Sobre as maiúsculas em títulos de filmes, de programas de TV e de rádio, de séries, etc.

meencantesp

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Portuguese - Brazil
Primeiramente, gostaria de dizer que já contatei o Ciberdúvidas, portal de que gosto muito, mas não obtive resposta conclusiva. Também mandei minha dúvida à Academia Brasileira de Letras, mas, pelo tempo médio de resposta que percebo por parte deles, só serei respondido daqui a alguns meses e com meia dúzia de palavras expostas de forma que o melhor seria nem mesmo os ter perguntado. É melhor que eu nem cite, também, a incoerência que há entre várias fontes na internet. O espanhol tem a grande sorte de ter a Real Academia Española, que, no que tange ao suporte público sobre questões gramaticais e ortográficas, é de um nível de superioridade gigantesco ante a nossa ABL, que parece ter um foco maior nas questões literárias. Pois bem, vamos lá.

No Brasil, adota-se, oficialmente, a ortografia do Acordo Ortográfico de 1990. De acordo com ele, bibliônimos podem ser grafados com letra maiúscula somente no começo e em nomes próprios que possam vir a surgir neles. Antes do Acordo, fazia-se uso da regra germânica, que, num esforço para não me estender tanto, não creio ser útil descrever; melhor do que isso, abaixo deixo alguns exemplos:

- Memórias Póstumas de Brás Cubas (antes do Acordo)
- Memórias póstumas de Brás Cubas (depois do Acordo);
- Auto da Barca do Inferno (antes do Acordo)
- Auto da barca do inferno (depois do Acordo).

A regra proposta pelo Acordo é a regra latina, a mesma usada pelo castelhano e pelo francês, enquanto a regra anterior a ele é a germânica, de que faz uso, especialmente, a língua inglesa. Após minhas pesquisas, percebi que se adotou, naturalmente, no Brasil, a nova possibilidade: livros impressos mais recentemente têm recebido títulos com a grafia adaptada à tradição latina. Entretanto, o texto do Acordo não faz referência alguma a títulos de obras como músicas, filmes e programas televisivos, por exemplo; fala-se somente de bibliônimos. Analisando o uso corrente, percebi que a esmagadora maioria daqueles são grafados à inglesa:

- Eu Sou Problema Meu, de Clarice Falcão;
- Campos Neutrais, de Vítor Ramil;
- Sessão da Tarde (programa da Rede Globo).

Recorri então ao que diz a RAE, que trata do espanhol. Segundo a Fundéu BBVA, um portal ligado à instituição, títulos de "obras de criação" (que, segundo eles, são livros, filmes, quadros, esculturas, peças musicais e programas de rádio e de televisão) recebem maiúscula na primeira palavra e em possíveis nomes próprios posteriores, exatamente o mesmo que o nosso Acordo prevê ao falar de nomes de livros (excluindo outros tipos de "obras de criação"). Fiz, a título de curiosidade, uma busca igual à que fiz no caso do português. Minha conclusão foi a de que os hispânicos fazem uso bastante alternado entre as duas normas, com uma leve tendência à forma latina entre órgãos de maior relevância (a Televisión Española, por exemplo). Por fim, devo dizer que tudo isso me deixa confuso. Se, de acordo com o nosso AO, se podem escrever bibliônimos com a regra latina, por que razão foi omitida a abordagem sobre outros tipos de produções? Como devo grafar o nome de uma música, de um filme ou de um programa televisivo? Com a regra latina ou com a germânica? Supondo que a resposta seja que devo usar a primeira, terei de fazer adaptações o tempo todo ao citar uma obra grafada à inglesa (que abundam)? Trata-se de uma questão de estilo? Agradeço-lhes por terem lido o que escrevi.
 
