Talvez + Pretérito Imperfeito do Subjuntivo ?

Tina Turner

Member
Portuguese - Brasil
Oi, pessoal.

Uma dúvida. Estou traduzindo um diálogo do inglês para o português e estou com uma dúvida. Acham possível utilizar o Pretérito Imperfeito do Subjuntivo (pudesse) nesse caso?

"EU VI O SEU CÃO SENTADO NA JANELA E EU PENSEI QUE, TALVEZ, ELE PUDESSE BRINCAR COM O MEU".

Obrigada.
 
  • pfaa09

    Senior Member
    Portugal - Portuguese
    Acho que tanto "possa" como "pudesse" soam bem neste contexto.
    Como usou o verbo pensar no pretérito, talvez se "adeqúe" o Pretérito Imperfeito do Subjuntivo, mas é só uma opinião.
     

    Carfer

    Senior Member
    Portuguese - Portugal
    Concordo. Não só se pode usar como é o tempo que eu escolheria, se for o caso, para sublinhar que se trata de um mera hipótese, de um desejo ou de uma sugestão. O presente aponta para uma possibilidade real de a acção ainda se vir a concretizar, é mais afirmativo, não indica nem implica condições, apenas a possibilidade. O pretérito, por sua vez, aponta para uma acção cuja possibilidade de concretização não está inteiramente na nossa mão, nesta situação, possivelmente, por depender da vontade do dono do outro cão. Soa como uma forma delicada de fazer o pedido ou a sugestão.
     

    guihenning

    Senior Member
    Português do Brasil
    Eu acho que só usaria o pretérito imperfeito do subjuntivo ‘pudesse’, embora não tenha nada a opor ao presente ‘possa’.

    Parece-me que o que pede o subjuntivo é tanto a hipótese quanto o paralelismo verbal, pois seria a minha opção de modo verbal mesmo sem „talvez“ na frase.
     
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    Donn

    Member
    English - US
    Aproveitando a minha habilidade com Google Translate, la seria "talvez ele pudesse brincar". Claro que Translate não pode adivinhar o sentido atual, mas eu pensava que "talvez" simplesmente manda o subjuntivo? Se não, estou feliz, porque me parece que muitas vezes o indicativo seria mais adequado. Ou a comma pode liberar-se desta regra? como aqui, "talvez, ele [possa/pode/puder/pudesse/etc.]"
     

    Carfer

    Senior Member
    Portuguese - Portugal
    'Talvez' obriga a conjuntivo, efectivamente. Podia não estar entre vírgulas sem mudança de sentido, salvo, talvez :), um ligeiro reforço da ideia de possibilidade. É como se intercalássemos na frase a perífase 'é uma hipótese/é uma possibilidade/é apenas uma suposição' em vez do 'talvez'.
     

    Carlos.HP

    New Member
    Portuguese-Brazilian.
    O português é uma língua complicada até mesmo para os falantes, quando o assunto é gramática, especialmente tempos verbais e a relação e função de cada um do tempos e modos. O texto vai ficar um pouco longo, mas pode ser que te ajude a entender esses tempos verbais, que geram dúvidas até para nós Portuguese speakers.

    Discordo dos colegas: acredito que o tempo verbal adequado para a segunda frase, considerando o tempo pretérito na primeira, é o pretérito do subjuntivo (pudesse) e não o presente do subjuntivo (possa). Explico:

    1. O modo subjuntivo aponta hipóteses, suposições, dúvidas, enquanto que o indicativo, em regra, aponta fatos. Acontece que, se a primeira oração está no passado, a segunda também deve estar no passado: VOCÊ VIU O CÃO SENTADO NA JANELA (passado do indicativo = fato), VOCÊ PENSOU SE TALVEZ ELE NÃO PUDESSE BRINCAR... (passado do subjuntivo = hipótese).

    2. Veja que a conjunção "que", equivale à "se": "... EU PENSEI QUE (SE), TALVEZ, ELE PUDESSE BRINCAR COM O MEU". Acredito que a conjunção "que" leva as pessoas a pensarem que é cabível o presente do subjuntivo (que eu possa, que tu possas, que ele possa etc), mas isso não está correto nessa oração, pois, nela, a conjunção "que" equivale a "se", e você não fala: se eu possa, se tu possas, se ele possa e sim: se eu pudesse, se tu pudesses, se ele pudesse...

