Sobre o uso do artigo definido na parte específica de nomes de órgãos públicos como ministérios e secretarias

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meencantesp

Senior Member
Portuguese - Brazil
No mundo lusófono, ademais da preposição, é normal (embora haja exceções) que se use também o artigo definido (que se contrai com a já referida preposição) nas partes específicas de nomes de ministérios, secretárias, etc. Há o Ministério dos Negócios Estrangeiros e o Ministério da Cultura em Portugal, por exemplo, e o Ministério da Saúde e o Ministério da Educação no Brasil, todos com o artigo definido. No entanto, além das exceções no próprio mundo lusófono (na cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul, tem-se a Secretária de Saúde), no mundo da língua espanhola o padrão é sempre o não uso do artigo, ou seja, tem-se por exemplo o Ministerio de Educación, na Argentina, e o Ministerio de Defensa, na Espanha. A minha pergunta é a seguinte: qual é que é o motivo do uso do artigo nos casos em questão? Como os artigos definidos normalmente costumam servir como uma forma de especificação (por exemplo, “roupa de criança” é diferente de “roupa da criança”), seria correto presumir que o artigo está particularizando a parte específica do nome, isto é, dando a entender algo como “Ministério da Cultura (da cultura portuguesa)”? Mais: tem a língua portuguesa uma tendência ao uso de artigos, dado que se usam perante antropônimos, pronomes possessivos, etc.? Seria o “Ministério da Educação” reflexo dessa tendência?
 
  • Alentugano

    Senior Member
    Português - Portugal
    Lendo o seu post encontrei outra diferença: em Portugal usaríamos "Secretaria de Saúde" em vez de "Secretária de Saúde". E até soa bem normal sem o artigo nesse caso. Entretanto, Ministério de Cultura soaria bem estranho para nós. Pode ser apenas uma questão de usos diferentes.
    Assim mesmo, eu acho que você pode ter razão em relação ao uso do artigo "a", ou seja, a expressão com artigo poderia significar que queremos falar de "toda a cultura" em Portugal especificamente.
     
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    jazyk

    Senior Member
    Brazílie, portugalština
    Lendo o seu post encontrei outra diferença: em Portugal usaríamos "Secretaria de Saúde" em vez de "Secretária de Saúde".
    Acho que ele escreveu mal a palavra. Não conheço Pelotas, mas tenho quase certeza de que se trata de secretaria, não de secretária.

    E mesmo no Brasil o uso varia. O Rio de Janeiro tem Secretaria Municipal de Saúde (clique), já São Paulo tem Secretaria Municipal da Saúde (clique).
     

    machadinho

    Senior Member
    Português do Brasil
    Ideias desconexas e meio incoerentes entre si me ocorrem. Não pretendo defender nenhuma delas em particular. Prefiro um ponto de equilíbrio entre elas.

    Como os artigos definidos normalmente costumam servir como uma forma de especificação (por exemplo, “roupa de criança” é diferente de “roupa da criança”), seria correto presumir que o artigo está particularizando a parte específica do nome, isto é, dando a entender algo como “Ministério da Cultura (da cultura portuguesa)”?
    Pode ser. Mas o nome 'Ministério de Cultura Portuguesa', com 'de', igualmente daria conta dessa particularização. De todo modo, a distinção entre roupa de criança e roupa da criança é de fato interessante, mas acho que você não soube explorá-la bem, pois a diferença entre roupa de criança e da criança não é de grau de particularidade; é de tipo de roupa e posse da roupa. Sugiro tirar outra leitura daí: o Ministério da Cultura não é de cultura, mas pertence à cultura, à área da cultura, ao âmbito da cultura. O Ministério da Educação não é de educação, mas pertence à educação, aos interesses da educação. É como se um substantivozinho tivesse sido omitido ali: o ministério da [pasta de] educação, o ministério da [pasta de] saúde, o ministério [da pasta] dos negócios estrangeiros. O ministério [ que serve [ ao ministro | à pasta | à área ] ] da educação.

    Mais: tem a língua portuguesa uma tendência ao uso de artigos, dado que se usam perante antropônimos, pronomes possessivos, etc.? Seria o “Ministério da Educação” reflexo dessa tendência?
    (Estou perfeitamente ciente da tensão entre o que escrevi acima e o que vou escrever abaixo, e foi por isso que achei esse tópico interessante.)

    Respeitadas as regras de concordância, tanto faz 'de' ou 'da' ou 'do' ou 'das' ou 'das', pois se trata de nomes próprios. O significado do nome próprio não é função das palavras que o compõem e da organização sintática dessas palavras. É a coisa referida pelo nome.

    O significado de 'Ministério do Trabalho' é o Ministério do Trabalho. Suponha que, num gesto arbitrário, ele seja rebatizado de 'Ministério de Trabalho' numa gélida manhã de inverno. O significado do novo nome dele será o mesmíssimo significado do nome anterior, a saber, o mesmo ministério, a mesma instituição. Todas as frases verdadeiras que têm usam 'MdoT' continuariam verdadeiras minutos depois com 'MdeT'. Todas as frases falsas que têm usam 'MdoT' continuariam falsas com 'MdeT'. É a mesma semântica.