  • machadinho

    Senior Member
    Português do Brasil
    Se, de acordo com o nosso AO, se podem escrever bibliônimos com a regra latina, por que razão foi omitida a abordagem sobre outros tipos de produções? Como devo grafar o nome de uma música, de um filme ou de um programa televisivo? Com a regra latina ou com a germânica? Supondo que a resposta seja que devo usar a primeira, terei de fazer adaptações o tempo todo ao citar uma obra grafada à inglesa (que abundam)? Trata-se de uma questão de estilo?
    @meencantesp, já tive de quebrar a cabeça com esse problema também. Já adianto que não cheguei a nenhuma conclusão definitiva. O que farei é só compartilhar ideias que tive.

    Primeiro, vale lembrar que nada disso, nem mesmo os acordos ortográficos, tem valor de lei. Não passam de meras recomendações, em que pese o linguajar prescritivo e pomposo de que não raro se valem. A normatividade de fato, a que pega pra valer mesmo, vem do âmbito ou da instituição em que se está trabalhando: é o departamento que impõe as normas da ABNT, é a editora que impõe o AO, é a emissora que decide seguir o modelo germânico etc. A implicação disso para o seu problema é a seguinte:

    siga a norma do âmbito em que o seu trabalho se insere; se não houver norma, faça como achar melhor.

    Segundo, no meu caso, o problema tinha a ver com títulos em francês e alemão. Mesmo seguindo à risca o AO de 1990 simplesmente não dá para mexer num título em alemão. Em inglês dá. Em alemão não. Em nada. Ele tem de aparecer bonitinho tal como no original: Phänomenologie des Geistes é Phänomenologie des Geistes em qualquer situação, muito embora em português possa aparecer Fenomenologia do espírito ou do Espírito. Em francês algo similar mas menos dramático ocorre. Na verdade, o francês não segue a regra latina ao pé da letra. Por exemplo, se o título começa com artigo e substantivo em contração, tanto o artigo como o substantivo vão para caixa alta, mesmo que todo o resto fique em minúsculas: L'Amour, não L'amour. Fica feio. Parece amador. Respeito a idiossincrasia do francês. Acho que no italiano é a mesma coisa, mas não tenho certeza.

    Generalizando do alemão e do francês, tirei uma regra óbvia disso — regra, bem entendido, para uso pessoal e sujeita a ser anulada por instância maior (departamento, editora etc.) — afinal, se vale para alemão e francês, vale então para qualquer outra língua, como o inglês, em que os títulos são mais passíveis de mexeção. É a seguinte:

    eu respeito a grafia do original se a língua for estrangeira; sigo o AO em português

    No caso de livros, abro a folha de rosto e copio. Se a folha de rosto não ajudar, por exemplo, se estiver em caixa alta, copio do verso, do cólofon, da lombada, da capa. Faria a mesma coisa com filmes e gravações. Botaria para rodar ou tocar e copiaria tal como aparecesse na tela. Se não aparecer na tela ou não for visual, copio do disco, da caixa, da capa, do encarte.

    Terceiro, as normas recomendações de citação e bibliografia não são apenas para livros. Valem igualmente para material visual, sonoro, performances, tudo. Não leve muito a sério o biblio- de termos como bibliônimo. Bibliografia é uma lista de obras; não é uma lista de livros. Artigo não é livro, por exemplo.

    Quarto, agora o momento rebelde. Todas essas normas recomendações são para citações e bibliografias. No entanto, um texto é mais do que citações e bibliografia. Ora, um texto tem corpo. E no corpo do texto quem manda é o autor. Se uma norma qualquer exigir que, na bibliografia e nas citações, FENOMENOLOGIA DO ESPÍRITO venha em maiúsculas, ali virá, mas no corpo do texto vai aparecer como eu quiser. A única regra que me imponho no corpo do texto é a da consistência: uma vez adotada uma forma, usá-la sistematicamente até o fim.