    3. Por fim, tudo isso que eu expliquei é baseado no português do Brasil, no português de Portugal, acredito que existam várias diferenças gramaticais e semânticas.
     

    guihenning

    Senior Member
    Português do Brasil
    Discordo dos colegas: acredito que o tempo verbal adequado para a segunda frase, considerando o tempo pretérito na primeira, é o pretérito do subjuntivo (pudesse) e não o presente do subjuntivo (possa). Explico:

    1. O modo subjuntivo aponta hipóteses, suposições, dúvidas, enquanto que o indicativo, em regra, aponta fatos. Acontece que, se a primeira oração está no passado, a segunda também deve estar no passado: VOCÊ VIU O CÃO SENTADO NA JANELA (passado do indicativo = fato), VOCÊ PENSOU SE TALVEZ ELE NÃO PUDESSE BRINCAR... (passado do subjuntivo = hipótese).
    Eu creio que o modo verbal mais adequado seja o que, na hora da expressão, o falante julgue como mais adequado. A gramática mais inerente, por assim dizer, sabe que "pensar" costuma exigir o imperfeito do subjuntivo se estiver numa forma do pretérito, mas sabemos que na língua corrente o imperfeito do subjuntivo compita com o pretérito imperfeito do indicativo em toda a lusofonia sem causar nenhuma ou pouca estranheza: "pensei que ele ia vir hoje".
    O presente do subjuntivo também pode ocorrer aqui, sobretudo se o falante traz a hipótese um pouco mais para o presente ou quando o valor hipotético seja por algum modo enfraquecido: "Cheguei aqui e pensei que alguém talvez possa me ajudar com esse problema" — poderia alguém dizer a um atendente aeroportuário num aeroporto, por exemplo. Neste caso, a pessoa julgou que neste momento alguém a pudesse ajudar ou julgou que a ajuda neste momento da fala lhe fosse de direito. Essas pequenas nuances aqui e ali é que constituem uma série de desvios do uso que alguém esperaria como o mais correto ou adequado e que eu não ousaria julgá-las como erradas, já que o imperfeito do subjuntivo não tem sido simplesmente substituído por uma ou outra forma e sim competido com elas a depender de ene fatores cognitivos de quem fala.

    Por último, um exemplo da literatura "Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil" — Clarice Lispector.
    Eu pessoalmente diria "fosse" ou "era", mas deve ter havido alguma nuance por trás do indicativo e, por isso, creio que tenha sido a opção mais adequada para a Clarice naquele momento.
     
    Last edited:

    Carlos.HP

    New Member
    Portuguese-Brazilian.
    Eu creio que o modo verbal mais adequado seja o que, na hora da expressão, o falante julgue como mais adequado. A gramática mais inerente, por assim dizer, sabe que "pensar" costuma exigir o imperfeito do subjuntivo se estiver numa forma do pretérito, mas sabemos que na língua corrente o imperfeito dia subjuntivo compita com o pretérito imperfeito do indicativo em toda a lusofonia sem causar nenhuma ou pouca estranheza: "pensei que ele ia vir hoje".
    O presente do subjuntivo também pode ocorrer aqui, sobretudo se o falante traz a hipótese um pouco mais para o presente ou quando o valor hipotético seja por algum modo enfraquecido: "Cheguei aqui e pensei que alguém talvez possa me ajudar com esse problema" — poderia alguém dizer a um atendente aeroportuário num aeroporto, por exemplo. Neste caso, a pessoa julgou que neste momento alguém a pudesse ajudar ou julgou que a ajuda neste momento da fala lhe fosse de direito. Essas pequenas nuances aqui e ali é que constituem uma série de desvios do uso que alguém esperaria como o mais correto ou adequado e que eu não ousaria julgá-las como erradas, já que o imperfeito do subjuntivo não tem sido simplesmente substituído por uma ou outra forma e sim competido com elas a depender de ene fatores cognitivos de quem fala.

    Por último, um exemplo da literatura "Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil" — Clarice Lispector.
    Eu pessoalmente diria "fosse" ou "era", mas deve ter havido alguma nuance por trás do indicativo e, por isso, creio que tenha sido a opção mais adequada para a Clarice naquele momento.
    Entendo seu ponto. Realmente, no seu exemplo "Cheguei aqui e pensei que alguém talvez possa me ajudar com esse problema", e assim como no exemplo do autor do tópico, o presente do subjuntivo na segunda oração seria compreensivel, mas ainda assim não parece correto gramaticalmente, nem natural, enfim, realmente são nuances da nossa língua.

