Atenção: isso para norma-culta, mas nem mesmo os textos mais formais seguem essa regra, geralmente. Tampouco a fala cuidada ou coloquial brasileira.
    No português normal aceitam-se as formas com próclise ao particípio e também próclise ao verbo principal, mesmo que haja negativa ante o auxiliar. «Tinham me chamado para a festa» «Não tinham me chamado para festa».

    Tinham-me chamado para a festa. :tick: (Portugal geral e norma-culta)
    Tinham me chamado para a festa.:tick: (Brasil geral)
    Tinham chamado-me para a festa.:cross:

    Não me tinham chamado para a festa. :tick: (Portugal geral e norma-culta)
    Não tinham-me chamado para a festa.:cross:
    Não tinham me chamado para a festa.:tick: (Brasil geral)
    Não tinham chamado-me para a festa.:cross:

    Ainda sobre o uso brasileiro, veja:
    escreve Martinz de Aguiar:

    “Numa frase como ele vem-me ver, geral em Portugal, literária no Brasil, o fator lógico deslocou o pronome me do verbo vem, para adjudicá-lo ao verbo ver, por ser ele determinante, objeto direto, do segundo e não do primeiro. Isto é: deixou a língua falada no Brasil de dizer vem-me ver (fator histórico por ser mera continuação do esquema geral português), para dizer vem me-ver, que também vigia na língua, ligando-se o pronome ao verbo que o rege (fator lógico). Esta colocação de tal maneira se estabilizou, que pouco se diz vem ver-me e trouxe consequências imprevistas:

    1.ª) Pôde-se juntar o pronome ao particípio procliticamente:

    Aqueles haviam se-corrompido.

    2.ª) Pode-se pôr o pronome depois dos futuros (do presente e do passado):

    Poderá se-reduzir, poderia se-reduzir.

    Deixando de ligar-se aos futuros, para unir-se ao infinitivo, deixou igualmente de interpor-se-lhes aos elementos constitutivos.

    3.ª) Em frases como vamo-nos encontrar, deixando o pronome de pospor-se à forma verbal pura, para antepor-se à nominal, deixou igualmente de determinar a dissimilação das sílabas parafônicas, podendo-se então dizer vamos nos-encontrar.”»

    Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra
     
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    AlexSantos

    Senior Member
    Portuguese - Brazil
    Muito obrigado pela resposta.

    Eu não fazia ideia de que a colocação proclítica ante o verbo no particípio era, de fato, ilícita. Ainda mais considerando que essa construção é bastante difundida nos veículos de informação do Brasil.
     

    guihenning

    Senior Member
    Português do Brasil
    Pois… ilícita, mas não é. As gramáticas portuguesas todas reconhecem que seja de uso exclusivo do Brasil. É até mais fácil encontrar gramáticas tradicionalistas redigidas aqui que o proíbam… ironicamente.
    Acho, até, que próclise ao particípio já seja 'culto'. No Brasil, claro.
     
    Last edited:

    Carfer

    Senior Member
    Portuguese - Portugal
    Dada a mim a explicação, saiu.
    Em Portugal soa um tanto estranho. Habitualmente dizemos 'Dada a explicação, saiu' mas, se for de todo forçoso especificar que foi 'a mim' que foi dada, julgo que o habitual será dizer 'Tendo-me dado a explicação, saiu'.
     

    guihenning

    Senior Member
    Português do Brasil
    Em Portugal soa um tanto estranho. Habitualmente dizemos 'Dada a explicação, saiu' mas, se for de todo forçoso especificar que foi 'a mim' que foi dada, julgo que o habitual será dizer 'Tendo-me dado a explicação, saiu'.
    Soa? O exemplo vem justamente da edição portuguesa...
     

    Brasi

    Member
    Portuguese - Brazil
    Acho que a disparidade entre a norma culta e a língua falada no Brasil advém do fato de que nossa gramática prescritiva se baseia no português de Portugal...
     

    Carfer

    Senior Member
    Portuguese - Portugal
    Soa? O exemplo vem justamente da edição portuguesa...
    Pois, mas pelo menos a mim soa e não estou a ver ninguém a falar assim, mas posso estar enganado, claro. Faz-me lembrar (passe o exagero, mas faz) aquelas imitações um tanto canhestras e racistas da maneira de falar dos índios que encontrávamos nos livros de cowboys quando eu era miúdo ('Mim não saber' e semelhantes).
     
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