    Quinto, só para constar, as normas NBR 10520 e 6023 da ABNT de 2002, que tratam de citações e referências bibliográficas, não somente nada esclarecem a respeito, como era de se esperar, como são inconsistentes nesse quesito. Todo tipo de grafia de títulos aparece. Por exemplo, nas páginas 4 e 5 da 10520 vemos:

    O Direito da História​
    O positivismo jurídico​
    Plano diretor da reforma do Estado​
    Learning in adulthoold: a comprehensive guide.​

    Usam a regra germânica e a latina em português, e a latina em inglês. É o vale tudo.

    A boa notícia é que a 6023 fala de materias visuais, sonoros etc., mas não da forma dos títulos deles, pois não fala da forma dos títulos em geral. Presume-se que, na cabeça da ABNT, o que vale para títulos de livros e artigos vale para o todo resto.
     
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    meencantesp

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    Portuguese - Brazil
    Segundo, no meu caso, o problema tinha a ver com títulos em francês e alemão. Mesmo seguindo à risca o AO de 1990 simplesmente não dá para mexer num título em alemão. Em inglês dá. Em alemão não. Em nada. Ele tem de aparecer bonitinho tal como no original: Phänomenologie des Geistes é Phänomenologie des Geistes em qualquer situação, muito embora em português possa aparecer Fenomenologia do espírito ou do Espírito. Em francês algo similar mas menos dramático ocorre. Na verdade, o francês não segue a regra latina ao pé da letra. Por exemplo, se o título começa com artigo e substantivo em contração, tanto o artigo como o substantivo vão para caixa alta, mesmo que todo o resto fique em minúsculas: L'Amour, não L'amour. Fica feio. Parece amador. Respeito a idiossincrasia do francês. Acho que no italiano é a mesma coisa, mas não tenho certeza.

    Generalizando do alemão e do francês, tirei uma regra óbvia disso — regra, bem entendido, para uso pessoal e sujeita a ser anulada por instância maior (departamento, editora etc.) — afinal, se vale para alemão e francês, vale então para qualquer outra língua, como o inglês, em que os títulos são mais passíveis de mexeção. É a seguinte:
    Interessantes informações sobre essas línguas. Não as conheço, pelo que não me baseei nelas para estabelecer paralelos. Sei melhor do espanhol e do inglês.

    eu respeito a grafia do original se a língua for estrangeira; sigo o AO em português
    Para mim, essa questão da tradução é bastante clara: ambos fazemos o mesmo. Não creio que faça sentido alterar um título estrangeiro. O problema é quando está no nosso idioma. Se não há regra definida, e cada um escreve do jeito que quer, como vou citar duas produções de forma diferente no meu texto?

    No caso de livros, abro a folha de rosto e copio. Se a folha de rosto não ajudar, por exemplo, se estiver em caixa alta, copio do verso, do cólofon, da lombada, da capa. Faria a mesma coisa com filmes e gravações. Botaria para rodar e copiaria tal como aparecer na tela. Se não aparecer na tela, copio do disco, da caixa, da capa.
    O problema é que, muitas vezes, o livro tem mais de uma versão. O Memórias póstumas de Brás Cubas, por exemplo, é grafado com a forma latina pela versão recente da Companhia das Letras, mas, nas impressões mais antigas, usa-se a maneira germânica.

    Terceiro, as normas recomendações de citação e bibliografia não são apenas para livros. Valem igualmente para material visual, sonoro, performances, tudo. Não leve muito a sério o biblio- de termos como bibliônimo. Bibliografia é uma lista de obras; não é uma lista de livros. Artigo não é livro, por exemplo.
    Isso mexeu com a minha cabeça. Pensei muito no que viriam a ser os bibliônimos. À primeira vista, interpretei como nomes de livros. Mas logo percebi que talvez houvesse mais interpretações possíveis. Creio que só possam entrar nessa categoria os nomes de obras escritas.

