seguissem vivendo paralelo como dois trilhos

gvergara

Senior Member
Castellano (variedad chilensis)
Olá,

Falta lá a conjunção se (seguissem vivendo...)? A outra explicação em que posso pensar para o uso do subjuntivo nesse caso é que tivesse um que implícito, que a oração sublinhada fosse a segunda idéia do que destacado (que seguissem vivendo paralelo...), mas acho que isso é mais improvável.

Desde que terminara o colégio, não estudara mais nada, queria sentir-se útil, encher seu tempo. Não faziam nada disso e à noite se buscavam sem pressa, para cumprir pacificamente os deveres de estado. Essa era a felicidade, pois. A rotina não sendo afinal o temido fantasma do tédio, mas a ordem, o equilíbrio, a permanência tornados hábito. Que se amassem apenas, não bastava; era preciso principalmente amar em comum alguma coisa além deles, e isso o que buscavam — seguissem vivendo paralelo como dois trilhos, eles nunca se encontrariam. E assim é que se poupavam, não mais aflitos, mas de prontidão, a casa arrumada como à espera de uma visita.
De "O encontro marcado" de Fernando Sabino

Obrigado desde já,

G.
 
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  • Carfer

    Senior Member
    Portuguese - Portugal
    Pode ser que se trate de erro de edição, mas a omissão do 'se' é possível. É literário, mas não me surpreende e tenho a certeza de já ter encontrado. De algum modo, o conjuntivo já contém em si a ideia da condição, da hipótese. A conjunção, mesmo que habitual, não acrescenta muito.
     

    Carfer

    Senior Member
    Portuguese - Portugal
    Pensando melhor, no português daqui, a omissão nem é tão incomum nem tão literária como inicialmente me pareceu, ainda que não seja, realmente, a prática mais frequente. Não é tão invulgar como isso ouvir dizer 'Tivessem tido cuidado e não lhes teria acontecido nada de mal.', 'Tivesse pago(*) aos credores e ainda hoje tinha a casa', 'não tivesse eu lido atentamente o contrato, tinham-me levado à certa', 'tivesse estudado e hoje teria um bom emprego'. Em todas estas frases há um 'se' implícito, que, na realidade, não faz falta, o tempo verbal transmite perfeitamente a ideia.

    P.S. 'pago' não é, neste caso, o particípio canónico, mas é, seguramente a forma mais usada, mesmo com o auxiliar 'ter'. A regra parece estar a mudar, tanto que me parece difícil continuar a insistir no uso do particípio regular.
     
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    gvergara

    Senior Member
    Castellano (variedad chilensis)
    Aqui no Chile isso também não é tão incomum assim, nem especialmente vulgar... Embora seja utilizado principalmente em orações que expressam um desejo ou pensamento irreal, e normalmente não vá seguida explicitamente pela conseqüência:

    A: ¿Cómo se te ocurre llamarlo en medio de su duelo? Su padre murió hace dos días.
    B: Hubiera sabido... (= Si hubiera sabido(, no lo habría llamado/molestado/importunado))
     
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    guihenning

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    Português do Brasil
    Não é tão invulgar como isso ouvir dizer 'Tivessem tido cuidado e não lhes teria acontecido nada de mal.', 'Tivesse pago(*) aos credores e ainda hoje tinha a casa', 'não tivesse eu lido atentamente o contrato, tinham-me levado à certa', 'tivesse estudado e hoje teria um bom emprego'. Em todas estas frases há um 'se' implícito, que, na realidade, não faz falta, o tempo verbal transmite perfeitamente a ideia.
    O uso no Brasil é o mesmo, sem diferenças. Agora lendo os seus exemplos vejo que fui muito peremptório acima. É de fato comum, embora tenha a impressão de que tende a ocorrer mais em tempos compostos como nos seus exemplos mesmo. Inclusive no Brasil a forma normal tende a substituir a composta nalguns casos:

    — estou com fome!
    — a essas horas? Dissesse antes! [(se) tivesse dito antes!]

    P.S. 'pago' não é, neste caso, o particípio canónico, mas é, seguramente a forma mais usada, mesmo com o auxiliar 'ter'. A regra parece estar a mudar, tanto que me parece difícil continuar a insistir no uso do particípio regular.
    No Brasil a insistência continua (claro…) ainda que 'pagado' seja uma raridade hoje em dia… Por lá já começou aliás um fenômeno de irregularização de outros verbos 'chego, ganho, pego, empregue…' até 'carregue' eu já ouvi. Se bem que não é fenômeno exclusivamente brasileiro, pois já li algures que em Portugal também acontece, embora talvez em menor escala. Já há linguistas escrevendo teorias e vaticínios acerca do futuro dos particípios regulares em português, sobretudo porque é um fenômeno que atinge ambas as variantes.
     
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