    O que explica o nome A em detrimento do nome B é, antes, a história atrás do nome. José de Araújo ou José do Araújo? Veja a história dos pais do José. Daí, sim, acho que há, no mínimo, um grão de verdade no que você sugere com esta pergunta aqui:

    Mais: tem a língua portuguesa uma tendência ao uso de artigos, dado que se usam perante antropônimos, pronomes possessivos, etc.? Seria o “Ministério da Educação” reflexo dessa tendência?
    É por aí. 'Da' ou 'de'? Olhe para a história atrás desse nome, não para o nome ele mesmo.

    Lendo o seu post encontrei outra diferença: em Portugal usaríamos "Secretaria de Saúde" em vez de "Secretária de Saúde".
    Foi obviamente erro de digitação.
     
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    Carfer

    Senior Member
    Portuguese - Portugal
    Em espanhol também varia. Recordam-se dos "Ministerios del Amor, de la Paz, de la Abundancia y de la Verdad"? Seria para escapar à conotação orwelliana que as designações oficiais espanholas omitem o artigo?;)
    Pondo de lado a ironia, parece-me natural, no uso português, a menção do artigo. As áreas de actuação dos poderes públicos (e mesmo das empresas privadas) costumam levar artigo em português. Pensando melhor, se houvesse um ministério que hipoteticamente se ocupasse das roupas infantis, seria o "Ministério da Roupa de Criança", não?
     

    machadinho

    Senior Member
    Português do Brasil
    Seria para escapar à conotação orwelliana que as designações oficiais espanholas omitem o artigo?;) Pondo de lado a ironia, [...]
    Ironia ou não, acho que faz todo sentido: ver a história.
     
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    meencantesp

    Senior Member
    Portuguese - Brazil
    Acho que ele escreveu mal a palavra. Não conheço Pelotas, mas tenho quase certeza de que se trata de secretaria, não de secretária.
    Erro de digitação mesmo.

    O Ministério da Educação não é de educação, mas pertence à educação, aos interesses da educação. É como se um substantivozinho tivesse sido omitido ali: o ministério da [pasta de] educação, o ministério da [pasta de] saúde, o ministério [da pasta] dos negócios estrangeiros. O ministério [ que serve [ ao ministro | à pasta | à área ] ] da educação.
    Raciocínio legal.

    (Estou perfeitamente ciente da tensão entre o que escrevi acima e o que vou escrever abaixo, e foi por isso que achei esse tópico interessante.)

    Respeitadas as regras de concordância, tanto faz 'de' ou 'da' ou 'do' ou 'das' ou 'das', pois se trata de nomes próprios. O significado do nome próprio não é função das palavras que o compõem e da organização sintática dessas palavras. É a coisa referida pelo nome.

    O significado de 'Ministério do Trabalho' é o Ministério do Trabalho. Suponha que, num gesto arbitrário, ele seja rebatizado de 'Ministério de Trabalho' numa gélida manhã de inverno. O significado do novo nome dele será o mesmíssimo significado do nome anterior, a saber, o mesmo ministério, a mesma instituição. Todas as frases verdadeiras que têm usam 'MdoT' continuariam verdadeiras minutos depois com 'MdeT'. Todas as frases falsas que têm usam 'MdoT' continuariam falsas com 'MdeT'. É a mesma semântica.

    O que explica o nome A em detrimento do nome B é, antes, a história atrás do nome. José de Araújo ou José do Araújo? Veja a história dos pais do José. Daí, sim, acho que há, no mínimo, um grão de verdade no que você sugere com esta pergunta aqui:
    É por aí. 'Da' ou 'de'? Olhe para a história atrás desse nome, não para o nome ele mesmo.
    Foi um bom exercício de pensamento. Não entendi de primeira, mas quando, relendo, entendi, gostei bastante da segunda parte da sua reflexão. Obrigado pela resposta.

    Suponha que, num gesto arbitrário, ele seja rebatizado de 'Ministério de Trabalho' numa gélida manhã de inverno.
    Não sei se a menção à gélida manhã de inverno foi uma referência literária ou quê, mas veio bem a calhar hoje, porque por aqui o dia de fato amanheceu gélido, com os telhados e os gramados cobertos pela geada. Não acho impossível que em Minas esteja do mesmo jeito, afinal é um estado que pela sua altitude ainda é vulnerável aos frios fortes. Tá, vou parar, o fórum é de línguas, e não de meteorologia.
     

    machadinho

    Senior Member
    Português do Brasil
    [...] gostei bastante da segunda parte da sua reflexão.
    A parte da história atrás dos nomes? Obrigada, mas a reflexão não é minha. É requentado das teorias ditas causais da referência dos nomes próprios.
    Não acho impossível que em Minas esteja do mesmo jeito, afinal é um estado que pela sua altitude ainda é vulnerável aos frios fortes.
    Quem me dera. Faz 18° e todo mundo já tira o cachecol do armário.
     
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