    Quarto, agora o momento rebelde. Todas essas normas recomendações são para citações e bibliografias. No entanto, um texto é mais do que citações e bibliografia. Ora, um texto tem corpo. E no corpo do texto quem manda é o autor. Se uma norma qualquer exigir que, na bibliografia e nas citações, FENOMENOLOGIA DO ESPÍRITO venha em maiúsculas, ali virá, mas no corpo do texto vai aparecer como eu quiser. A única regra que me imponho no corpo do texto é a da consistência: uma vez adotada uma forma, usá-la sistematicamente até o fim.
    No sentido do que falou, pensei que, em textos próprios, devo seguir o que me parece mais lógico e estético. Para mim, a norma latina deve ser aplicada a livros e a quaisquer tipos de obras, como manda a regra espanhola. Se o português não é claro quanto a isso, por que não seguir a regra consistente da nossa língua mais próxima?

    Quinto, só para constar, as normas NBR 10520 e 6023 da ABNT de 2002, quem tratam de citações e referências bibliográficas, não somente nada esclarecem a respeito, como era de se esperar, como são inconsistentes nesse quesito. Todo tipo de grafia de títulos aparece. Por exemplo, nas páginas 4 e 5 da 10520 vemos:

    O Direito da HistóriaO positivismo jurídicoPlano diretor da reforma do EstadoLearning in adulthoold: a comprehensive guide.
    Usam a regra germânica e a latina em português, e a latina em inglês. É o vale tudo.

    A boa notícia é que a 6023 fala de materias visuais, sonoros etc., mas não da forma dos títulos deles, pois não fala da forma dos títulos em geral. Presume-se que, na cabeça da ABNT, o que vale para títulos de livros e artigos vale para o todo resto.
    O Ciberdúvidas recomendou que eu pesquisasse as normas da ABNT. Cheguei a essas que me falou, não obtendo nada conclusivo mesmo assim, até me confundindo mais. Também lhe digo que me pareceram regras muito focadas em dissertações e assemelhados - em que nível se adequam a um texto de blogue, por exemplo? Além disso, caso essa organização decidisse pela norma germânica em certos títulos e a norma latina em outros, qual seria o sentido? É certo que há uma questão de credibilidade e tudo isso, mas... Bom, isso é complexo demais. São muitos os questionamentos.
     

    machadinho

    Senior Member
    Português do Brasil
    O problema é quando está no nosso idioma. Se não há regra definida, e cada um escreve do jeito que quer, como vou citar duas produções de forma diferente no meu texto?
    Então, nesse caso, seja consistente, metódico, sistemático. Se tudo estiver em português, cite as duas produções de um e mesmo jeito, seja lá de que jeito for. O que fica feio é variar dentro do mesmo texto. Escrever Memórias Póstumas e, duas páginas depois, Memórias póstumas não dá. Eu reparo nessas coisas. Há seres bem-aventurados em cujas cabeças nada disso jamais sequer passou.

    O problema é que, muitas vezes, o livro tem mais de uma versão. O Memórias póstumas de Brás Cubas, por exemplo, é grafado com a forma latina pela versão recente da Companhia das Letras, mas, nas impressões mais antigas, usa-se a maneira germânica.
    No caso de títulos em português, ignoro o objeto diante de mim e sigo a forma latina cegamente. No caso dos demais idiomas, sigo uma hierarquia: folha de rosto, verso da folha de rosto, cólofon, capa. Não tenho nenhuma justificativa a dar.


    Isso mexeu com a minha cabeça. Pensei muito no que viriam a ser os bibliônimos. À primeira vista, interpretei como nomes de livros. Mas logo percebi que talvez houvesse mais interpretações possíveis. Creio que só possam entrar nessa categoria os nomes de obras escritas.
    Seja, mas sai muito alto o preço de manter sistemas diferentes para meios de comunicação diferentes. Sem contar que não fica elegante. Se for Memórias póstumas então no mesmo texto será Bachianas brasileiras, doa a quem doer — a mim, antes de a mais ninguém.