    Quanto ao exemplo da Clarice Lispector: Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil, há uma diferença sutil, nesse caso, as orações são coordenadas, ou seja, a oração intercalada pode ser retirada sem interferir no sentido da outra: "Porque eu pensei que amar é fácil"
    Já no exemplo do autor do tópico: "... EU PENSEI QUE, TALVEZ, ELE PUDESSE BRINCAR COM O MEU.", a segunda oração é subordinada á primeira.

    Mas, enfim, corriqueiramente, na linguagem falada, não parece fazer grande diferença, as duas estruturas.
     

    Ari RT

    Senior Member
    Português - Brasil
    Essas pequenas nuances aqui e ali é que constituem uma série de desvios
    É nos 'desvios' que reside a informação. A letra 'u' depois do 'q' não acrescenta nada, é só o esperado, está sempre lá. A riqueza da língua, a banda larga do tráfego de informação, depende dos desvios. Imagine uma sinfonia com uma hora de uma nota só, um quadro em cor sólida...
    Na tentativa de facilitar o entendimento do estrangeiro, permitam-me dividir o problema em duas partes.
    1 - O verbo 'pensar' na acepção de imaginar, supor, pede subjuntivo. Não é que obrigue, é que funciona bem assim, as pessoas entendem o que queremos dizer quando estruturamos assim a sentença. O verbo 'poder' aqui significa 'ser autorizado a'. Até aqui, se estivéssemos construindo a sentença, diríamos "pensei que o seu cão pudesse/poderia brincar com o meu". Excluí o presente do subjuntivo para não brigar com o tempo da oração principal. Já temos algo como 'pensei que você permitiria que o cão brincasse'. Já é o suficiente, se contar com contexto apropriado, para soar como um pedido, mas ainda resta uma pontinha de ambiguidade.
    2 - Agora queremos inserir uma significação mais: é um pedido para que o cão brinque. Essa significação 'a mais' é transportada pela fórmula "talvez + verbo" e pela mudança do tempo verbal para o imperfeito.
     

    gato radioso

    Senior Member
    spanish-spain
    Na minha opinião, é o grau da possível concretização da hipótese o que faz o falante escolher uma ou outra opção, não acham?
    (Não falo aqui tanto de correção gramatical como do uso cotidiano dos falantes)
     

    Carfer

    Senior Member
    Portuguese - Portugal
    Na minha opinião, é o grau da possível concretização da hipótese o que faz o falante escolher uma ou outra opção, não acham?
    (Não falo aqui tanto de correção gramatical como do uso cotidiano dos falantes)
    Acho, mas também não acho que haja incorrecção gramatical nem que o tempo da oração subordinada tenha necessariamente de acompanhar o tempo da oração principal. A oração principal pode estar no pretérito e a subordinada no presente, depende do tempo para que uma e outra remetem. Basta pensar em situações como esta: alguém tenta, sem sucesso, fazer funcionar um aparelho. Outra pessoa diz-lhe. 'Dê cá! Ocorreu-me que talvez eu tenha maneira de o pôr a trabalhar/ Pensei que talvez eu saiba como fazer/ ... talvez eu consiga ... /... talvez eu descubra... / ... talvez eu possa resolver .../ etc.'. Fala-se então de uma possibilidade real, de uma probabilidade de concretizaçao razoável, no imediato ou no futuro, próximo ou distante. Se, ao contrário, dissesse 'Ocorreu-me que talvez eu tivesse maneira de o pôr a trabalhar', no meu português está implícito que o falante tentou, mas não foi capaz ou não conseguiu, que se equivocou quando pensou que a solução estava ao seu alcance, ou então que via a possibilidade como remota ou de concretização difícil ou improvável. Não vejo onde esteja o erro gramatical e frases assim podem ocorrer tanto no uso quotidiano como em textos formais. Obrigar à concordância dos tempos verbais quando as acções não concordam temporalmente não me parece fazer sentido. Isto não obsta a que, no caso em apreço, tenha optado também pelo pretérito pelas razões que já expus, mas daí a extrair dele uma regra absoluta vai uma distância muito grande.
     

    duduc

    Member
    Brazilian Portuguese
    Nota marginal: a mera posição de 'talvez' na oração dá margem a modos diferentes do verbo, sem mudança de pensamento expresso.

    Ele talvez seja gago.
    Ele é talvez gago.

    Ele talvez fosse gago.
    Ele era talvez gago.
     
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