Um caso questionável de omissão de artigo na escrita jornalística

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meencantesp

Senior Member
Portuguese - Brazil
Recentemente me deparei (não pela primeira vez) com um caso de omissão de artigo que me deixou pensativo. Não me lembrando das palavras exatas que eram usadas, deixarei uma frase aproximada, que tinha sido posta no começo da notícia jornalista (após o título e o subtítulo):

Deputado federal João Silva disse nesta quinta-feira que......

Assim estava: sem artigo antes de “deputado” e ao mesmo tempo sem vírgula depois da mesma palavra. Pois bem, essas duas coisas fizeram com que eu estranhasse a frase:

1. A ausência de artigo antes de “deputado federal” parece ser sem sentido tendo em vista que após o cargo vem o nome do seu detentor. Se por um lado a omissão dos artigos vindos antes de nomes de pessoa na escrita é encarada de forma natural pelos falantes da língua (que entendem que nesse caso o artigo é próprio de uma linguagem oral e informal), o mesmo não acontece quando se tem um cargo sucedido de um nome. Não me parece que haja alguém que ache natural ouvir “Imperador dom Pedro II era um estadista”, assim mesmo, sem o artigo definido na frente de “imperador”, ou então — imaginem uma conversa qualquer, mais informal ou mais formal — “Pai, viu que prefeito da cidade assinou aquele decreto?” . Além disso, se só se usasse a palavra “deputado”, isto é, sem o nome do detentor do cargo, o sentido seria naturalmente de indefinição “deputado disse que” (“um deputado qualquer”).

2. A frase estaria perfeitamente adequada se houvesse uma vírgula após “deputado federal”, porque assim esta funcionaria como um aposto, ou seja, a construção seria equivalente a “João Silva, que é deputado federal, disse nesta quinta-feira que......”.

A pergunta é a seguinte: essas construções jornalísticas estão de fato incorretas ou são justificadas do ponto de vista gramatical?

A reflexão que quero deixar já é mais geral: percebo uma tendência nas redes sociais brasileiras à omissão de artigos, desde gente comum até gente famosa. Omissão que contraria a própria tendência da fala, que é a de, sim, pôr os artigos na frente das palavras. A mim tem me sido comum ver sudestinos e sulistas escrevendo com frequência nomes de pessoas próximas sem artigo na frente (sem que isso lhes pareça formal). Cito sudestinos e sulistas porque sei que há áreas do país onde há mesmo uma tendência à omissão, que é a propósito natural, feita até em situações de informalidade (o que não é o caso da maior parte dos lusofalantes). Algo parecido acontece com nomes de lugares: já há quem escreva “França é um país lindo”, “EUA e China tão em briga comercial”, etc., omitindo os artigos em tuítes informais, como se falássemos espanhol ou língua semelhante, algo que me parece inimaginável na fala. É impressão minha ou é um fenômeno que também percebem? Será só uma forma de economizar tempo na digitação ou está havendo/haverá uma mudança também na oralidade?
 
  • Ari RT

    Senior Member
    Português - Brasil
    Bem, no nordeste do Brasil o determinante artigo definido é muitas vezes omitido. "Foi na casa de Fulana, isso pertence a Sicrano, ouvi de Beltrano" onde um paulista (por exemplo) diria "casa da Fulana, pertence ao Sicrano, ouvi do Beltrano".
    Mas não me parece que seja o mesmo fenômeno da omissão do artigo no registro jornalístico. Não sou capaz de definir ou delimitar esse registro, mas podemos notar que a brevidade parece ser a tônica. Também em Inglês ocorre o mesmo, e até com omissões gramaticalmente mais severas: "China, India the countries with more than 1.000.000 inhabitants" ou "Pandemic in Italy, Spain under control".
     
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