    No sentido do que falou, pensei que, em textos próprios, devo seguir o que me parece mais lógico e estético. Para mim, a norma latina deve ser aplicada a livros e a quaisquer tipos de obras, como manda a regra espanhola. Se o português não é claro quanto a isso, por que não seguir a regra consistente da nossa língua mais próxima?
    Concordo. Até porque é o que fica mais bonito tipograficamente falando.


    O Ciberdúvidas recomendou que eu pesquisasse as normas da ABNT. Cheguei a essas que me falou, não obtendo nada conclusivo mesmo assim, até me confundindo mais. Também lhe digo que me pareceram regras muito focadas em dissertações e assemelhados - em que nível se adequam a um texto de blogue, por exemplo? Além disso, caso essa organização decidisse pela norma germânica em certos títulos e a norma latina em outros, qual seria o sentido? É certo que há uma questão de credibilidade e tudo isso, mas... Bom, isso é complexo demais. São muitos os questionamentos.
    Blogue? Blogue é a liberdade. Regulamentar blogue seria o fim. Por mim, quanto às dissertações, davam cabo da ABNT amanhã mesmo.
     
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    meencantesp

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    Então, nesse caso, seja consistente, metódico, sistemático. Se tudo estiver em português, cite as duas produções de um e mesmo jeito, seja lá de que jeito for. O que fica feio é variar dentro do mesmo texto. Escrever Memórias Póstumas e, duas páginas depois, Memórias póstumas não dá. Eu reparo nessas coisas. Há seres bem-aventurados em cujas cabeças nada disso jamais sequer passou.
    No caso de títulos em português, ignoro o objeto diante de mim e sigo a forma latina cegamente. No caso dos demais idiomas, sigo uma hierarquia: folha de rosto, verso da folha de rosto, cólofon, capa. Não tenho nenhuma justificativa a dar.
    O medo que tenho é de que, fazendo-o, eu possa estar descaracterizando o que o artista planejou. Vou usar o exemplo das músicas: é relativamente comum ver, hoje em dia, artistas que nem sequer usam maiúscula na primeira letra do título delas; outros usam a norma germânica, mesmo estando no Brasil; há alguns ainda que seguem a regra latina, mas eu suspeito que o fazem não por estilo, mas por simplesmente não conhecerem as outras opções. Estou fazendo um texto e quero citar três canções, cada uma com uma das características acima. Será melhor escrevê-las todas na norma latina (por uma questão de gosto pessoal) ou na forma como foram divulgadas? Tem uma cantora portuguesa, a Luísa Sobral, cujo nome do canal do Youtube (e creio que até artístico) é luisa sobral, sem acento e sem maiúsculas.

    Blogue? Blogue é a liberdade. Regulamentar blogue seria o fim. Por mim, quanto às dissertações, davam cabo da ABNT amanhã mesmo.
    Nada de regulamentar, só queria que existissem regras mais claras quanto a isso. Gosto de quando a escrita segue um padrão bem definido num texto ou num portal na internet. Nesse aspecto, os portugueses estão em geral de parabéns, já que costumam ter mais cuidado com essas coisas. No Brasil, até em jornais se percebem algumas incoerências e um certo desleixo por parte dos jornalistas. E ri da última parte, kkkk.
     

    machadinho

    Senior Member
    Português do Brasil
    O medo que tenho é de que, fazendo-o, eu possa estar descaracterizando o que o artista planejou. Vou usar o exemplo das músicas: é relativamente comum ver, hoje em dia, artistas que nem sequer usam maiúscula na primeira letra do título delas; outros usam a norma germânica, mesmo estando no Brasil; há alguns ainda que seguem a regra latina, mas eu suspeito que o fazem não por estilo, mas por simplesmente não conhecerem as outras opções. Estou fazendo um texto e quero citar três canções, cada uma com uma das características acima. Será melhor escrevê-las todas na norma latina (por uma questão de gosto pessoal) ou na forma como foram divulgadas? Tem uma cantora portuguesa, a Luísa Sobral, cujo nome do canal do Youtube (e creio que até artístico) é luisa sobral, sem acento e sem maiúsculas.
    Há precedente em literatura. O mais conhecido, creio, é o do poeta norte-americano e e cummings (1894 – 1962), que assinava em minúsculas e tem poemas com títulos também em minúsculas anyone lived in a pretty how town (sic). Os poucos textos de crítica e de história da literatura que vi se dividem. Escreve-se 'Cummings' quando se fala dele, do indivíduo, mas em epígrafes e citações o chique é pôr 'e e cummings'. Já as minúsculas dos títulos dos poemas tendem a ser respeitadas de modo literal.

