Sujeito desinencial

Readomingues

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Diz-se que o sujeito indeterminado e a oração sem sujeito só possuem predicado, ou seja, toda a oração é considerada como predicado. O mesmo acontece com o sujeito desinencial ou elíptico? Numa oração cujo sujeito é desinencial ou elíptico também só há predicado?

Muito obrigado.
 
  • machadinho

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    Diz-se que o sujeito indeterminado e a oração sem sujeito só possuem predicado, ou seja, toda a oração é considerada como predicado. O mesmo acontece com o sujeito desinencial ou elíptico? Numa oração cujo sujeito é desinencial ou elíptico também só há predicado?
    Bom pergunta, @Readomingues. A resposta depende do plano em que a linguagem será descrita: palavras, sintaxe, semântica ou pragmática? A meu ver, é só no plano das palavras que, propriamente, essas orações consistem só num predicado. Nos demais planos de descrição, todo predicado terá, grosso modo, o seu "sujeito".

    No plano das palavras — a linguagem material, superficial, tal como ela aparece na fala e na escrita — de fato não há sujeito nessas orações que consistem só em predicados pois, neste plano, a rigor, considera-se que os sujeitos são só palavras ou conjuntos de palavras. Por exemplo, em 'a rosa é vermelha', o sujeito é uma expressão, 'a rosa'; o sujeito não é a rosa, a flor, sobre a qual se está falando. O sujeito consiste em duas palavras: 'a' seguida de 'rosa'. Neste plano, as orações de sujeito indeterminado, sem sujeito, sujeito desinencial, elípico etc., são só o predicado mesmo. Em 'estamos felizes', o sujeito é desinencial, ou seja, sabemos via a desinência '-amos' que 'nós' ou 'ela e eu' etc. seria o sujeito caso ele estivesse presente. Mas não está. O sujeito é uma palavra ou conjunto de palavras. Essa palavra ou conjunto de palavras está ausente. Logo a oração consiste, materialmente, só num predicado. (Eu acharia uma baita duma confusão chamar a desinência ela própria de sujeito.)

    Nos demais planos não. Se a frase ou sentença for bem-formada, haverá um "sujeito" para cada predicado. Por exemplo, a proposição expressa pela frase 'Maria é alegre e é gentil', em que ocorre uma oração com sujeito oculto, pode ser simbolizada assim: A(m) & G(m), em que 'm' é uma constante individual que designa Maria, a mulher ela mesma; 'A(x)' é um predicado cuja extensão inclui todas as coisas alegres; e G(x) é um predicado cuja extensão inclui todas as coisas que são gentis. A frase é verdadeira se e somente se o objeto designado por 'm', a saber, a Maria ela mesma, pertencer à extensão do predicado 'A(x)' e também pertencer à extensão do predicado 'G(x)'. Embora o sujeito de 'é gentil' esteja oculto no plano das palavras, no plano semântico a constante 'm', que designa a Maria, está presente: G(m). Noutras palavras, esse "sujeito" aparece duas vezes na proposição.

    O caso mais difícil é o dos sujeitos ditos inexistentes. Por exemplo: 'Está chovendo'. No plano das palavras, o verbo impessoal parece prescindir de sujeito e a oração consiste só num predicado. No plano semântico não. A grande dificuldade, porém, está em chegar a um acordo sobre o que é o "sujeito" das orações de sujeito inexistente. Há quem defenda que a semântica de 'Está chovendo' contém uma referência a um lugar específico e que essa frase diz algo como 'existe algo que é uma chuva e este algo está caindo aqui'. Outros defendem que na semântica de 'Está chovendo', o verbo 'chover' na verdade dá lugar a uma coisa, a chuva. Poderia ser parafraseada assim: 'a chuva está acontecendo'. Outros insistem que só elevando a questão ao plano da pragmática é possível encontrar o "sujeito" do predicado 'está chovendo'.

    Aliás, é também o que eu penso: é só elevando a questão ao plano da pragmática (via princípio da economia de recursos cognitivos e relevância) que se pode determinar o "sujeito" de 'estamos felizes'. Mas que há "sujeito", há. Nós. Sejá lá quem formos.
     
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    Readomingues

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    Bom pergunta, @Readomingues. A resposta depende do plano em que a linguagem será descrita: palavras, sintaxe, semântica ou pragmática? A meu ver, é só no plano das palavras que, propriamente, essas orações consistem só num predicado. Nos demais planos de descrição, todo predicado terá, grosso modo, o seu "sujeito".

    No plano das palavras — a linguagem material, superficial, tal como ela aparece na fala e na escrita — de fato não há sujeito nessas orações que consistem só de predicados pois, neste plano, a rigor, considera-se que os sujeitos são só palavras ou conjuntos de palavras. Por exemplo, em 'a rosa é vermelha', o sujeito é uma expressão, 'a rosa'; o sujeito não é a rosa, a flor, sobre a qual se está falando. O sujeito consiste em duas palavras: 'a' seguida de 'rosa'. Neste plano, as orações de sujeito indeterminado, sem sujeito, sujeito desinencial, elípico etc., são só o predicado mesmo. Em 'estamos felizes', o sujeito é desinencial, ou seja, sabemos via a desinência '-amos' que 'nós' ou 'ela e eu' etc. seria o sujeito caso ele estivesse presente. Mas não está. O sujeito é uma palavra ou conjunto de palavras. Essa palavra ou conjunto de palavras está ausente. Logo a oração consiste, materialmente, só num predicado. (Eu acharia uma baita duma confusão chamar a desinência ela própria de sujeito.)

    Nos demais planos não. Se a frase ou sentença for bem-formada, haverá um "sujeito" para cada predicado. Por exemplo, a proposição expressa pela frase 'Maria é alegre e é gentil', em que ocorre uma oração com sujeito oculto, pode ser simbolizada assim: A(m) & G(m), em que 'm' é uma constante individual que designa Maria, a mulher ela mesma; 'A(x)' é um predicado cuja extensão inclui todas as coisas alegres; e G(x) é um predicado cuja extensão inclui todas as coisas que são gentis. A frase é verdadeira se e somente se o objeto designado por 'm', a saber, a Maria ela mesma, pertencer à extensão do predicado 'A(x)' e também pertencer à extensão do predicado 'G(x)'. Embora o sujeito de 'é gentil' esteja oculto no plano das palavras, no plano semântico a constante 'm', que designa a Maria, está presente: G(m). Noutras palavras, esse "sujeito" aparece duas vezes na proposição.

    O caso mais difícil é o dos sujeitos ditos inexistentes. Por exemplo: 'Está chovendo'. No plano das palavras, o verbo impessoal parece prescindir de sujeito e a oração consiste só num predicado. No plano semântico não. A grande dificuldade, porém, está em chegar a um acordo sobre o que é o "sujeito" das orações de sujeito inexistente. Há quem defenda que a semântica de 'Está chovendo' contém uma referência a um lugar específico e que essa frase diz algo como 'existe algo que é uma chuva e este algo está caindo aqui'. Outros defendem que na semântica de 'Está chovendo', o verbo 'chover' na verdade dá lugar a uma coisa, a chuva. Poderia ser parafraseada assim: 'a chuva está acontecendo'. Outros insistem que só elevando a questão ao plano da pragmática é possível encontrar o "sujeito" do predicado 'está chovendo'.

    Aliás, é também o que eu penso: é só elevando a questão ao plano da pragmática (via princípio da economia cognitiva e relevância) que se pode determinar o "sujeito" de 'estamos felizes'. Mas que há "sujeito", há. Nós. Sejá lá quem formos.
    Muito obrigado pela aula.
     
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