    A minha tendência, em português, seria normalizar geral na forma latina mas respeitar a opção do artista se houver uma razão artística ou poética por trás da escolha, como há no caso do Cummings. Mas sempre haverá? Não dá para saber a priori. Bom senso e conhecimento. Citar com a assinatura 'e e cummings' numa epígrafe a um capítulo de livro de teoria da biologia é um jeito fácil e meio tolo, mas infelizmente real, de passar a ideia de que se é leigo mas cultivado, biólogo mas letrado. Diz mais coisas do autor do livro que do poeta. É, de novo, o tal senso de pertencimento de que estamos falando noutro fio. Mas o mundo é assim. Um enorme vazio.

    Uma vez deparei com um filósofo — menor, como eu, mas porra-louca — que meteu um sinal de arroba @ no meio do próprio nome num artigo acadêmico. Não me lembro do nome e estou com preguiça de procurar. Suponhamos que seja Carvalh@. :eek: Achei de mau gosto. Fica parecendo nome de usuário de fórum. Dá a impressão de que a criança, com essa travessura, quer passar a ideia, já no nome, de que é super feminista. Não respeitei. Não citei com @. Azar o dele. Homem tem cada ideia boba do que seja ser feminista.
     
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    Vanda

    Moderesa de Beagá
    Português/ Brasil
    Uma vez deparei com um filósofo — menor, como eu, mas porra-louca — que meteu um sinal de arroba @ no meio do próprio nome num artigo acadêmico. Não me lembro do nome e estou com preguiça de procurar. Suponhamos que seja Carvalh@. :eek: Achei de mau gosto. Fica parecendo nome de usuário de fórum. Dá a impressão de que a criança, com essa travessura, quer passar a ideia, já no nome, de que é super feminista. Não respeitei. Não citei com @. Azar o dele. Homem tem cada ideia boba do que seja ser feminista.
    Machadinho, tirando o chapéu pra você. Também penso assim.
     

    meencantesp

    Member
    Portuguese - Brazil
    Uma dúvida: o nome de um canal do Youtube ou de um blogue, por exemplo, deve ser grafado como o de um jornal/de uma instituição (com maiúscula inicial em todas as palavras) ou como os livros que seguem a regra latina? (Obviamente, trato do que convém; sei que é uma questão de estilo, em grande parte.)

    Além dessa, deixo outra: por que "Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990" e "Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa" (ambos nomeados pela Academia Brasileira de Letras) são escritos seguindo a forma germânica?
     
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    machadinho

    Senior Member
    Português do Brasil
    Uma dúvida: o nome de um canal do Youtube ou de um blogue, por exemplo, deve ser grafado como o de um jornal/de uma instituição (com maiúscula inicial em todas as palavras) ou como os livros que seguem a regra latina? (Obviamente, trato do que convém; sei que é uma questão de estilo, em grande parte.)
    Como uma instituição. Não são títulos. São nomes próprios.
    Além dessa, deixo outra: por que "Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990" e "Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa" (ambos nomeados pela Academia Brasileira de Letras) são escritos seguindo a forma germânica?
    Não são títulos. São nomes próprios. O nome 'José Maria da Silva' não segue a norma germânica.
     

    meencantesp

    Member
    Portuguese - Brazil
    Não são títulos. São nomes próprios. O nome 'José Maria da Silva' não segue a norma germânica.
    Por que são nomes próprios? O primeiro até faz sentido, haja vista que outros tratados também são grafados assim. Mas por que "Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa" é um nome próprio? Não é uma espécie de obra escrita/livro?
     

    machadinho

    Senior Member
    Português do Brasil
    O Código Penal é um livro ou um conjunto de leis? É um conjunto de leis. O Vocabulário é um livro ou uma lista prescritiva de palavras? É uma lista prescritiva de palavras. Mas existe também um livro à venda cujo título é Código Penal e que contém o Código Penal. Existe outro livro cujo título é Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa e que contém o Vocabulário. Se eu escrever um tratado com regras de conduta seguidas de punições em caso de contravenção e dar a ele o título de 'Código Penal' nem por isso ele será o Código Penal. Se eu escrever um poema composto de todas as palavras dicionarizadas da língua portuguesa e chamá-lo de 'Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa' nem por isso ele será o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. O meu tratado pode até ser um código penal, mas não é o Código Penal. O meu poema pode até ser um vocabulário, mas não é o Vocabulário. O Código Penal não está à venda. Já o Código Penal sim. O Vocabulário não está à venda. Mas o Vocabulário sim. O Código Penal tem artigos, não tem páginas. O Código Penal tem páginas. O mesmo pro Vocabulário e pro Vocabulário. Não são o mesmo. Me fiz entender?

    A distinção é tênue, pois esses livros, que foram editados por fulano e ciclano e estão à venda aqui e ali, têm por título o nome próprio daquilo que eles expressam, uma lei, um pacto, coisas que pertencem a categorias ontológicas que não são totalmente capturadas pela noção, um tanto pobre, de livro.

    Não quero forçar a barra. Foi só uma tentativa de explicação. E por ela não ponho a mão no fogo. Se não for convincente, que os demais expliquem o que se passa com o Vocabulário. Espero ter ajudado de algum modo até aqui.
     
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    meencantesp

    Member
    Portuguese - Brazil
    O Código Penal é um livro ou um conjunto de leis? É um conjunto de leis. O Vocabulário é um livro ou uma lista prescritiva de palavras? É uma lista prescritiva de palavras. Mas existe também um livro à venda cujo título é Código Penal e que contém o Código Penal. Existe outro livro cujo título é Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa e que contém o Vocabulário. Se eu escrever um tratado com regras de conduta seguidas de punições em caso de contravenção e dar a ele o título de 'Código Penal' nem por isso ele será o Código Penal. Se eu escrever um poema composto de todas as palavras dicionarizadas da língua portuguesa e chamá-lo de 'Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa' nem por isso ele será o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. O meu tratado pode até ser um código penal, mas não é o Código Penal. O meu poema pode até ser um vocabulário, mas não é o Vocabulário. O Código Penal não está à venda. Já o Código Penal sim. O Vocabulário não está à venda. Mas o Vocabulário sim. O Código Penal tem artigos, não tem páginas. O Código Penal tem páginas. O mesmo pro Vocabulário e pro Vocabulário. Não são o mesmo. Me fiz entender?

    A distinção é tênue, pois esses livros, que foram editados por fulano e ciclano e estão à venda aqui e ali, têm por título o nome próprio daquilo que eles expressam, uma lei, um pacto, coisas que pertencem a categorias ontológicas que não são totalmente capturadas pela noção, um tanto pobre, de livro.

    Não quero forçar a barra. Foi só uma tentativa de explicação. E por ela não ponho a mão no fogo. Se não for convincente, que os demais expliquem o que se passa com o Vocabulário. Espero ter ajudado de algum modo até aqui.
    Com as letras maiúsculas, é como se a ABL quisesse dar à própria criação um status quase de "oficial". Não seria mais somente uma obra escrita qualquer, mas O Vocabulário. Isso foi o que captei (e que prepotência, não?).
     
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